segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Passo da Helicóide



Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI/RS


Pensando sobre o necessário ATO DE ENCERRAMENTO desse blog e suas razões, uma imagem recorrente vem povoando a minha mente. A de uma HELICÓIDE*.

Remeto-me então ao período em que participei de uma formação** na qual a figura helicoidal fazia parte de nossas avaliações, representando nossos processo ou projetos. Indicadores como tempo transcorrido, avanços, contextos, velocidade e qualidade eram representados e relatados a partir desta figura. E era muito interessante quando cada um de nós desenhava no quadro a sua helicóide para identificar a situação ou estágio de seu processo ou projeto. O tempo passou e eu deixei para trás essa imagem que hoje insiste em me provocar.

Como sou do tipo que não resiste a uma provocação, em especial quando vem da minha mente inquieta, voltei à figura e busquei utilizá-la para a leitura e avaliação desse momento.

A helicóide que utilizávamos, como é possível observar no desenho acima, recebia em suas laterais duas linhas verticais as quais delimitavam ou delimitam o “espaço projetual” no qual transcorre o processo ou projeto de cada um de nós.

Como vemos, a helicóide faz um movimento ascendente, sendo que cada volta representa uma nova etapa que agrega qualidade. Porém, ela é aberta e sujeita a entradas nem sempre previsíveis, com consequências também imprevisíveis.

Há momentos em que a ascendência é lenta, quase zero. Porém, um processo com baixa entropia, controlado, com pequenas dispersões acompanhadas de permanentes reajustes. Entretanto, quando há um "imput" externo significativo, seja ele positivo ou negativo, o processo e/ou projeto pode entrar em entropia e sair do "espaço projetual". A helicóide “engorda” mais, dispersa mais e ultrapassa as linhas laterais, exigindo re-arranjos, com novas táticas, novas interações, nova energia e novas sinergias. Pode ser uma oportunidade de um novo ciclo. De uma “volta” materializar-se, ou, então, do processo desorganizar-se a ponto de findar-se ou transformar-se em outra coisa. Isto ocorre pela perda do controle. Seja por negligência, por falta de foco, por leitura equivocada de contexto ou por absoluta ingovernabilidade frente a outros fatores externos que entram e alteram as interações.

O que isso tem a ver com o momento atual? e com este blog?

Os três anos em que estive a frente do SEMAPI, integrando a diretoria colegiada, percebo que a minha helicóide não chegou a dar uma volta. O seu movimento, além de lento, quase inerte, foi quase nada ascendente. É importante destacar que quando falo de ascendência refiro- me a avanços significativos e de qualidade, representando mudança de patamar, “realidade mexida” de acordo com os desafios colocados. Destaco também que a helicóide inicia-se não necessariamente no momento avaliado. O presente já é resultado de helicóides anteriores.

O momento atual é de helicóide expandida, “engordada” por “entradas” que estão provocando alta entropia, afetando o movimento e exigindo reposicionamentos acompanhados de criteriosas re-leituras. Como a “volta” nesse período não ocorreu, os desafios continuam. O risco é grande e urge ajustar as velas de acordo com os novos ventos, o que nem sempre é fácil, ou melhor, em geral é muito difícil...

Entretanto, há um alento. Ao analisar a situação atual, constato que a estagnação vivida nesses três anos não foi necessariamente estagnação. Os avanços no diálogo social acerca da sustentabilidade, estabelecido seja com o movimento sindical, ambiental, marcha mundial das mulheres, via campesina, com a categoria e com os (as) trabalhadores (as) do SEMAPI, possibilitou acumular um conjunto de elementos, objetivos e subjetivos, os quais constituíram as bases para criar a possibilidade de iniciar uma “volta” significativa. Ou seja, aquela que não foi dada em três anos, mas que, nesses mesmos três anos, a passos lentos, foi possível semear as sementes.
Re-arrumar para dar a ”volta’ é uma tarefa que vai além de uma pessoa, de um desejo, de um projeto isolado. Depende de um conjunto de forças articuladas. E há circunstâncias em que o conjunto de forças não é favorável. Re-arrumar nessa circunstância que vivencio agora, desafia e assusta. Voltar para um ambiente inóspito com projeto antagônico, fazer movimentos ascendentes, mesmo que lentos é (quase) impossível o que gera um efeito(quase) paralisador.

Mas, como disse, sementes foram semeadas e poderemos ter logo ali na frente o grande “insumo” para iniciar um novo ciclo, ascendente, contínuo e capaz de dar a “volta” de acordo com os desafios que estão a esperar pela ação. Portanto, esperar é preciso, e, já aprendi que em muitos momentos, a “não ação é a melhor ação”.

Então, ESPEREMOS e, de preferência, com serenidade. A resposta chegará junto com a Primavera. Esperaremos as boas notícias as quais serão recebidas com flores!

Queridos (as) companheiros (as), não sei se compliquei, se criei imagens desnecessárias, se optei pela tão criticada “falta de objetividade”, mas essa forma de expressar-me quase se impôs. E meus companheiros (as) de formação e “maestros” que me perdoem se cometi alguma heresia..., mas os elementos da análise helicoidal que vieram a minha mente foram esses...

Bem, o blog Coletivo Desenvolvimento Sustentável, de alguma forma embalou a minha vida nesse período. Muitos retornos que vieram, tenham sido eles pelo próprio blog ou pelo meu email, me realimentaram e me entusiasmaram a continuar.

Fazendo um passeio por ele desde a primeira postagem feita em 31 de outubro de 2007, convenci-me que valeu a pena. Considero-o uma boa “biblioteca”, com muita cor, flor, “aromas”, músicas e boas energias. Capaz de informar e provocar a reflexão acerca do tema da sustentabilidade e sobre o nosso papel nessa complexa teia que é a vida, seja enquanto indivíduos ou seres coletivos e políticos que somos.

Nesse tempo reafirmei minhas convicções, e, sobretudo, constituí em mim com muito mais força a convicção de que a única verdadeira saída é a mudança radical de paradigma. Outra lógica deve orientar a construção do desenvolvimento que queremos. Precisamos colocar em xeque os valores e princípios que organizam o modelo hegemônico e as nossas vidas. Felicidade, bem-viver, realização pessoal e social são conceitos que deverão ser compreendidos a partir de outra perspectiva.

Percebo cada vez mais que nada mudará se a sociedade não “re-fundar” seus valores para, a partir deles, fazer a transformação. Mas, precisa de “insumos”, bons “insumos” para uma sólida e coletiva construção. Lembremos de Paulo Freire: “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. Eis um campo fundamental de luta. Em comunhão fazer à “re-fundação dos princípios”, dos valores e da ética. Apenas assim, será possível.

Pois bem, esse blog, que tratou sobre estas e muitas outras questões, foi constituído pelo Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI, sendo que todos os seus integrantes estão saindo do Sindicato. A atual direção definirá os novos integrantes os quais elegerão as suas formas de comunicação sobre esse tema. Certamente não permanecerá um vácuo por muito tempo.

Para Paulinho, Pacheco e Lauro, companheiros do Coletivo, o meu grande, carinhoso e afetuoso abraço. Embora nem sempre da forma mais coletiva, ideal, o fato é que nos apoiamos aqui e ali, andamos juntos na luta e assim executamos quase que integralmente o nosso planejamento estratégico. O que faltou... bem, aí é outra história...

Abaixo, deixo para todos nós um vídeo que mostra alguns caminhos que trilhamos no período de 2007 – 2010 por entendê-los como estratégicos do ponto de vista de nossos objetivos e desafios políticos, sociais e ambientais. Não foi fácil organizá-lo. Precisei descartar muitas imagens igualmente importantes, pois o tempo exigiu que assim o fizesse.

Mas a vida é assim, feita de escolhas. A grande questão é fazer as escolhas certas e, para que a vida flua e “tenha uma boa finalização” como um bom vinho, arriscar é preciso, ou melhor, fundamental!

Valeu companheiros (as)!

Um grande, forte e SUSTENTÁVEL abraço a todos (as) aqueles (as) que nos acompanharam até aqui.

* Compreendida como modelo isomorfo a “regulación dos sistemas vivientes”. Del Titanic a l Velero. Fundación CEPA.
** Especialización e Maestria en Desarrollo Sustentable – FLACAM. La Plata, Argentina.

Um caminho feito de imagens ( 2007 - 2010 )

domingo, 8 de agosto de 2010

Viva!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é "muito" pra ser insignificante.

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
"quebrei a cara muitas vezes"!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!

Charles Chaplin

domingo, 25 de julho de 2010

Demanda firme eleva área plantada com orgânicos na União Europeia

20/07/2010 - Fonte: Valor Online
Rudy Ruitenberg, Bloomberg

A indústria de produtos orgânicos da União Europeia está ganhando "massa crítica" à medida em que mais consumidores compram esses alimentos sem fertilizantes químicos e pesticidas, segundo um relatório do bloco.

A área com produção orgânica na UE aumentou anualmente, em média, 7,4% entre 2000 e 2008, saindo de 4,3 milhões de hectares para 7,6 milhões de hectares. A agricultura orgânica respondeu por 4,3% das terras agricultáveis em uso em 2008, segundo a UE.

A demanda "tem efeito impulsionador na agricultura orgânica", diz a UE. "Essa expansão deve permitir condições apropriadas para o desenvolvimento da agricultura orgânica no médio prazo e assegurar a manutenção dos prêmios sobre os preços que contribuem para a lucratividade do setor".

A UE tinha 22% da área de agricultura orgânica do mundo em 2008, de acordo com a Switzerland"s Forschungsinstitut fuer Biologischen Landbau. Nos EUA, 1,95 milhão de hectares tinham manejo orgânico, ou 0,6% do total das áreas agrícolas e de pastagem do país, mostra a pesquisa.

"O setor agora se amplia além de uma mera "agricultura de nicho" e alcança uma certa massa crítica", diz firma o documento. A demanda na UE por produtos orgânicos está ultrapassando o crescimento local da oferta. Entre as culturas aráveis, os cereais são a mais importante categoria, com 1,2 milhão de hectares produzidos organicamente em 2007.

A Espanha tinha a maior área com produção orgânica na União Europeia, com 1,13 milhões de hectares. Em percentual, o uso para produção orgânica das terras agrícolas era maior na Áustria, com uma fatia de 16% da área usada para agricultura. O tamanho médio de uma fazenda orgânica na União Europeia excedeu o dos estabelecimentos não orgânicos em 2007, segundo o relatório.

"No setor de pecuária, isso não é surpreendente dados os níveis mais baixos dos estoques e o maior uso de pastagem extensiva", dizem os autores do documento. "Em tais especializações, como lavouras permanentes e produção de vegetais, isso é mais surpreendente".

As fazendas orgânicas usaram menos mão de obra por área, mostram as estatísticas. Isso contraria a percepção de que o segmento emprega mais mão de obra para compensar a ausência de insumos químicos e fertilizantes nitrogenados.

"Contrariamente ao que é frequentemente considerado, os estabelecimentos orgânicos usariam menos mão de obra intensiva do que os convencionais", dizem os autores do relatório.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PLEBISCITO POPULAR pelo LIMITE DA PROPRIEDADE DA TERRA

Iara Borges Aragonez*

Participei ontem do SEMINÁRIO ESTADUAL SOBRE O LIMITE DA PROPRIEDADE DA TERRA: em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar, cujo propósito foi esclarecer sobre o PLEBISCITO POPULAR pelo LIMITE DA PROPRIEDADE DA TERRA e discutir formas de mobilização para garantir a efetiva participação da sociedade.

O Plebiscito acontecerá entre os dias 01 e 07 de setembro de 2010 e será uma oportunidade ímpar do povo brasileiro manifestar-se contra a concentração de terras no país.

Organizou o Seminário a Comissão Pastoral da Terra e Cáritas/RS. Foram palestrantes o advogado popular e educador, Dr.Jaques Alfonsin e também o representantes do CEBI - Centro de Estudos Bíblicos,Edson Costa, da CPT, Terezinha Ruzzarin, da Cáritas/RS, Loiva de Oliveira e da CUT/RS, o sindicalista Celso Woyciechowski.

A abordagem do representante do CEBI teve como eixo condutor a AGRICULTURA FAMILIAR X AGRICULTURA NÃO FAMILIAR a partir dos aspectos econômicos, sociais e políticos. O Dr. Jaques Alfonsin trabalhou aspectos relacionados a Constituição brasileira no que se refere a posse e uso da terra, bem como em relação a consultas populares como o Plebiscito. Loiva Oliveira, apresentou uma retrospectiva histórica das diferentes edições do Grito dos Excluídos, detendo-se na organização do 16º Grito que ocorrerá no dia 07 de Setembro de 2010 e tem como tema ONDE ESTÃO NOSSOS DIREITOS? VAMOS AS RUAS PARA CONSTRUIR UM PROJETO POPULAR. A representante da CPT, Terezinha Ruzzarin, falou sobre a publicação do CADERNO de CONFLITOS SOCIAIS NO CAMPO, destacando que há 25 anos o Caderno vem revelando a trágica realidade brasileira nessa questão.

Além do Plebiscito, está em curso um abaixo assinado com vistas a pressionar o Congresso Nacional para que seja incluído um novo inciso no artigo 186 da Constituição Brasileira, que trata da Função Social da terra, para limitar o tamanho máximo da propriedade. Acessando este link você pode agora mesmo fazer a sua adesão.

Como encaminhamento do Seminmário destaca-se a realização de seminários temáticos, até a data do Plebiscito, com o objetivo de sensibilizar e mobilizar outras organizações para engajarem-se no processo. Para planejar essas atividades ficou agendada para o dia 27 de Julho, 14h, reunião na CUT/RS.

No link é possível assistir o vídeo da Campanha Nacional que conta um pouco da história da propriedade da terra no Brasil, assim como mais informações acerca do tema.

*Coletivo Desenvolvimento Sustentável SEMAPI e Cooperativa GiraSol - Comércio Justo e Consumo Consciente. Porto Alegre/RS.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Entendendo o vazamento de petróleo nos EUA

Por Redação IHU
Entrevista concedida em 08/07/2010

As informações que chegam à população são de que pelo menos cinco mil litros de óleo vazam diariamente do “buraco” do poço de petróleo que sofreu acidente no Golfo do México. Este volume é cinco vezes maior do que o estimado quando a plataforma que extraia óleo deste poço afundou. A IHU On-Line conversou com o professor de Geologia da Unisinos, Gerson Fauth, sobre as implicações técnicas para conter o vazamento e se há chances de ocorrer algo semelhante no Brasil, que, com o pré-sal, começa a investir pesado na extração de petróleo. A entrevista foi realizada por telefone.

“Nesse final de semana, uma tormenta forte deve chegar à região e empurrará o óleo em direção ao litoral. Esse vazamento deve levar até dois meses para ser estancado, e isso causará uma série de consequências no litoral sul dos Estados Unidos, principalmente para a população da Louisiana. Como essa região é pantanosa, o problema é mais grave ainda. Isso porque, se o óleo entrar nessa região de pântano, será impossível retirá-lo”, disse.

Gerson Fauth é mestre em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Geologia pela Universitat Heidelberg (Alemanha). Atualmente, é professor do PPG em Geologia da Unisinos, onde ministra as disciplinas de Bioestratigrafia e Ostracodes.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para entendermos a questão do vazamento do petróleo no Golfo do México. Porque o processo de contenção do óleo é tão demorado?

Gerson Fauth – As condições de onde está sendo retirado esse óleo são de mar profundo. Existe uma série de dificuldades técnicas para se chegar a esse lugar e ter condições para pegar todo esse petróleo que está jorrando do poço. Este óleo, quando sai do “buraco” que se abriu, tende a migrar para a parte mais superficial, mais leve e, na medida em que sai do poço, se espalha bastante, impactando uma área gigantesca. A imprensa tem dito que eram cinco mil barris por dia, mas a conta pode ser muito maior do que essa.

IHU On-Line – Que implicações técnicas são necessárias para a contenção desse vazamento?

Gerson Fauth – A implicação técnica exata ninguém sabe ao certo. Esses tipos de problemas que ocorreram agora não são muito comuns. Ainda assim, há uma série de precauções que devem ser tomadas quando se vai perfurar para extrair o óleo, é preciso ter muitas válvulas e portas que são trancadas caso exista um erro. Comenta-se que uma determinada válvula que precisava ser colocada, não foi. A British Petroleum não tomou certas precauções para evitar problemas que decorreram nessa catástrofe ecológica. Ou seja, houve uma economia que causou esse problema. Quando é uma empresa séria, esse tipo de situação não ocorre.

IHU On-Line – Por quanto tempo se sofrerá com as consequências desse vazamento?

Gerson Fauth – Não se sabe ainda ao certo. Nesse final de semana, uma tormenta forte deve chegar à região, e ela deve empurrar o óleo em direção ao litoral. Esse vazamento levará até dois meses para ser estancado, e isso vai causar uma série de consequências no litoral sul dos Estados Unidos, principalmente para a população da Louisiana. Como essa região é pantanosa, o problema é mais grave ainda. Isso porque, se o óleo entrar nessa região de pântano, será impossível retirá-lo. Provavelmente, muitas gerações vão sofrer com as consequências desse desastre.

IHU On-Line – Que danos ambientais, especificamente, esse vazamento pode causar?

Gerson Fauth – Os mais prejudicados são os ambientes pantanosos no sul dos EUA. Dessa forma, o desastre atinge as aves que vivem sobre a água e a própria população ribeirinha que vive da pesca. Imagine um lugar pantanoso, muita água, pouca energia, poucas ondas, que é invadido por um óleo que bate nos troncos e nas folhas. Dificilmente ele vai ser retirado. A mesma coisa aconteceu no Alasca, só que num lugar pedregoso. Lá, as pedras foram “lavadas” e o problema praticamente solucionado. Como lavar um lugar pantanoso? Quando chega na areia é fácil de tirar, mas nos pântanos não.

IHU On-Line – Algo parecido pode acontecer no Brasil?

Gerson Fauth – É pouco provável. Bom, pode acontecer com qualquer sonda, qualquer plataforma no mundo em que não sejam tomadas as devidas precauções. As chances de isso acontecer no Brasil são pequenas, porque as empresas que trabalham aqui são mais sérias. No caso dos EUA, houve uma espécie de “quarteirização”, pois uma empresa cedeu à outra empresa, que cedeu para uma terceira. No final, ninguém se responsabilizou e assumiu a culpa. Mas a BP, que é uma das maiores petroleiras do mundo, está sendo culpada por ser a principal responsável por aquele poço, embora ela não estivesse naquele lugar, naquele momento.

IHU On-Line – O Brasil teria condições de amparar um problema assim?

Gerson Fauth – Nenhum país tem condições. Os EUA são o país mais rico do mundo, com melhor tecnologia, com os profissionais mais capacitados, e não conseguem resolver o problema. O presidente Obama está sendo humilhado por não conseguir contornar a situação. Ninguém está preparado para isso.

IHU On-Line – Esse vazamento no Golfo do México pode mudar de alguma forma a economia do petróleo?

Gerson Fauth – Eu entendo que não, não muda nada. Agora, o que muda é que haverá maiores estudos a respeito de aperfeiçoamento de técnicas para evitar esse tipo de problema no futuro. Na história da extração do petróleo no mundo, existiram vários vazamentos, mas nenhum tão intenso, tenso e catastrófico para o meio ambiente como esse. E também este vazamento no Golfo do México só está na mídia porque é nos EUA. A Nigéria está vivendo o mesmo problema e não está na mídia. O que é lamentável, pois sempre que uma catástrofe como essa acontecesse, a população e o mundo deveriam ser alertados.

Fonte: Envolverde - HU On-Line

Projetos podem prejudicar biodiversidade agrícola, dizem especialistas

Por Noéli Nobre e Verônica Lima, da Agência Câmara

Em audiência pública, Nazareno Fonteles defendeu a inconstitucionalidade da proposta (PL 268/07) que permite a alteração genética de sementes, a fim de torná-las estéreis.

Projetos de lei que tramitam na Câmara podem prejudicar os produtores e a biodiversidade da agricultura brasileira, segundo especialistas do setor. O assunto foi debatido nesta quinta-feira em audiência pública das comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Entre as proposições criticadas está o PL 2325/07, que condiciona a venda de produtos agrícolas à autorização expressa do detentor da patente da cultivar utilizada para o plantio. Cultivar é a espécie vegetal certificada de acordo com a Lei de Proteção de Cultivares (9.456/97).

Outra medida contestada foi a proposta (substitutivo ao PL 268/07) que libera, em determinadas situações, o plantio, a comercialização e a pesquisa de sementes geneticamente modificadas para serem estéreis. Nesses casos, essas sementes não se reproduzem, impedindo que o agricultor possa utilizá-las em uma safra futura.

Apropriação de sementes
Na reunião, a promotora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) Juliana Santilli e a representante da Articulação Nacional de Agroecologia Larissa Packer afirmaram que os projetos incentivam a apropriação privada de sementes por grandes empresas multinacionais, impedindo o chamado “uso próprio” por agricultores. Com isso, o País tem de importar cultivares.

Outra consequência, conforme Larissa, é a redução da biodiversidade, uma vez que o agronegócio baseado na tecnologia privilegia a monocultura. “Até 2030, poderemos ter 75% das espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção. Hoje, esse número é de 36%”, disse.

Santilli ressaltou que a agrobiodiversidade será essencial no enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas pelo País. “A diversidade permite que as espécies se adaptem às mudanças ambientais”, afirmou. A promotora sugeriu a criação de um fundo de apoio a programas de conservação da biodiversidade agrícola, formado com recursos da venda de sementes.

Pedido de arquivamento
O deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), que sugeriu a audiência, pediu o arquivamento dos projetos. Fonteles disse que tem se reunido com autores e relatores para discutir o assunto. Caso as propostas sejam aprovadas pela Câmara, ele cogita apelar para a Justiça contra as medidas.

O parlamentar classificou as propostas como inconstitucionais, pois, segundo ele, qualquer prática que leve à redução do patrimônio genético e da diversidade de espécies está proibida pela Constituição.

Anteprojeto
O Ministério da Agricultura apresentou à Casa Civil um anteprojeto de lei que regula o acesso aos recursos genéticos, a fim de desenvolver novas raças de animais e variedades de plantas. “Esse projeto tem como foco promover o melhoramento genético, indistinto de onde ele ocorra (propriedade, empresa ou instituto de pesquisa), e principalmente resguardar as práticas tradicionais”, explicou o assessor de Propriedade Intelectual e Tecnologia da Agropecuária do ministério, Leontino Taveira.

Para os críticos, no entanto, o anteprojeto, assim como as propostas em análise na Câmara, restringe o direito ao livre uso da agrobiodiversidade.

Edição – Marcelo Oliveira
(Envolverde/Agência Câmara)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Candidatos assumem compromissos em defesa da Emater/RS


A Frente de Defesa da Extensão Rural realizou nesta quinta-feira (1º) o Seminário Estadual SOS Emater – O presente e o futuro da Extensão Rural em Debate. Os trabalhadores da Casa atenderam ao chamado das entidades e lotaram o Teatro Dante Barone.

Entidades defendem maior investimento

Na abertura do seminário, os representantes das entidades que compõem a Frente de Defesa da Extensão Rural (ASAE, SEMAPI, SENGE, SINTARGS, FAZER, ASAPAS, AESR, AGC) destacaram a urgência de um plano de fortalecimento da empresa e a importância da união de todos em prol deste objetivo.

Também participaram da mesa de abertura o diretor da Emater Romeu Rodhi, o delegado do MDA/RS, Nilton Pinho de Bem, e o presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo, deputado Edson Brum.

Depoimentos de agricultores emocionam

No início da tarde, após a entrega de alimentos trazidos pelos trabalhadores ao Banco de Alimentos, o seminário foi retomado com depoimentos de agricultores familiares. O produtor Eronito Vencato, de Tapes, ressaltou que sem a extensão rural os agricultores não sobreviveriam no campo. “Estamos vendo a falta de profissionais em muitos municípios. Os técnicos têm que se desdobrar. Muitas vezes deixam suas famílias de lado para estar lá nos atendendo. A Emater faz parte da família do produtor”.

Veja matéria na íntegra e fotos no site do SEMAPI: www.semapirs.com.br

Abaixo, reveja vídeo que registra a já incansável luta dos(as) trabalhadores(as) da EMATER/RS, em 2007, em defesa da extensão rural e da agricultura familiar. Belo trabalho feito pela Engenho Comunicação e Arte. Meu destaque para a escolha da música.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cooperativa opera pequenas centrais hidrelétricas com baixo impacto ambiental

Um sistema de geração de energia instalado no norte do Estado virou exemplo de prática sustentável para o mundo. O modelo de represas para abastecimento de hidrelétricas da Cooperativa de Distribuição de Energia (Creluz), de Pinhal, foi reconhecida por uma ONG britânica pelo uso adequado dos recursos naturais.

A cerimônia de premiação será amanhã, em Londres, com o anúncio do projeto vencedor. A cooperativa gaúcha é a única finalista que produz energia por meio de usinas hidrelétricas, em um sistema que não necessita de grandes represas. São seis Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), movidas pela água dos rios, evitando alagar grandes áreas e retirar famílias de suas propriedades.

– Quando se fala em usinas hidrelétricas, as pessoas imaginam um ecossistema que se perde e famílias que precisam ir embora. Mas não é o que acontece aqui. A água do rio é aproveitada com o menor impacto possível – ressalta Joviano Perotti, assessor de gestão ambiental da cooperativa.

Com o sistema, a Creluz gera e distribui energia para cerca de 20 mil famílias em 36 cidades da Região Norte. Cerca de 70% dos associados da Creluz são agricultores, e o grupo também atende a reservas indígenas em Liberato Salzano e Iraí, em parceria com o programa federal Luz Para Todos.

– Além do mínimo impacto ambiental, chamou a atenção da ONG o preço da energia, que não é reajustado há seis anos para o associado e até teve redução – explica Elemar Battisti, presidente do Grupo Creluz.

Modelo para o mundo
O PRÊMIO
- A distinção é concedida pela Ashden Awards, ONG fundada em 2001 que incentiva a geração de energia limpa, renovável e sustentável em países da América Latina, África e Ásia, além do Reino Unido. Nesta edição do prêmio, concorreram 104 projetos de 49 países.
- Em fevereiro, um juiz do prêmio visitou as seis usinas e entrevistou associados. Em março, a ONG anunciou que a cooperativa gaúcha havia sido selecionada como uma entre as seis finalistas.
- Em maio, um documentarista da BBC de Londres esteve na região para gravar um documentário de cinco minutos, que será apresentado amanhã, durante a cerimônia de premiação.
OS OUTROS FINALISTAS
- Índia, D. Light Design: projeto de lanternas solares com preço acessível.
- Nicarágua, Tecnosol: energia solar em estabelecimentos médicos.
- Vietnã,Ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Rural: distribuição em larga escala da tecnologia de produção de biogás.
- Quênia, Sky Link Innovators: popularização do uso de biogás para cozinha
- África Sub-saariana (Uganda), Rural Energy Foundation: projeto de estimulo à prática sustentável para produção de energia solar.
A CRELUZ
- É uma cooperativa fundada em 1966, com sede em Pinhal, no norte gaúcho.
- Até o ano 2000, operava apenas com a distribuição de energia de outras empresas.
- Atualmente, tem seis usinas em Taquaruçu do Sul, Seberi, Palmeira das Missões, Erval Seco, Cristal do Sul e Novo Tiradentes.

sábado, 26 de junho de 2010

Sete mitos fatais da agricultura industrial

Mito Um
A agricultura industrial vai alimentar o mundo.

A verdade
A fome no mundo não é causada por falta de alimentos, mas pela pobreza e pela falta de terra que impedem o acesso à comida. Na realidade a alimentação industrial aumenta a fome ao aumentar o custo do cultivo, ao expulsar dezenas de milhões de agricultores de suas terras e ao cultivar principalmente colheitas lucrativas para exportação e luxo.

Como alimentar um mundo faminto? Transformando cada terreno vazio em um canteiro.

Mito Dois
Alimentos industrializados são seguros, saudáveis e nutritivos.

A verdade
A agricultura industrial contamina vegetais e frutas com pesticidas e introduz hormônios de crescimento geneticamente manipulados no leite. Não é surpresa que o câncer, doenças provocadas pela alimentação e obesidade estejam alcançando picos nunca vistos.

Não há nada de seguro no uso rotineiro de fumigantes com brometo de metila e cloropicrim.

Milho consorciado com amarante e leguminosas em base de rotação dispensa pesticidas e adubos químicos para aumentar a fertilidade do solo

Mito Três
A alimentação industrializada é barata.

A verdade
Se você acrescentar o custo real dos alimentos industrializados — seus custos para a saúde, o meio ambiente e os custos sociais — nem nossos cidad ãos mais ricos teriam meios de pagá-los.

Um coquetel químico cobre filas intermináveis de feijão. O "sucesso" comercial da industria de pesticidas exige um custo muito elevado em ecossistemas e saúde humana

A orgia de cores e sabores atrai as pessoa para a feira dos agricultores. Amigos e vizinhos se reúnem para comprar, encontrar-se e celebrar as "estrelas" da estação. Estes são alimentos verdadeiros a preços verdadeiros

Mito Quatro
A agricultura industrializada é eficaz.

A Verdade
Pequenas propriedades produzem mais alimentos por área do que as grandes fazendas. Além disso, fazendas maiores, não diversificadas, requerem maior quantidade de máquinas e produtos químicos. Esta quantidade crescente de insumos está destruindo o meio ambiente e, muitas vezes, levam o agricultor à falência.

Um campo de mil acres,
sem uma única erva daninha à vista, indica o uso nocivo de pesticidas e herbicidas

Cada paisagem contém uma história. Fileiras de colheitas variadas indicam que a roça é diversificada, em pequena escala, permitindo que os predadores e os polinizadores naturais realizem a sua tarefa

Mito Cinco
Os alimentos industrializados oferecem mais variedades.

A Verdade
O que o consumidor realmente recebe no supermercado é uma escolha ilusória. A variedade de produtos nas prateleiras dos supermercados esconde na verdade uma perda trágica de dezenas de milhares de espécies causada pela agricultura industrial.

80,6% das variedades conhecidas de tomates foram
perdidas entre 1903 e 1983

Mito Seis
Agricultura industrial beneficia o meio ambiente e a fauna.

A Verdade
A agricultura industrial é a maior ameaça à biodiversidade.

Mito Sete
A biotecnologia vai resolver os problemas da agricultura industrializada.

A Verdade
A biotecnologia vai destruir a biodiversidade e segurança alimentar e vai forçar os agricultores a deixarem suas terras, consolidando o controle da oferta mundial de alimentos na mão de algumas poucas corporações enormes.

Fonte: Resurgence nº 217, março/abril 2003. Extraído do livro Fatal Harvest
editado por Andrew Kimbrell, Island Press, 2002 www.islandpress.org

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Não aguento mais rúcula

Daniela Gomes Pinto*

Uma das coisas que credito à globalização – e sou grata a ela – é a combinação rúcula-tomate seco-muzzarela de búfala. O trio é banal hoje em dia. Você encontra os ingredientes em qualquer mercado e no cardápio de todo restaurante. Mas quem tem mais de 30 anos deve lembrar: quando éramos crianças, esses ingredientes não existiam nos supermercados. Tínhamos nossas alfaces, mas nada equiparado à rúcula. Tínhamos nossos tomates, mas nada igual ao tomate seco. O mundo globalizado colocou em nossa mesa a mesma comida dos pequenos vilarejos italianos. Mas não necessariamente diversificou nosso cardápio.

A ideia de que só a agricultura industrial poderia dar conta de alimentar o planeta todo é um dos grandes mitos da globalização. Seus defensores idolatram o avanço tecnológico da produção alimentícia em grande escala, que soube superar as limitações relacionadas às estações do ano, às localidades geográficas, aos riscos de pragas. O resultado? Você pode comprar sua rúcula em qualquer lugar, em qualquer época do ano. O problema? Ai de você se bater uma saudade das alfaces de antigamente. Daqui a pouco, elas não existirão mais.

A variedade conhecida no Brasil como “alface americana”, famosa pela sua absoluta falta de sabor na minha humilde opinião, foi responsável na última década por mais de 70% de toda a produção de alface nos Estados Unidos. No percurso, os americanos extinguiram uma centena de outras variedades, de amargas a doces, de roxaescuras a verde-claras. O mesmo acontece com as maçãs. Graças aos processos industriais, temos hoje acesso às maçãs vermelhas americanas o ano todo. Mas o preço foi alto. Não se encontram mais os milhares de variedades que existiam até o século passado. Apenas duas variedades são responsáveis por mais de 50% do mercado americano.

Quem levanta esses dados é Andrew Kimbrell, organizador do livro Fatal Harvest, que acusa a monocultura da agricultura industrial de ter reduzido a diversidade natural de praticamente toda produção agrícola em termos de tamanho, cor e sabor. De novo, resgatemos a memória dos trintões. Nós chegamos a conhecer o sabor verdadeiro dos morangos, pequenos e feios nas prateleiras. Hoje, o morango é igual em todo o lugar: tamanho acintoso, brilho ofuscante, sabor medíocre.

A limitação trazida pela agricultura industrial globalizada não é apenas ruim para nosso cardápio. Ela reduz as escolhas das futuras gerações. Recentemente o jornal The New York Times relatou a expedição do cientista Andrey Sabitov à uma remota ilha na Rússia. Um lugar inóspito e frio.

Depois de três dias de caminhada, ele atingiu o vulcão Atsonupuri, para encontrar o que foi buscar: o morango silvestre Fragaria iturupensis, uma variedade não domesticada, parte de um esforço internacional de proteção de sementes ligado às preocupações com as mudanças climáticas. O aquecimento global, as secas e o aumento da salinidade das águas devem extinguir muitas variedades agrícolas.

Uma operação importante, portanto, é salvar sementes de variedades com maior potencial de sobreviver às alterações climáticas. E adivinhe. Frequentemente, as variedades selvagens mostram muito mais adaptabilidade do que as domesticadas.

Colorido sem graça

O problema é que, no passo que estamos, as variedades simplesmente não existirão para contar a sua história. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que no último século perdemos 75% de toda a diversidade genética agrícola mundial. Segundo pesquisa da Rural Advancement Foundation International, em apenas 80 anos – entre 1903 e 1983 - os inventários de estoques de sementes diminuíram vertiginosamente. Perdemos 96% das variedades de milho, 95% das variedades de tomates e 98% da variedades de aspargos.

Por isso, a paisagem do supermercado é traiçoeira. Aquele colorido todo não representa, na prática, tanta diversidade. A indústria alimentícia aperfeiçoou-se em variações sobre os mesmos temas: milho, soja, trigo e arroz. Dois terços de todas as calorias ingeridas pelo homem vêm deles. É uma simplificação radical das potencialidades da alimentação. Mas a matemática serve ao mundo moderno. Temos hoje variedade apenas dos alimentos que atingiram em escala mundial eficiência na plantação, colheita, distribuição e embalagem. E é possível contar nas mãos as empresas detentoras das marcas.

O ciclo é vicioso. Grandes empresas atingem um nível de distribuição em escala mundial que atende as grandes redes de supermercado, que, por sua vez, facilitam o trabalho das compras dos restaurantes. Alimentos mais regionais, peculiares e menos eficientes, não chegam às prateleiras. Comprar de pequenos agricultores dá trabalho, custa mais caro e impõe riscos. Mas o consumidor agradece. Acredite. Pode chegar o dia em que você, assim como eu, não vai mais aguentar rúcula.

* Pesquisadora do Gvces e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela London Schoolof Economics and Political Science

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sustentabilidade Humana


Por Demétrio Sena (*)

Saberes são sabores que advêm das vivências capazes de nos amadurecer.

Seria um sofrimento inexplicável não sofrer. Implicaria não ter ideia do que é sentir um alívio ou superar uma dor. São as sensações, boas ou ruins, que tornam o ser humano completo e o dotam de saberes que dão sentido à vida. Saberes são sabores que advêm das vivências capazes de amadurecer o espírito, a mente, o caráter, para que o corpo não passe pelo mundo como casca inútil cuja polpa nunca teve dulçor. Não teve, porque jamais amadureceu; foi de verde a podre, pulando estágios essenciais ao ser.

O alimento é precioso por existir a fome; a água, por existir a sede. O sono, porque há o cansaço. Logo, só existe o triunfo do soerguimento se houver antes a queda. Nenhuma dessas preciosidades valeria qualquer coisa sem a existência do seu oposto. E não é de coisas divinas que falo aqui. Sequer do próprio possível Deus. Falo das evidências que saltam aos olhos e quase sempre não queremos ver, porque nossa preguiça de viver está sempre à espera das facilidades que os vermes, os fungos e as bactérias também buscam. Com sucesso, porque é de suas naturezas e porque tudo apodrece, tornando-se nutrientes naturais de parasitas e afins. Também não me refiro aos autoflagelos nem aos sacrifícios e sofrimentos buscados como táticas artificiais e hipócritas de puruficação pessoal.

Refiro-me à coragem, à determinação para lutar contra os percalços, adversidades, tristezas e muitas frustrações que são mesmo próprios do existir e não visam méritos ou escolhem nas classes, etnias e culturas quem sofrerá o quê. Sendo assim, devemos dispensar as desventuras evitáveis e combater os efeitos aviltantes daquelas que nada pode anular quando vêm. Isto se chama equilíbrio; sustentabilidade humana. E todo esse exercício deve ser empreendido não apenas com vistas ao eu, mas também (e principalmente) ao nós. O mundo não é um indivíduo. É um coletivo no qual todos podem se ferir de alguma forma, quando algo foge do rumo.

Se todos nós aprendermos a fazer algo pelo outro ou por nós mesmos em razão do todo, seremos uma sociedade sadia; que sabe vencer os desafios e desafiar novos horizontes, mistérios e surpresas que nunca deixarão de surgir.

* Demétrio Sena é educador lotado no CIEP 327, Suruí - Magé - RJ, palestrante e membro da Academia Mageense de Letras

(Envolverde/Pauta Social)

domingo, 6 de junho de 2010

Sabores em risco

por Priscilla Santos
Revista Vida Simples

Não só animais estão ameaçados de extinção. No Brasil, há diversos alimentos perigando desaparecer – levando junto tradições culturais e memórias gastronômicas

No caminho para casa, Carlo decidiu parar no restaurante de um velho amigo com o intuito de se recuperar de uma extenuante viagem com o afago de um prato de peperonata, ensopado italiano salpicado por um pimentão doce e carnudo da variedade “quadrado d’Asti”. Para seu desalento, o que provou foi o empobrecimento do gosto daquela receita dos deuses, sendo que a qualidade do chef era inquestionável. Decepcionado, descobriu que aqueles pimentões perfumados e polpudos que povoavam sua memória gustativa quase não eram mais produzidos na região. No lugar deles, variedades insossas cultivadas em larga escala na Holanda haviam extorquido a originalidade da receita. “São mais baratos e ninguém compra os nossos”, lhe explicou, mais tarde, um ex-produtor dos pimentões de Asti, que sorriu ao dizer que agora cultiva bulbos de tulipas e os envia à Holanda para florescer.

A concorrência dos alimentos produzidos em larga escala é apenas uma das causas que colocam cerca de 800 produtos em uma lista mundial de alimentos em risco de desaparecer. Isso mesmo: assim como animais, ingredientes também podem estar em processo de extinção, afinal, são frutos da natureza. O catálogo internacional chama-se Arca do Gosto, numa referência à metáfora bíblica da Arca de Noé. Foi elaborado e é atualizado constantemente por chefs de cozinha, agrônomos, cientistas da alimentação, jornalistas e antropólogos, que se voluntariam em um projeto da Fundação Slow Food pela Biodiversidade, presidida por Carlo Petrini, o Carlo, que não se conformou com o sumiço dos pimentões de Asti.

Para entrar na lista, um ingrediente ou alimento processado precisa não só estar em risco de sumir do mapa mas ter sabor especial, ser produzido em pequena escala de forma artesanal e estar ligado à memória e à identidade dos habitantes de certa região. “Para mim, como italiano, perder um queijo é como amputar uma igreja gótica ou um castelo medieval, pois gerações de pessoas trabalharam com esse alimento, é um patrimônio identitário, sem ele somos pobres”, diz Petrini.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entidades lançam Rede pela sustentabilidade nas cidades nesta terça

Atividades de mobilização iniciam em 1º de junho, na Casa dos Bancários, em Porto Alegre.

Mostra de vídeos, exposições, debates. Essas e outras atividades estão previstas para acontecer em Porto Alegre a partir do dia 1º de junho, antecedendo a Semana do Meio Ambiente. Os eventos devem ser realizados durante o ano, através da série de encontros Ciclo 21, organizado por ativistas sociais e ambientais. “Pretendemos formar uma rede permanente de mobilização pela sustentabilidade, discutindo o futuro que queremos para nossas cidades”, revela Paulo Mendes Filho, diretor do Semapi e secretário de Meio Ambiente da CUT/RS.

VEJA MAIS EM: www.semapirs.com.br

terça-feira, 25 de maio de 2010

Oficina Gastronômica - Rede EcoSindical

Dia 22 de maio de 2010 realizamos no SEMAPI uma “Oficina Gastronômica”, parte das atividades de formação do Projeto Cultura Ambiental, Consumo e Sustentabilidade, as bases para a formação de uma Rede EcoSindical.

A atividade contou com a participação do Ecólogo Felipe Amaral, do Instituto Biofilia, das nutricionistas Regina Miranda, Presidenta do CONSEA – Conselho de Segurança e Soberania Alimentar do RS e Cláudia Lulkin, eco-nutricionista vegana, que vem resistindo a homogenização dos alimentos e lutando por uma agricultura orgânica desde a Cooperativa COLMÉIA, década de 1980.

A primeira fala da Oficina foi de Felipe Amaral. Sua abordagem foi sobre a BIODIVERSIDADE, considerando que no dia 22 de maio comemora-se o seu dia.

Após, Regina Miranda fez a sua intervenção cuja abordagem destacou os aspectos nutricionais dos alimentos industrializados e sobre o seu impacto na saúde humana, além de demonstrar como podemos recolher em nossa cultura alimentar, livre de processamentos e agrotóxicos, os nutrientes necessários para a nossa saúde.

Na sequência, o trabalho transferiu-se para a cozinha do SEMAPI. Cláudia Lulkin, a partir dos alimentos, criteriosamente selecionados, mostrou como podemos cozinhar em nosso cotidiano, atendendo nossas necessidades nutricionais, a baixo custo, ao mesmo tempo em que contribuímos para o desenvolvimento local e para o fortalecimento da agricultura familiar de base ecológica.

Todos (as) com a mão na massa. Deliciosamente ouvimos, interagimos e elaboramos o nosso almoço. Foi um grande momento. Aprendemos que o prazer nas nossas refeições pode ser encontrado nos produtos mais tradicionais e ao nosso alcance. Produtos da época nos quais as nossas avós eram especialistas. E que essa é uma herança que não podemos e não devemos desprezar. Já dizia, e diz, Michael Pollan, jornalista norte-americano, autor do “Dilema do Onívoro”, “não coma nada que sua avó não reconheceria como comida”.

Aprendemos mais. Cozinhar, estarmos à volta da mesa e criarmos situações que envolvam nossos (as) filhos (as), nossos companheiros (as), nossa família na elaboração e degustação de uma boa comida regional, com produtos locais, tem um valor que ainda somos incapazes de dimensionar.

Vamos pensar sobre isso?

Abaixo as fotos que retratam o nosso sábado.

Um grande abraço.
Iara Aragonez.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Um mundo que ninguém viu e nem verá jamais, na RBS…

BRASIL RURAL CONTEMPORÂNEO

Durante quatro dias Porto Alegre foi palco de uma grande festa. A festa dos trabalhadores e trabalhadoras que produzem o alimento nosso de cada dia. Uma festa que representa uma realidade que ninguém viu, ninguém vê e ninguém verá nos meios de comunicação monopolizados.Quem têm alguma dúvida disso é só reler as edições de Zero Hora durante os quatro dias da feira Brasil Rural Contemporâneo, realizado no Cais do Porto. Isso porque esse Brasil Rural Comtemporâneo- titulo que reflete de forma inequívoca a realidade do Brasil que produz- não representa aquele “Brasil Rural Atrasado” baseado no grande latifúndio na monocultura exportadora, no deserto verde, das fumajeiras, da soja, do trabalho escravo e infantil. Modelo promovido como “moderno” pelos defensores dos monopólios privados de qualquer setor econômico, principalmente das comunicações.

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