quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Com derrocada do neoliberalismo, FSM deve apresentar perfil anticapitalista
por Michelle Amaral da Silva última modificação 27/01/2009 12:07
Para membros da organização, principal desafio é relacionar crise financeira com danos ao meio-ambiente
Renato Godoy de Toledo
da Redação
Entre 27 de janeiro e 1º de fevereiro, mais de 4 mil entidades de cerca de 150 países devem promover discussões com intuito de formular alternativas ao livre comércio, às formas de produção poluentes e, por fim, fomentar a idéia de uma nova sociedade.
Esse último objetivo, aliás, tornou-se ainda mais premente com a exposição dos limites do capitalismo com a decorrência da crise financeira mundial, que teve seu estopim em 2008 e ainda não dá sinais de quando deve terminar.
O principal desafio da 9ª edição do Fórum Social Mundial, que será realizado pela primeira vez em Belém (PA), é relacionar os debates acerca dos modelos de produção com impactos ambientais e climáticos reduzidos com a necessidade de transformação radical do sistema econômico e social.
Para isso, a capital paraense, porta de entrada da Amazônia, apresenta um cenário que contribui para tais reflexões, já que nessa região os limites do sistema estão expostos, com a devastação ambiental promovida pela busca do lucro – grosso modo, o objetivo máximo do capitalismo.
Também se torna simbólico o fato de 27% da região ser composta por territórios indígenas, com 522 povos de diferentes etnias. De acordo com a organização, a participação indígena nessa edição deve ser a maior da história do FSM, com cerca de 3 mil representantes. (Leia matéria abaixo)
Fim do neoliberalismo
Entre duas ativistas da organização do FSM, atuantes desde a primeira edição, há uma opinião de que a edição pan-amazônica pode representar um salto qualitativo em termos políticos. “Desde a primeira edição [em 2001], conseguimos que o Fórum tivesse um perfil anti-Davos [sede do Fórum Econômico Mundial]. Conseguimos mostrar ao mundo que havia uma voz que discordava do pensamento único. O Fórum teve uma primeira edição forte, acompanhando o ascenso do movimento global, que teve seu ápice em Seattle [em 1999, em atos contra a OMC]. No entanto, o 11 de setembro em 2001 foi uma rasteira muito grande nesse movimento, que apresentou um refluxo. Mas o Fórum mostrou muito dinamismo e deu a volta por cima”, avalia Fátima Melo, diretora da Fase, entidade que integra o Fórum Social Mundial.
Na análise de Melo, os esforços dos movimentos sociais aglutinados no Fórum obtiveram resultados importantes, como a eleição de governos progressistas na América Latina. “O Evo Morales é claramente um resultado político do Fórum. Agora, há um grande desafio colocado para essa edição: passar de um perfil antineoliberal para anticapitalista. É muito positivo que estejamos na Amazônia, pois lá torna-se mais evidente os limites do sistema”, pontua Melo, baseando-se nos impactos da crise financeira mundial que levaram governos dos países centrais a adotar medidas antineoliberais.
Moema Valarelli, do Ibase, revela que desde a primeira edição havia quem defendesse que o Fórum assumisse uma posição mais estritamente anticapitalista. Apesar de se colocar nesse bloco, ela ressalta a importância da composição ampla do FSM. “Eu, particularmente, achava que devíamos assumir uma postura anticapitalista desde a primeira edição. A avaliação era de que o neoliberalismo representava aquele momento do capitalismo, os males como a competição, a desigualdade e o individualismo não têm cura, pois são sistêmicos, tal como a ganância e a concentração de renda. Mas foi muito positivo manter o Fórum com aquela amplitude, agregando outros grupos que tinham uma crítica contundente ao neoliberalismo, mas não ao capitalismo”, afirma.
Crise e meio ambiente
Outra importante tarefa que se espera do FSM 2009 é a vinculação dos problemas climáticos e ambientais à crise financeira internacional. Para Valarelli, não se pode dizer que a turbulência econômica mundial “pegou de surpresa” os movimentos sociais.
"Desde 2001, o Fórum já apontava que o modelo econômico era insustentável, pois fortalece e aprofunda as desigualdades e destrói o meio-ambiente. Portanto, o FSM já fazia uma crítica sistêmica”, relembra.
A instabilidade do sistema financeiro mundial tornou o evento ainda mais importante e o fato de o FSM se dar em pleno decorrer da crise deve enriquecer as discussões, de acordo com Fátima Melo. “Quando estourou a crise financeira, enxergamos o acontecimento como uma grande oportunidade para discutir essa questão na Amazônia, que não está alheia ao que acontece no mundo. A crise está associada à questão climática e ambiental. Temos uma grande oportunidade de expor as várias dimensões da crise do modelo e do capitalismo. Esperamos que as discussões se articulem com a questão global mais geral”, diz.
Matéria retirada da Agência Brasil de Fato.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Marie-Monique Robin - "A Monsanto não é confiável"
Eu já sabia!Uma boa leitura, esta entrevista é da revista época - da globo, veja BEM!Marie-Monique Robin - "A Monsanto não éconfiável"Documentarista diz que maior empresa de sementes vende produtos tóxicos e ameaça cientistasJuliana AriniA documentarista francesa Marie-Monique Robin, autora de O Mundo Segundo a Monsanto, dedicou três anos de sua vida para desvendar como uma indústria de químicos virou a maior companhia mundial de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) e uma das empresas mais influentes do planeta, segundo a revista Business Week. Marie trabalha há 25 anos com matérias investigativas e recebeu prêmios como o Albert Londres, em 1995, concedido a um documentário sobre o tráfico internacional de órgãos. Em 2004, ela foi aclamada na Europa ao produzir o também premiado Esquadrões da Morte: a escola francesa, sobre a relação do governo francês com ditaduras da Amérioca Latina, nos anos 70. Para escrever a história da Monsanto, Marie analisou 500 mil páginas de documentos e viajou à Grã-Bretanha, Estados Unidos, Índia, México, Brasil, Vietnã e Noruega. A escritora fala a ÉPOCA sobre o seu último livro. Procurada pela reportagem, a Monsanto afirma que "agricultores enxergam um benefício no cultivo de seus produtos". (clique aqui para ler a resposta completa da empresa).
ENTREVISTA - MARIE-MONIQUE ROBIN
QUEM É
Documentarista e jornalista francesa. Seu documentário que denuncia táticas do serviço secreto francês e conexões com a repressão na América do Sul foi premiado pelo Senado da França.
O QUE FEZ
Já publicou livros denunciando uma rede internacional de tráfico de órgãos e a prática da tortura na Guerra da Argélia. O Mundo Segundo a Monsantovirou um documentário feito pela agência de cinema do Canadá. Para investigar a história, passou cinco anos levantando 500 mil páginas de documentos e viajando para Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Brasil, Vietnã, Noruega e ItáliaÉPOCA - Existem outras companhias que também desenvolvem a biotecnologia e possuem patentes sobre sementes. Por que fazer um livro exclusivamente sobre a Monsanto?
Marie-Monique Robin - Há cinco anos, quando trabalhava em três documentários sobre biodiversidade e os organismos geneticamente modificados - e ainda acreditava que eles não teriam problemas - eu acabei viajando muito. Fui para Canadá, México, Argentina, Brasil e Índia, e em todas essas regiões eu sempre encontrava denúncias contra a Monsanto. Foi quando eu decidi buscar quem é essa companhia que agora é a maior produtora de biotecnologia e de alimentos geneticamente modificados do planeta.ÉPOCA - E como seria esse mundo segundo a Monsanto que você descobriu?
Marie - Cheio de pesticidas. Cerca de 70% dos alimentos geneticamente modificados são feitos para serem plantados com uso do agrotóxico Roundup. Ao comer uma transgênico, a pessoa está praticamente ingerindo Roundup. E, ao contrário do que propagou a Monsanto, esse pesticida não é bom ao meio ambiente e muito menos biodigradável. Ele é muito tóxico. Tenho certeza de que nos próximos cinco anos ele vai ser proibido no mundo, tal como aconteceu com outro produto da companhia, o DDT. O mundo segundo a Monsanto também é dominado por monoculturas. O que é um problema para a segurança alimentar, pois concentra a produção de alimentos na mão de poucos. Também considero arriscado deixar a alimentação mundial na mão de companhias que no passado produziam venenos e armas químicas como o agente laranja, despejado por tropas americanas no Vietnã."A Monsanto foi condenada a pagar US$ 700 milhões de
dólares pela contaminação em Annistion, nos EUA"
ÉPOCA - Os transgênicos são festejados por reduzirem o uso de pesticidas. Eles não teriam ao menos esse lado bom?Marie - Não, isso é mentira. Os transgênicos não reduzem o uso de agrotóxicos. Pelo contrário, eles geram ervas daninhas cada vez mais resistentes aos agrotóxicos. Os transgênicos são apenas uma forma da Monsanto controlar a produção de alimentos no mundo.EPOCA - Como uma empresa pode ter todo esse poder? Isso não é teoria da conspiração?
Marie - Não, de forma alguma. Tenho todas as denúncias que faço baseada em documentos e estudos científicos. Esse monopólio sobre a comida é um processo que acontece há um tempo. Ele começou com a permissão das patentes das sementes, na década de 80. Isso deu às empresas exclusividade sobre as sementes que selecionam. Depois, vieram as chamadas plantas híbridas, que são estéreis e não produzem outras sementes. E por último, houve os royalities sobre os transgênicos. Agoras as multinacionais podem cobrar para si, uma parte do lucro da colheita dos fazendeiros. Os transgênicos também são produzidos para reagirem com produtos específicos. No caso da Monsanto, 70% tem que ser plantado com o Roundup. O que obrigados o produtor a comprar sementes e agrotóxicos da mesma empresa.ÉPOCA - Outras multinacionais produzem nesse mesmo padrão. O que comprova que a Monsanto quer controlar a comida do mundo?
Marie - Após a liberação da venda dos transgênicos, a Monsanto começou a comprar todas as produtoras de sementes do mundo. Hoje, ela é a maior produtora de sementes do planeta. O resultado é que se um fazendeiro quiser mudar sua produção de transgênicos, e voltar ao tradicional, daqui a alguns anos, provavelmente ele não vai conseguir mais, pois só vão existir sementes transgênicas, e da Monsanto. Essa já é uma realidade com a soja dos Estados, e o trigo, na Índia. Nos EUA existem processos contra a Monsanto por monopólio, algo similar ao que aconteceu com a empresa de tecnologia Microsoft.ÉPOCA - E qual seria interesse da empresa em controlar a produção de alimentos?
Marie - Ele querem manter o agrotóxico Roundup no mercado, o produto que responde por 45% do lucro da companhia. Acho que se o Roundup for banido, como acredito que possa acontecer daqui a alguns anos, os transgênicos vão desaparecer. Sem o Roundup, não é interessante ter transgênico.ÉPOCA - Por que culpar exclusivamente a Monsanto pelas armas químicas do Vietnã? A opção por usar armas químicas foi do governo americano, e não das companhias. E outras empresas também venderam químicos ao governo dos EUA.
Marie - A venda de agente laranja para o governo americano foi um dos negócios mais lucrativos da Monsanto. Mas hoje, nenhuma das empresas que lucraram com esse processo quer se responsabilizar. No Vietnã, eu vi hospitais repletos de crianças deformadas, que nascem assim até hoje, porque o ambiente continua contaminado. Além do agente laranja, também usaram bifenil policlorado (um produto banido no mundo) nas misturas jogadas no país, e que a própria Monsanto sabia serem tóxicas desde 1937. Nem os soldados americanos foram alertados para os riscos. Como confiar que uma companhia com essa história domine a produção de alimentos?ÉPOCA - Qual é a prova que a Monsanto sabia que estava vendendo algo tóxico?
Marie - Em 2002, os moradores de Annistion, no EUA, ganharam o direito de uma indenização de US$ 700 milhões de dólares da Monsanto. A empresa foi condenada por contaminar o meio ambiente e as pessoas da cidade com a sua fábrica química. Documentos mostram que desde 1937 a Monsanto sabiam dos riscos da toxidade dos PCBs.ÉPOCA - Os produtos da Monsanto são aprovados por agências como a FDA, que regula alimentos e medicamentos nos EUA. Como dizer que a FDA e outras agências internacionais estão sendo enganadas?
Marie - A Monsanto usa seu poder econômico para pressionar governos e também infiltra seus ex-funcionários em cargos políticos. Esse processo é conhecido como portas giratórias. Tem casos célebres como a de Linda Fisher, que era funcionária da Agência Americana de Proteção Ambiental, e depois foi trabalhar na Monsanto, em 1995, e acabou retornando para EPA, em 2001.ÉPOCA - Se a empresa possui toda essa blindagem, então não há solução?
Marie - Acho que só os consumidores podem evitar um problema maior. Na Europa isso já começou. Ninguém quer consumir transgênicos que não foram testados. Estão todos assustados com a atual epidemia de câncer.ÉPOCA - Mas qual a ligação do câncer com os transgênicos?
Marie - Ainda estou pesquisando o assunto. O meu próximo livro vai ser exatamente sobre isso, a relação entre a comida que consumimos depois da Revolução Verde e o aumento de doenças como o câncer e o Parkison. O mais interessante, um processo que começou justamente entre os próprios agricultores, o mais expostos aos agrotóxicos.
Tudo que se parece ser, acaba, as vezes, de fato sendo!
Nós já sabíamos!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
"Seja Bem-vindo"


Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentavel
Ainda da Nova Zelandia
A resenha abaixo chega a mim como uma provocacao que me impulsiona imediatamente a compartilhar algumas constatacoes feitas no cotidiano, aqui na Nova Zelandia, relacionadas a alimentacao. Apenas, vou me referir as opcoes encontradas em restaurantes, na condicao de "turista" e de quem muito conviveu com residentes, deixando para outra oportunidade as prateleiras dos super-mercados, os quais tambem muito frequentei.
Estou IMPRESSIONADA com o habito alimentar imposto pela presenca assintosa do fast food. Estou falando do Mc Donalds, do Burger King, do KFC e do Subway. Esses "restaurantes" sao o equivalente ao nosso "SEJA BEM-VINDO", pois, juntamente com a Coca-cola, recebem, nas mais minusculas cidades, invariavel e ostensivamente, os passantes. Estes, por um valor medio de NZ$ 8,00, podem fazer a sua refeicao. O problema e que fica praticamente excluida qualquer outra possibilidade de alimentacao. Uma opcao por um restaurante que ofereca uma comida na qual seja possivel reconhecer que e "comida de verdade", pode custar de NZ$ 30,00 a NZ$ 40,00. E um assalto e impraticavel.
Caso voce queira comer em um lugar cuja aparencia nao lembre um Mc Donalds e escolhe um pequeno e simples estabelecimento, depara-se com o "plagio" ou, entao com uma criacao mais original, penso, chamada FISH & CHIPS. Esse prato e espantosamente consumido. E um peixe, literalmente embebido na gordura, com batata tao embebida, quanto. Depois de enfrentar uma fila saem todos felizes, com seu alimento envolto em jornais para manter a temperatura(fotos acima).Ha tambem muita pizza, em especial a Pizza Hutt.
Cadeia de valores oculta nos produtos consumidos? explorou trabalho? degradou o meio-ambiente? vai lesar a saude? nao importa. E mecanico o ato do consumo. Adultos, jovens, criancas, todos consomem sem refletir sobre as consequencias de suas escolhas. O fast food, a uniformizacao da comida e da paisagem(urbana/gastronomica) e uma triste realidade por esses pagos aqui. E, absolutamente consolidada, alias, quase o seu berco.
Sera que ainda temos tempo de construir outros caminhos, resistindo a invasao do fast food, resgatando, afirmando e reafirmando em nosso pais e nosso estado(RS), praticas alimentares com valor cultural, com a nossa identidade, saudaveis e capazes de fortalecer a agricultura familiar, local, ecologica, biodiversa? Ha momentos em que me sinto absolutamente vencida.
E esse e um deles.
Abaixo a resenha.
O DILEMA DO ONIVORO: O que devemos comer no almoço?
Engenheiro Agrônomo (UFLA, 1987), Mestre em Administração (UFLA, 1992), e Doutor em Administração de Empresas (EAESP/FGV,1998). Pós-Doutor em Administração, na área de Gestão Estratégica da Inovação Tecnológica e Operacional, (CenPRA - Ministério da Ciência e Tecnologia, 2007). Professor do UNIFAE e da EAESP-FGV. e-mail – luciel@uol.com.br
luciel@uol.com
O DILEMA DO ONIVORO:
UMA HISTORIA NATURAL DE QUATRO REFEIÇOES
Michael Pollan. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2007
O que devemos comer no almoço? Este livro é uma resposta longa e complexa para esta pergunta aparentemente simples. Ao longo do caminho o autor explica as implicações desta questão, e discute como uma questão tão simples pôde tornar-se tão complicada. As prateleiras de um supermercado, estágio final da cadeia alimentar contemporânea, são o ponto de partida escolhido pelo autor para começar a responder esta questão. O leitor é convidado a seguir o caminho inverso, reconstituindo o trajeto dos alimentos, desde o prato à nossa mesa até a origem de tudo: o solo. Quanto mais longo e intrincado é o percurso que liga as duas pontas dessa cadeia altamente industrializada, mais ignorantes nós nos tornamos a respeito do que estamos comendo.
Por que é cada vez mais complicado decidir o que almoçar? Os alimentos atualmente são vendidos apenas com base em seus benefícios para a saúde: um é capaz de reduzir seu colesterol, outro tem muitas fibras. Os nutrientes tornaram-se mais importantes que a comida em si, e o alimento tornou-se apenas um intermediário na entrega destas substâncias. Assim, escolher o que comer tornou-se uma decisão para profissionais, e não para amadores. Tem-se a impressão de que é necessário ter um diploma de nutrição ou bioquímica para tal escolha!
Afinal, que mistérios estão por trás de uma bolacha industrializada, de um hambúrguer, ou de um simples item de um cardápio de fast-food, como, por exemplo, um McNugget? Para responder a essa e outras perguntas, o autor leva o leitor a explorar, não apenas intelectualmente, mas sensorialmente, todas as implicações - éticas e ecológicas, econômicas e políticas - relacionadas ao ato de se produzir e consumir um alimento. O resultado da investigação é um misto de reportagem, ensaio e depoimento pessoal, numa obra que surpreende ao revelar que a aparente variedade dos modernos supermercados esconde uma alarmante uniformidade imposta pela superprodução industrial. Para chegar a um diagnóstico sobre o que considera a atual desordem alimentar, Michael Pollan investiga três mundos diferentes: o do cultivo e produção de alimentos em escala industrial, o do florescente negócio da agricultura orgânica (analisando o que tem de promissor e de enganoso), e o mundo ligado à caça e ao extrativismo. Neste último, ensaia uma volta à atividade primeira do Homo sapiens, o onívoro por natureza que todos nós somos.
Observamos que há cada vez mais produtos disponíveis nas prateleiras dos supermercados, criando a impressão de que temos mais tipos de comida disponíveis. Pollan explica que é fato que atualmente podemos encontrar diferentes frutas e vegetais do mundo todo num bom supermercado, muito mais do que encontraríamos cinqüenta anos atrás. Mas, ao analisar as fontes de calorias, nota-se que a nossa dieta está menos diversificada. Mais de dois terços das calorias consumidas diariamente vêm de apenas quatro vegetais cultivados em escala mundial e com grandes interesses econômicos: milho, soja, trigo e arroz. Há um século atrás, havia maior diversidade. Esta aparente diversidade no supermercado obscurece a realidade de que a diversidade de nossa dieta vem encolhendo.
Alimentos altamente industrializados são hoje a base da "dieta ocidental", que domina os Estados Unidos da América e se espalha pelo mundo. Nos últimos anos, a indústria vem lançando alimentos que supostamente seriam menos nocivos. Pollan denuncia essa manobra de marketing, que explora o medo dos consumidores para vender produtos de valor duvidoso. E lança um manifesto que propõe a volta à alimentação tradicional, orgânica e saudável dos nossos avós. Ele dá dicas de como qualquer um pode se alimentar com “comida de verdade”, em vez dos produtos artificiais da indústria alimentícia.
Pela primeira vez na história da humanidade, há mais pessoas obesas do que famintas no mundo. Os acima do peso respondem hoje por 1 bilhão da população mundial, diante de 800 milhões que passam alguma forma de privação na alimentação. As causas principais são más dietas e sedentarismo. Não ficamos fora desta estatística. O Brasil nunca foi tão gordo. Os brasileiros com massa corpórea superior à considerada normal já somam 43 milhões – o equivalente a 43% da população adulta, quase três vezes mais do em meados da década de 1990. Por conseqüência, a quantidade de pessoas em dieta para emagrecer também é enorme: 25% dos homens e 50% das mulheres. É um público propenso a acreditar em regimes que se vendem como capazes de operar metamorfoses na silhueta do dia para a noite, sem prejudicar a saúde.
Verifica-se atualmente uma obsessão em obter os nutrientes corretos, em alimentar-se de maneira saudável, e uma percepção errônea de que basta comer a comida correta que tudo estará bem com você e o mundo todo. Precisamos voltar a nos preocupar em conhecer toda a cadeia produtiva dos alimentos e não ficarmos obcecados com alguns nutrientes. A manutenção da saúde deve ser apenas uma conseqüência, e não o objetivo de comer bem. De forma geral devem ser aplicados cinco princípios éticos para uma escolha consciente na hora das refeições: transparência, equilíbrio, humanidade, responsabilidade social e necessidade.
Há ainda as implicações econômicas e políticas. Este livro é um importante alerta para um Brasil que se pretende transformar numa Arábia Saudita dos biocombustíveis. A afirmação de que não haverá necessidade de desmatamento para a produção e a exportação de grandes quantidades de biodiesel se baseia na avaliação de que grandes áreas de pastagens podem ser convertidas para monoculturas de oleaginosas com um pouco de modernização de nossa agricultura. Nos EUA, são necessárias duas calorias de fertilizantes sintetizados a partir do petróleo para produzir uma caloria de milho. E como o gado bovino é alimentado com milho, quase um barril de petróleo é consumido para cada animal abatido. Os excedentes da produção de milho estão na origem tanto da abundância quanto da obesidade. Os subsídios governamentais são enormes, o alimento industrializado tem preços baixos, mas dão origem aos altos índices de obesidade que custam algo em torno de 90 bilhões de dólares por ano em despesas médicas. Ou esses excedentes atravessam a fronteira do México, onde acabam com os pequenos produtores, aumentando a oferta e reduzido os preços.
Toda uma complexa cadeia de interesses gira em torno da produção de milho, impedindo que cessem os subsídios. A insensatez do agronegócio é objeto de uma análise que revela a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às nossas mesas. Há ainda a história dos outros três vegetais cultivados em escala mundial.
A industrialização dos alimentos mudou nossa relação com a comida. Como consumidores estamos desorientados, e não sabemos mais de onde vem nossa comida. A cadeia é tão grande que muita criança pensa que a comida vem do supermercado, que o leite vem da caixinha Tetra Pack. Muitas crianças hoje não entendem que a cenoura ou a batata são raízes. A indústria alimentar nos desconectou do fato de que para sobreviver dependemos de outras espécies, com as quais compartilhamos o planeta. Assim, nós entregamos a preparação dos alimentos para empresas de grande escala. Isto pode ser conveniente, porque nos faz ganhar tempo, mas estas empresas não cozinham bem: usam muito sal, gordura e açúcar, e logo a comida se torna altamente calórica e não tão nutritiva.
Em conseqüência nos tornamos mais vulneráveis. Somos vítimas mais fáceis das manipulações dos alimentos fast-food e das propagandas de dietas milagrosas. É uma das razões pela qual temos tantos problemas de saúde relacionados à alimentação. Não confiamos mais em nossas tradições, não sabemos mais como cozinhar. Precisamos tomar de volta a decisão sobre nossas escolhas alimentares e sobre a preparação das refeições. O livro segue por caminhos fascinantes e sua leitura nos faz perguntar se é isso mesmo que queremos para nossa vida.
Credenciais do autor
Escritor e jornalista estadunidense Michael Pollan é colaborador do New York Times Magazine. É professor de jornalismo na University of California, Berkeley, onde dirige o Programa de Jornalismo Científico e Ambiental. É autor de artigos polêmicos sobre a indústria alimentar. Recentemente lançou seu novo livro, In Defense of Food (Em Defesa da Comida), ainda sem tradução no Brasil.
Referências
POLLAN, Michael. O Dilema do Onívoro: Uma história natural de quatro refeições. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2007
POLLAN, Michael. The Botany of Desire: A Plant's-Eye View of the World. New York: Random House. 2001.
POLLAN, Michael. The Omnivore's Dilemma: A Natural History of Four Meals. New York: Penguin Press. 2006.
POLLAN, Michael In Defense of Food: An Eater's Manifesto. New York: Penguin Press. 2008
NOTA: Este último livro já está disponível em tradução ao português: Em defesa da Comida.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
ÁGUA PARA ACORDAR O MUNDO!

Que coisa bonita a menssagem da nossa amiga Iara lá da Nova Zelandia. Estamos com saudades!
A água (que ninguém vê) na guerra
Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural.
Ana Echevenguá (*)
"Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, 'há uma realidade histórica de guerras pela água' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias". Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002] *
A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem.
Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo.
E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário "Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra" (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que "a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo". Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o "dono" das: - águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão; - águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.
Tais águas são 'transfronteiriças', recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.
Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos. Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.
A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que "é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade"(1). Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território. O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região. Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um 'direito adquirido sobre a água'.
Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu: "Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza".
E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d'água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das casas), confiscam as bombas d'água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d'água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil).
Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização. Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região. A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito. Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita? Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.
Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes: - a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier); - em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d'água; - em 2002, a construção o 'muro de segurança' viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, "o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem..." (2). Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, agora falta água para beber à população palestina do entorno do muro; - antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.
Quantos falam a respeito disso? Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados que objetivavam apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel. Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água - palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia. Na prática, é utopia. O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)? Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?
* Ver http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/ 2002/11/23/jorint20021123004.html (1) Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996. (2) Ver http://www.galizacig.com/actualidade/200403/ portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm (*) Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail:ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
UM VOO ALEGRE, PERFUMADO E PLENO!

Iara Borges Aragonez.
Coletivo Desenvolvimento Sustentavel Semapi
desde a Nova Zelandia.
A POHUTUKAWA e uma arvore que domina a paisagem da Nova Zelandia, Ilha Norte, no mes de Dezembro, pelo vermelho intenso de suas flores. Mas, a destaco aqui pelo significado que tem junto aos MAORIS*. Para estes, as raizes da Pohotukawa, a partir de CAIPE REINGA**, levam o espirito de seus mortos de volta para HAWAIKI, lugar de onde vieram e onde deixaram seus ancestrais. Assim os reencontram.
Refletindo sobre essa crenca e sobre a historia desse povo guerreiro (no melhor sentido da palavra), imaginei o quanto seria bom se todos nos encontrassemos a nossa POHUTUKAWA. E e a partir dessa imagem que abraco e celebro, com cada um que acompanha e faz esse blog, a passagem desse mais um ano.
Desejo que todos nos encontremos uma POHOTUKAWA, seja ela na forma de nossos Ipes, Jacarandas, Pitangueiras, Manacas, Guapuruvus ou Figueiras. Mas, nesse caso, para que as suas raizes nos firmem e nos reafirmem em NOSSA TERRA. Com a forca suficiente para faze-la mais bela e justa e principal simbolo da nossa existencia. Nossa e dos Nossos. E, tambem, que seus frutos, folhas e flores, na danca dos ventos, espalhem a boa energia, entrelacando-nos cada vez mais em um voo alegre, perfumado e pleno. Que nessa danca e nesse voo realizemos o nosso Eu e o nosso Nos, fazendo-nos alegres e felizes o suficiente para espalharmos mais alegria e mais felicidade. Que sejamos ainda mais vitoriosos em nossa lutas ligadas a nossa terra e ao nosso povo. Que os "SEM", em suas marchas cada vez mais vigorosas, afirmem e reafirmem a sua forca, a sua dignidade e a sua identidade.
Assim meus queridos(as) companheiros(as), deixo um grande, forte e amoroso abraco e um FELIZ 2009 PARA TODOS(AS) NOS.
*MAORIS: Povo que chegou na Nova Zelandia, vindos de diferentes Ilhas do Pacifico, ha cerca de 1000 anos. Nos anos 1700 e 1800, com desdobramentos ate os dias de hoje, travaram muitas batalhas com os colonizadores ingleses para defender que as suas terras permanecessem em suas maos.
** CAIPE REINGA: O ponto mais setentrional da Nova Zelandia, onde e possivel assistir o encontro entre o Mar da TASMANIA e o OCEANO PACIFICO. E de la, segundo a crenca MAORI, que a POHUTUKAWA situada na ponta do Cabo, leva o espirito de seus mortos ao encontro de seus ancestrais.
*** Desculpem-me a falta de acentos, mas o teclado que utilizo nao me oferece essa possibilidade.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
DO BLOG RS URGENTE - A CONQUISTA DE CAIBOATÉ
O BLOG DO COLETIVO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL não participou mas acompanhou de perto pelo excelente trabalho dos companheiros blogueiros....valeu esta foi a grande vitória da sustentabilidade de 2008. sem dúvidas o pampa não será mais o mesmo depois desta conquista!
SEGUNDA-FEIRA, 22 DE DEZEMBRO DE 2008
A conquista de Caiboaté
O Coletivo Catarse Comunicação esteve em São Gabriel entre os dias 14 e 18 de dezembro acompanhando a entrega das áreas adquiridas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para os novos assentados da Reforma Agrária. Centenas de fotos e 4 horas de filmagens. Deste trabalho resultou um vídeo (por enquanto), fotos, textos e um blog sobre aConquista de Caiboaté: “Partimos da cidade de São Gabriel em direção à Southall. Para lá rumavam centenas de pessoas para enfim terminar uma marcha interrompida em 2005 pela ministra e então presidente do STF, Ellen Gracie. Desde domingo esse grupo veio caminhando até São Gabriel desde o ponto do interrupto jurídico, o município de Santa Margarida do Sul. Hoje, completariam a jornada, descerrariam os cadeados da porteira da Southall e tomariam aquilo que sempre lhes foi de direito: a terra”. Clique AQUI para ver essa cobertura.O MUNDO SEGUNDO A MONSATO
O Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente – MoGDeMA - tem a honra de convidá-lo(a) para participar da exibição pública do documentário O Mundo Segundo a Monsanto – da dioxinas aos transgênicos, no dia 22 de Dezembro, às 18:00h, no Auditório do Semapi Sindicato. (Lima e Silva, 280)
O documentário bombástico da escritora Marie-Monique Rodin, "O Mundo Segundo a Monsanto" foi ao ar a primeira vez no dia 11 de março. Ele mostra como a Monsanto se envolveu no Projeto Manhatan, que deu origem à bomba atômica. Fala da participação da Monsanto na Guerra do Vietnã com seu agente laranja. Mostra a relação dos transgênicos da Monsanto e o suicídio de milhares de agricultores indianos. Conta a destruição causada agricultura dos países em desenvolvimento pela Monsanto. Mostra as táticas da Monsanto para calar qualquer voz que ameace falar contra algo que ela produz.
O MoGDeMA é uma articulação que reúne ONG's ambientalistas, movimentos sociais do campo e da cidade, sindicatos, representantes de classe, lideranças religiosas, estudantes, professores, pesquisadores e demais lutadores sociais. Surge em decorrência da situação de crise deliberada e progressiva da gestão ambiental no Rio Grande do Sul. Visa ações conjuntas que fortaleçam as políticas públicas em defesa da natureza, promovendo o debate e a luta socioambiental, propondo a reflexão crítica ao modelo de desenvolvimento predatório hegemônico, e construindo as bases sociais para um novo modelo com sustentabilidade ambiental. O MoGDeMA é um espaço universal e plural, aberto a homens e mulheres, instituições e movimentos sociais. Carta de Princípios http://mogdema. blogspot. com/ . Neste endereço eletrônico também existe uma relação de atividades desenvolvidas neste ano de 2008.
Agradecemos desde já e contamos com sua participação.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
BIOMA PAMPA NATURALMENTE GAÚCHO BRASILEIRO
Já faz um ano que o dia 17 de dezembro foi oficialmente instituído como o Dia Nacional do Bioma Pampa e poucos (ou quase nenhum) são os avanços no que tange a preservação e conservação desse bioma único no Brasil. Mesmo contando agora com um “dia nacional” os órgãos ambientais Federal e, principalmente o Estadual, parecem seguir de “costas” para o Bioma Pampa. Inclusive, “curiosamente”, hoje nada tratam do tema em seus sítios eletrônicos.
O Pampa sul-rio-grandense abrange cerca de 180 mil Km2, o que equivale a cerca de 60% da área do RS. O Pampa é caracterizado por uma vegetação campestre, que predomina em relevos de planície, e por uma vegetação mais densa, arbustiva e arbórea, nas encostas e ao longo dos cursos de água, além da ocorrência de banhados e áreas úmidas.
Além disso, as terras pampeanas ocupam uma área de aproximadamente 700 mil km2 entre os países da Argentina, Uruguai e Brasil. No Rio Grande dos Sul apenas 39% de sua área total ainda é constituída por remanescentes de campos naturais (Pillar apud Buckup, 2007).
E mesmo com uma imensa riqueza de biodiversidade e significantes endemismos (ou seja, espécies que só ocorrem nesse ecossistema) apenas 0,46% do Pampa gaúcho está protegido em Unidades de Conservação. Mesmo assim e em ritmo acelerado, os campos estão sendo convertidos em lavouras e plantações de árvores exóticas. Segundo Pillar (2006), entre os anos de 1970 e 2005 mais de 4,7 milhões de hectares de pastagens naturais foram modificadas. Atualmente o RS tem uma área de mais de 500 mil hectares de monoculturas de árvores exóticas e, segundo projeções, deverá ter cerca de um milhão de hectares de plantações de pinus, eucalipto e acácia até 2015.
A metade sul do RS, onde predomina o bioma, desde 2003 tem sofrido a ofensiva dos mega-projetos de três grandes empresas de celulose e papel (Aracruz, Votorantin e Stora Enso). Tais empresas já estão transformando o bioma Pampa e sua biodiversidade em imensos maciços de eucalipto, ou seja, em desertos verdes. Não obstante, além de transformar a biodiversidade do Pampa em desertos verdes também instalarão, pelo menos, três fábricas de celulose.
E o poder público? Enquanto o Governo federal se omite, ou melhor, apenas cria um data comemorativa, o Governo estadual “faz de tudo” para não preservar centímetro qualquer do Pampa. A cúpula do atual poder público estadual (gestão Yeda Crusius) assumiu os investimentos do setor da celulose e papel como projeto de governo e vem incentivando de diferentes formas a consolidação deste setor no Estado.
Estas formas de incentivo incluem, sobretudo, a flexibilização e o descumprimento da legislação ambiental (por exemplo, excluindo ou postergando a apresentação do Estudo Prévio de Impacto Ambiental em empreendimento de florestamento ou reflorestamento para fins empresariais com menos de 1000 hectares).
Além disso, os licenciamentos ambientais dos plantios de eucaliptos estão sendo liberados de forma precária, descumprindo regras e sem a conclusão do Zoneamento Ambiental para atividade de Silvicultura (ZAS), desenvolvido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental e da Fundação Zoobotânica. É importante ressaltam que com o ZAS finalizado, o mesmo foi desqualificado e rechaçado pelas empresas, por algumas entidades e sindicatos e, pasmem, pelo próprio governo, uma vez que o zoneamento limitava plantios de pínus e eucalipto em grande escala e em determinadas áreas do RS. Sendo assim, resta concluir que o descomprometimento real com a questão ambiental e que a falta de políticas efetivas de preservação e de conservação do bioma Pampa tem permitido e incentivado que o mesmo seja convertido em monoculturas de eucaliptos.
Por Cíntia Barenho, Centro de Estudos Ambientais, 18/12/2008
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
NO URUGUAI NÃO DEU CERTO...

Monocultura do eucalipto muda paisagem e vida no Uruguai
Introduzido de forma intensiva a partir dos anos 90, com os primeiros projetos da indústria de celulose que então se alinhavavam por lá, o Uruguai hoje convive com a monocultura do eucalipto ressentindo-se de profundos impactos socioeconômicos. Com 1,1 milhão de hectares cultivados continuamente para dar conta da demanda de 1 milhão de toneladas de celulose produzidas anualmente pela empresa de origem finlandesa Botnia, o país já contabiliza prejuízos ao emprego, inclusive ao segmento do turismo.
O cenário é muito diferente de décadas atrás, em que o eucalipto convivia, em forma de ilhas, com a agricultura e a criação de gado. “Naquela época já se sabia que nada se cultivava a menos de 30 metros do eucalipto, pois cada árvore dessas consome de 30 a 40 litros de água”, lembra Victor Bacchetta, jornalista uruguaio que esteve nesta segunda-feira em Porto Alegre, lançando o livro “A Fraude da Celulose”, que mostra, em seis capítulos, num total de 225 páginas, o processo de empobrecimento socioambiental e cultural decorrente da adoção massiva da cultura do eucalipto.
Palestrante pela manhã no lançamento do Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente na Assembléia Legislativa e, à noite, no Sindicato dos Empregados em Perícias e Fundações do RS (Semapi), Bacchetta fez uma retrospectiva das implicações da entrada e operação do setor de celulose em seu país, comparando com a situação brasileira. Segundo ele, está havendo, especialmente dos anos 70 para cá, uma transferência deste setor, dos países do Norte para os do Sul. “No Brasil, são 5 milhões de hectares de florestas plantadas, num processo que se iniciou no Espírito Santo e no sul da Bahia. Mas nos Pampas, este processo é mais recente, e aqui há um ecossistema totalmente diferente”, observa. “Essa decisão, de trasladar as empresas de celulose do Norte, dos países europeus, para o Sul, é tomada por razões de controle ambiental, porque na Europa se aplicam normas mais restritivas quanto à proteção ambiental, o que aqui não acontece”, sustenta.
Segundo o jornalista, a indústria da celulose necessita de escalas intensivas de produção para se sustentar: “Isso faz parte de uma condição imposta pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que financia programas que, na realidade, institucionalizam a pobreza em um nível minimamente aceitável, e o Governo da Frente Ampla (do presidente Tabaré Vázquez) aceitou plenamente esta política.”
Impacto social
Para a produção de 1,1 milhão de toneladas de celulose, a Botnia, de acordo com Bacchetta, necessita de 200 mil hectares de florestas de eucalipto, que estão plantadas a um raio entre 150 e 200 quilômetros de sua planta. “Se nas décadas de 50 e 60 se falavam em latifúndios de 20 mil, 25 mil hectares, hoje as plantações de eucalipto formam áreas contínuas de 150 mil hectares. Devido a esta florestação, vivemos um segundo processo de esvaziamento do campo, com abandono de atividades agrícolas tradicionais e criação de gado e fechamento de escolas”, descreve.
O impacto mais relevante é sobre o emprego rural. Segundo o último censo do Uruguai, para cada mil hectares de florestas, são empregados 4,8 a 4,9 trabalhadores, enquanto que na criação de gado, para a mesma área, são 5,8 a 5,9 trabalhadores. “No Departamento de Rio Negro, onde está instalada a Botnia [a sede é em Fray Bentos, norte do país], a taxa de desemprego é de 13,8%, de acordo com o censo de abril de 2008, mais elevada que a média do Uruguai todo, que é de 7,6%”, compara o autor.
Atividades de fruticultura ocupam bem mais pessoas: 71 por mil hectares, o que chega a ser 14 vezes mais que a mão-de-obra para o plantio de eucalipto. Este número é ainda maior para a horticultura: 138 indivíduos empregados por mil hectares. “Com o avanço do eucalipto, perdem-se empregos em outras áreas e cresce a violência urbana”, resume Bacchetta, lembrando que na fábrica trabalham 190 pessoas. Ele destaca que houve prejuízos não somente às lavouras tradicionais, mas a atividades como apicultura, turismo e pesca, que perderam 1,4 mil postos de trabalho. “A fábrica está em zona franca, conta com vários benefícios fiscais”, afirma o jornalista, acrescentando que os trabalhadores que operam em atividades de poda, fumigação e outras relacionadas à manutenção do plantio de eucaliptos são terceirizados, fazem atividades eventuais e não têm assegurados cuidados com saúde no trabalho e riscos contra acidentes.
Questões ambientais
A fábrica da Botnia utiliza 86 milhões de litros de água diariamente e devolve 71 milhões. “O problema é que temos aí dioxinas e furanos, material cancerígeno e cumulativo mesmo em pequenas quantidades”, afirma Bacchetta. “O governo uruguaio adotou um limite máximo de emissões de dioxinas e furanos, e muitos técnicos dizem que esses índices são indetectáveis, mas isto é um eufemismo, pois o problema continua, mesmo sendo indetectáveis pelos instrumentos.” A principal causa dessas emissões, diz, é a opção das empresas por tecnologias que não eliminam totalmente o cloro do processo produtivo: “Existem tecnologias TCF, ou seja, processo totalmente livre de cloro elementar, mas não utilizam porque não é rentável. Além disto, as empresas de celulose alegam que com o processo ECF, ou seja, livre de cloro elementar, mas com compostos de cloro, conseguem um produto de melhores características do que com TCF”, explica.
Além das dioxinas, há problemas como emissões de nitrogênio e fósforo em elevadas quantidades, que ocasionam eutrofização, implicando aparecimento de algas e conseqüente mortandade de peixes e espécies vegetais. “O Rio Uruguai já estava comprometido ambientalmente com as elevadas quantidades de nitrogênio e fósforo dos efluentes de outras indústrias e das substâncias químicas empregadas nas lavouras. Agora, a situação se agrava”, nota.
“O argumento da Botnia de que as florestas de eucalipto capturam emissões de carbono, sendo portanto um mecanismo de redução da poluição do ar, diminuição do efeito estufa etc, não considera o fato de que as lavouras tradicionais absorvem muito mais o dióxido de carbono, pelas folhas e pelo solo. Não se pode comprar o papel apenas das folhas das plantas de eucalipto com o da biomassa do solo nesse tipo de absorção”, argumenta.
Incidente
A fábrica da Botnia entrou em operação em outubro do ano passado, depois de um incidente diplomático entre Uruguai e Argentina, pois a planta fica a 40 quilômetros de Gualeguaychu, na proivíncia de Entre Rios, Argentina, onde há uma forte tradição ambientalista. Em abril de 2005, o acirramento de ânimos entre os dois países chegou ao auge, quando moradores da cidade argentina fecharam a ponte que liga Gualeguayachu a Fray Bentos.
Conforme Bacchetta, o governo uruguaio explorou este incidente apelando para o senso de patriotismo, criando, para a opinião pública, a imagem de que quem estivesse contra a papeleira seria antipatriota. Isto, porém, não corresponde ao que de fato era o sentimento público, pois muito uruguaios se posicionaram contra a fábrica “sem deixar de ser patriotas”, atesta.
Há inclusive um julgamento internacional tramitando no Tribunal de Haia, porque o governo uruguaio não cumpriu o processo de consulta popular determinado pelo Tratado do Rio Uruguai, firmado entre este país e a Argentina. “A província de Entre Rios exigiu o cumprimento desse tratado, mas o Uruguai saiu com a resposta de que se tratava de uma decisão soberana, dele”, recorda-se Bacchetta.
Ovo podre
O cheiro tão conhecido no início dos anos 70 pelos moradores da Região Metropolitana de Porto Alegre (especificamente, Capital, Guaíba e arredores) marcou presença recentemente em Fray Bentos. De acordo com Bacchetta, desde que começou a funcionar, a fábrica da Botnia teve vários episódios de parada na produção por problemas técnicos, “e sentimos freqüentemente emissões de gases com cheiro de podre”. As paradas ocorrem praticamente todos os meses, segundo ele. “Várias vezes o cheiro inundou a cidade de Fray Bentos, e ninguém sabia de onde era. Enviaram dois técnicos de Montevidéu para saber a origem, e informaram depois que não era possível estabelecer a fonte”, afirma.
Mais e mais
Segundo a Organização Mundial das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o consumo de papel quintuplicou nos últimos 50 anos. Do que é produzido, 51% vão para o mercado de supérfluos (catálogos de shoppings, propagandas de lojas etc), e 41% para educação (livros, cadernos) e outras necessidades básicas (higiene). “Há um uso irracional de papel, e mesmo a informática, que se pensava iria diminuir o consumo de papel, teve efeito oposto, ou seja, fez aumentar o uso de impressos”, diz o jornalista. Conforme a FAO, uma pessoa necessita de 30 a 40 quilos por ano de papel par atender suas necessidades básicas, mas a realidade de consumo de vários países é muito superior a isto. No Uruguai, por exemplo, usam-se 36 quilos per capita por ano; na Finlândia, 325 quilos; nos Estados Unidos, 200 a 300 quilos; na França, 190 quilos. Seguindo essa lógica de mais e mais consumo de papel, a área cultivada com eucalipto, no Uruguai, subiu de 93 mil hectares, em 1990, para 949 mil hectares, atualmente (quase 1 milhão). Um aumento de mais ou menos dez vezes. O espaço entre as árvores é de três metros, e entre essas “florestas” e as casas remanescentes, de apenas 30 metros.
Bacchetta informa ainda que as terras adquiridas pelas empresas para o plantio de eucalipto o foram por preços de 13 a 14 vezes o valor de mercado. Assim, dificilmente se convenceria os proprietários a não vender. No cenário de Fray Bentos, não é difícil encontrarem-se casas abandonadas em meio aos eucaliptais.
A paisagem mudou, e o panorama vai mudar mais ainda. As empresas Stora Enso e Portocel (esta última, de Portugal) já compraram áreas no departamento de Durazno e estão iniciando plantio. Uma fábrica da Ence está sendo construída. E mais: as empresas Nipon Paper (japonesa) e International Paper Co. (norte-americana) declararam interesse em se estabelecer no Uruguai. Um dos pontos visados é próximo à Lagoa Mirim, na fronteira entre Uruguai e Brasil (RS). O Uruguai tem 17,6 milhões de hectares de área, e se todos esses projetos vingarem, cerca de 25% do território do país (mais ou menos 4 milhões de hectares) serão tomados por eucaliptos. Estâncias, gado, tradição da mais refinada cultura européia. Tudo isso impregna com boas emoções a memória do turista que visita o Uruguai, mas é uma paisagem que poderá ficar apenas em retratos do passado.
Fonte: Cláudia Viegas, AmbienteJÁ, 16/12/2008
MOGDEMA - A NATUREZA TE ESPERA!
Foi muito emocionante assistir a rebeldia dos velhos e bons guardiões do movimento ambientalista gaúcho!
A Luta continua!
MOGDEMA nasce forte!
Com uma homenagem aos pioneiros da ecologia no Rio Grande do Sul, foi lançado nesta segunda-feira (15/12), oficialmente, o Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema), com a filiação inicial de 37 signatários, entre ONGs, conselhos, instituições, associações e entidades religiosas, sociais, sindicais, estudantis e comunitárias. O propósito declarado do movimento é popularizar a luta ambiental, para além das ONGs, levando-a aos movimentos sociais e à população em geral.
O Mogdema "visa ações conjuntas que fortaleçam as políticas públicas em defesa da Natureza, promovendo o debate e a luta socioambiental, propondo a reflexão crítica ao modelo de desenvolvimento predatório hegemônico, e construindo as bases sociais para um novo modelo com sustentabilidade ambiental", diz a Carta de Princípios do Movimento, lida na solenidade.
“Há uma necessidade da ecologização dos movimentos sociais, sozinhos, como a história está mostrando, não somos capazes de dar conta do recado”, discursou Celso Marques, representando a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan). “Estamos num momento crítico em que isto é indispensável”, insistiu, traduzindo um pensamento que é comum entre os criadores do Mogdema.
O surgimento do Mogdema vem de um período extremamente conturbado na política ambiental do Estado, como há muito não se via. O fator deflagrador foram os megaprojetos das papeleiras, que tiveram seus licenciamentos ambientais acelerados pelo governo. Criou-se uma situação de conflito aberto que, por outro lado, mobilizou e unificou os ambientalistas com outras entidades e organizações da sociedade civil.
Bebendo na fonte
Para se inspirar, os fundadores do Mogdema decidiram beber na fonte e reuniram numa mesma mesa, na cerimônia de hoje, alguns dos principais fundadores do ambientalismo no Rio Grande do Sul: Flávio Lewgoy, Augusto Carneiro, Hilda Zimmermann, Caio Lustosa e o Irmão (marista) Antônio Cechin. “O movimento ambientalista vive, está mais vivo do que nunca, e isto é uma satisfação indizível, porque cada um que está aqui representa outros milhares” disse Flávio Lewgoy, professor aposentado da Ufrgs e um dos fundadores da Agapan, ao auditório lotado de pessoas de todas as idades.
O hoje livreiro Augusto Carneiro fez uma defesa apaixonada dos parques, “porque são sinônino de futuro, quando não tiver mais nada (dos recursos naturais e biodiversidade) é deles que vai sair a semente da vida”, disse. “Aqui, os parques são invadidos permanentemente e o povo brasileiro adora queimar os parques, infelizmente”, completou.
Hilda Zimmerman observou que se os ambientalistas não conseguem mobilizar o povo por amor ao meio ambiente, esta mobilização vai acontecer por necessidade. Já o Irmão Cechin anunciou que a Pastoral da Ecologia passará a participar do Mogdema e citou Santo Agostinho, que disse: “Deus perdoa sempre, os homens perdoam às vezes, mas a natureza não perdoa nunca”. Por isso, segundo ele, as pessoas deveriam aprender as leis da natureza e respeitá-las.
Comissão de Meio Ambiente
Um dos coordenadores do Movimento, Felipe Amaral, do Instituto Biofilia, avaliou como excelente, acima das expectativas o lançamento do Mogdema, pelo público e representantividade das entidades que se filiaram até agora. Apontou como objetivos imediatos a aproximação com o Poder Legislativo, visando a criação de uma comissão específica de meio ambiente na casa. Também a busca da paridade de representação no Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), onde hoje os ambientalistas são minoria, e, principalmente, inciativas para propor um novo modelo de desenvolvimento do Estado, além da crítica, simplesmente.
Entre os compromissos da Carta de Princípios do Movimento estão: defender a biodiversidade, a agricultura familiar de base ecológica, a soberania alimentar e territorial, o abastecimento interno, o emprego urbano e rural e as culturas tradicionais; defender os Biomas Pampa e Mata Atlântica, aí incluídos os Campos de Cima da Serra, promovendo a proteção da biodiversidade; defender os recursos hídricos superficiais e subterrâneos, em especial o Aquífero Guarani; lutar pela abolição do modelo de produção das monoculturas, das lavouras energéticas do agrocombustível e de matéria prima industrial e da lavoura geneticamente modificada;
“Vida longa ao Movimento, porque é em defesa da vida que ele nasce, hoje todos os interesses só se movem pelo capital, precisamos dar um basta nisso, não podemos deixar para amanhã para assumir um compromisso com a vida e com o futuro do nosso planeta”, conclamou o diretor do Semapi (sindicato que reúne servidores de fundações) e presidente da Associação dos Servidores da Fundação Estadual de Proteção Ambietal (Fepam), Antenor Pacheco. A programação foi concluída com um painel que teve a participação do jornalista uruguaio Victor Bacchetta, que discorreu sobre sue livro A Fraude da Celulose*, e do professor Antônio Libório Philomena, que abordou "O contexto ambiental no limite, o futuro da humanidade".
Fonte: Ulisses A. Nenê/Ecoagência
Matéria também reproduzida no site do SEMAPI.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
LANÇAMENTO DO MOGDEMA
Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente será lançado nesta segunda, dia 15
O Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema) será lançado oficialmente nesta segunda-feira, dia 15 de dezembro, às 9 horas, em um ato público no plenarinho da Asembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.O movimento é uma articulação que reúne ONGs ambientalistas, movimentos sociais do campo e da cidade, sindicatos, representantes de classe, lideranças religiosas, estudantes, professores e pesquisadores que pretende enfrentar a situação de crise progressiva da gestão ambiental no Estado.
Segundo sua Carta de Princípios, o movimento pretende implementar ações que "fortaleçam as políticas públicas em defesa da natureza, promovendo o debate e a luta sócio-ambiental, propondo uma reflexão crítica sobre o modelo de desenvolvimento predatório hegemônico, e construindo as bases sociais para um novo modelo com sustentabilidade ambiental".
Crise e polêmicas
Segundo o diretor do Semapi Antenor Pacheco, o movimento vem sendo formado há meses, em reuniões periódicas, e surge em decorrência da situação de crise e das várias polêmicas - como há muito não se via - em torno da gestão ambiental no Rio Grande do Sul. Especialmente, a aprovação e implantação de vários megaprojetos de papeleiras, com plantio intensivo de eucaliptos, na Metade Sul do Rio Grande do Sul.
Estarão presentes como painelistas, dia 15, o jornalista uruguaio especializado em jornalismo ambiental Victor Bacchetta, autor do livro "A Fraude da Celulose" e membro-fundador da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e Caribe, e o oceanógrafo, doutor em Ecologia, professor da FURG Antonio Philomena.
Programação:
Manhã
9h: Homenagem aos pioneiros do movimento ecológico no RS – Augusto Carneiro, Caio Lustosa, Flávio Lewgoy, Giselda Castro, Hilda Zimmermann, Irmão Cecchin e Sebastião Pinheiro;
10h: Leitura da carta de princípios e de assinatura da mesma pelas instituições presentes;
11h: Palestras com convidados especiais:
Victor Bacchetta – A fraude da Celulose
Antonio Philomena – Contexto ambiental e o futuro da Humanidade
Noite:
19h: Conversa com Victor Bacchetta – Os impactos do Modelo Florestal da Celulose sobre o Bioma Pampa.
Local: Auditório do SEMAPI – Rua Lima e Silva, 280
20h30min: Confraternização – Bar Pinacoteca (Rua República, 409)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Eucalipitais - Qual Rio Grande desejamos?
O livro surgiu de um processo baseado na discussão de várias opiniões, sobre um tema "que quer ser controverso", mas não o é, que são as lavouras de eucalipto e as empresas papeleiras, melhor denominadas de "pasteiras".
Políticos retribuindo o apoio financeiro das papeleiras em doações eleitorais, a divulgação, burla do regramento legal, ardilosas violações constitucionais, informações distorcidas sobre a geração de emprego formam o arcabouço do apelidado "reflorestamento". É como um conto policial.
O momento não poderia ser mais oportuno. Empolgados pelo jogo do dinheiro fácil nos cassinos financeiros as papeleiras, depois de se lambuzarem, caíram de quatro na crise da especulação, se desmancharam, tal como papel picado. Não vão mais investir no Rio Grande do Sul. Aqueles que acreditaram estão esperando o Papai Noel em dezembro!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
SOLOS UMA RELAÇÃO DE AMIZADE
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
SOBERANIA ALIMENTAR/SEGURANÇA ALIMENTAR
Para mim é uma discussão oportuna que permite distinguir muito bem a diferença entre SOBERANIA ALIMENTAR e SEGURANÇA ALIMENTAR ( a Iara já falava disso).
Uma diferença RADICAL, e ser radical, como disse MARX é pegar as coisas pela raiz e a raiz para o homem é o próprio homem. E é isso mesmo, que o Stédile e o Lauro nos fazem pensar - ser radical ou seja, pegar as coisas pela raiz, é isso, vamos radicalizar!
Paulinho Mendes
Soberania alimentar e a agricultura
"Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e o comércio agrícola mundial", constatam João Pedro Stédile, economista, integrante da coordenação nacional do MST e da Via Campesina, e Dom Tomás Balduino, bispo emérito da Diocese de Goiás, conselheiro permanente da CPT (Comissão da Pastoral da Terra), órgão vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 16-10-2008."
Eis o artigo.
Em 1960 , havia 80 milhões de seres humanos que passavam fome em todo o mundo. Um escândalo! Naquela época, Josué de Castro, que agora completaria 100 anos, marcava posição com suas teses, defendendo que a fome era conseqüência das relações sociais, não resultado de problemas climáticos ou da fertilidade do solo.
O capital, com as suas empresas transnacionais e o seu governo imperial dos Estados Unidos, procurou dar uma resposta ao problema: criou a chamada Revolução Verde. Ela foi uma grande campanha de propaganda para justificar à sociedade que bastava "modernizar" a agricultura, com uso intensivo de máquinas, fertilizantes químicos e venenos. Com isso, a produção aumentaria, e a humanidade acabaria com a fome.
Passaram-se 50 anos, a produtividade física por hectare aumentou muito e a produção total quadruplicou em nível mundial. Mas as empresas transnacionais tomaram conta da agricultura com suas máquinas, venenos e fertilizantes químicos. Ganharam muito dinheiro, acumularam bastante capital e, com isso, houve uma concentração e centralização das empresas. Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e comércio agrícola.
Quais foram os resultados sociais?
Os seres humanos que passam fome aumentaram de 80 milhões para 800 milhões. Só nos últimos dois anos, em função da substituição da produção de alimentos por agrocombustíveis, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), aumentou em mais 80 milhões o número de famintos. Ou seja, agora são 880 milhões.
Nunca a propriedade da terra esteve tão concentrada e houve tantos migrantes camponeses saindo do interior e indo para as metrópoles e mudando de países pobres para a Europa e os Estados Unidos. Somente neste ano, a Europa prendeu e extraditou 200 mil imigrantes africanos, a maioria camponeses.
Há oito milhões de trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Setenta países do hemisfério sul não conseguem mais alimentar seus povos e estão totalmente dependentes de importações agrícolas. Perderam a auto-suficiência alimentar, perderam sua autonomia política e econômica.
O pior é que, em todos os países do mundo, os alimentos chegam aos supermercados cada vez mais envenenados pelo elevado uso de agrotóxicos, provocando enfermidades, alterando a biodiversidade e causando o aquecimento global. Isso acontece porque as empresas transnacionais padronizaram os alimentos para ganhar em escala e lucros. Os alimentos devem ser produzidos de acordo com a natureza, com a energia do habitat.
A comida não pode ser padronizada, uma vez que faz parte de nossa cultura e de nossos hábitos. Diante disso, qual é a saída? O Estado, em nome da sociedade, deve desenvolver políticas públicas para proteger a agricultura, priorizando a produção de alimentos. Cada município, região e povo precisa produzir seus próprios alimentos, que devem ser sadios e para todos. Assim nos ensina toda a historia da humanidade.
A lógica do comércio e intercâmbio dos alimentos não pode se basear nas regras do livre mercado e no lucro, como pretende impor a OMC.
Por isso, consideramos o alimento um direito de todo ser humano, e não uma mercadoria, como, aliás, já defende a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cada povo e todos os povos devem ter o direito de produzir seus próprios alimentos. Isso se chama soberania alimentar. Não basta dar cesta básica, dar o peixe. Isso é a segurança alimentar, mas não é soberania alimentar. É preciso que o povo saiba pescar!
No Brasil, com um território e condições edafoclimáticas tão propícias, não temos soberania alimentar. Importamos muitos alimentos, do exterior e entre as regiões do país. Mesmo em nossas "ricas" metrópoles, o povo depende de programas assistenciais do governo para se alimentar. A única forma é fortalecer a produção dos camponeses, dos pequenos e médios agricultores, que demandam muita mão-de-obra têm conhecimento histórico acumulado.
A chamada agricultura industrial é predadora do ambiente, só produz com agrotóxicos. É insustentável a longo prazo. Por isso, neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, as organizações camponesas, movimentos de mulheres, ambientalistas e consumidores faremos manifestações em o todo mundo para denunciar problemas e apresentar propostas para que a humanidade, enfim, resolva o problema da fome no mundo.


