segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SOBERANIA ALIMENTAR/SEGURANÇA ALIMENTAR

Recebemos esta contribuição do Lauro Bernardi, grande combativo companheiro militante das causas deste blog. Na verdade são 2 textos, um do Stédile, que é este e outro são considerações do próprio Lauro sobre o texto do Stédile que vamos publicar amanhã.
Para mim é uma discussão oportuna que permite distinguir muito bem a diferença entre SOBERANIA ALIMENTAR e SEGURANÇA ALIMENTAR ( a Iara já falava disso).
Uma diferença RADICAL, e ser radical, como disse MARX é pegar as coisas pela raiz e a raiz para o homem é o próprio homem. E é isso mesmo, que o Stédile e o Lauro nos fazem pensar - ser radical ou seja, pegar as coisas pela raiz, é isso, vamos radicalizar!

Paulinho Mendes


Soberania alimentar e a agricultura

"Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e o comércio agrícola mundial", constatam João Pedro Stédile, economista, integrante da coordenação nacional do MST e da Via Campesina, e Dom Tomás Balduino, bispo emérito da Diocese de Goiás, conselheiro permanente da CPT (Comissão da Pastoral da Terra), órgão vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 16-10-2008."

Eis o artigo.

Em 1960 , havia 80 milhões de seres humanos que passavam fome em todo o mundo. Um escândalo! Naquela época, Josué de Castro, que agora completaria 100 anos, marcava posição com suas teses, defendendo que a fome era conseqüência das relações sociais, não resultado de problemas climáticos ou da fertilidade do solo.

O capital, com as suas empresas transnacionais e o seu governo imperial dos Estados Unidos, procurou dar uma resposta ao problema: criou a chamada Revolução Verde. Ela foi uma grande campanha de propaganda para justificar à sociedade que bastava "modernizar" a agricultura, com uso intensivo de máquinas, fertilizantes químicos e venenos. Com isso, a produção aumentaria, e a humanidade acabaria com a fome.

Passaram-se 50 anos, a produtividade física por hectare aumentou muito e a produção total quadruplicou em nível mundial. Mas as empresas transnacionais tomaram conta da agricultura com suas máquinas, venenos e fertilizantes químicos. Ganharam muito dinheiro, acumularam bastante capital e, com isso, houve uma concentração e centralização das empresas. Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e comércio agrícola.

Quais foram os resultados sociais?

Os seres humanos que passam fome aumentaram de 80 milhões para 800 milhões. Só nos últimos dois anos, em função da substituição da produção de alimentos por agrocombustíveis, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), aumentou em mais 80 milhões o número de famintos. Ou seja, agora são 880 milhões.

Nunca a propriedade da terra esteve tão concentrada e houve tantos migrantes camponeses saindo do interior e indo para as metrópoles e mudando de países pobres para a Europa e os Estados Unidos. Somente neste ano, a Europa prendeu e extraditou 200 mil imigrantes africanos, a maioria camponeses.

Há oito milhões de trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Setenta países do hemisfério sul não conseguem mais alimentar seus povos e estão totalmente dependentes de importações agrícolas. Perderam a auto-suficiência alimentar, perderam sua autonomia política e econômica.

O pior é que, em todos os países do mundo, os alimentos chegam aos supermercados cada vez mais envenenados pelo elevado uso de agrotóxicos, provocando enfermidades, alterando a biodiversidade e causando o aquecimento global. Isso acontece porque as empresas transnacionais padronizaram os alimentos para ganhar em escala e lucros. Os alimentos devem ser produzidos de acordo com a natureza, com a energia do habitat.

A comida não pode ser padronizada, uma vez que faz parte de nossa cultura e de nossos hábitos. Diante disso, qual é a saída? O Estado, em nome da sociedade, deve desenvolver políticas públicas para proteger a agricultura, priorizando a produção de alimentos. Cada município, região e povo precisa produzir seus próprios alimentos, que devem ser sadios e para todos. Assim nos ensina toda a historia da humanidade.

A lógica do comércio e intercâmbio dos alimentos não pode se basear nas regras do livre mercado e no lucro, como pretende impor a OMC.

Por isso, consideramos o alimento um direito de todo ser humano, e não uma mercadoria, como, aliás, já defende a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cada povo e todos os povos devem ter o direito de produzir seus próprios alimentos. Isso se chama soberania alimentar. Não basta dar cesta básica, dar o peixe. Isso é a segurança alimentar, mas não é soberania alimentar. É preciso que o povo saiba pescar!

No Brasil, com um território e condições edafoclimáticas tão propícias, não temos soberania alimentar. Importamos muitos alimentos, do exterior e entre as regiões do país. Mesmo em nossas "ricas" metrópoles, o povo depende de programas assistenciais do governo para se alimentar. A única forma é fortalecer a produção dos camponeses, dos pequenos e médios agricultores, que demandam muita mão-de-obra têm conhecimento histórico acumulado.
A chamada agricultura industrial é predadora do ambiente, só produz com agrotóxicos. É insustentável a longo prazo. Por isso, neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, as organizações camponesas, movimentos de mulheres, ambientalistas e consumidores faremos manifestações em o todo mundo para denunciar problemas e apresentar propostas para que a humanidade, enfim, resolva o problema da fome no mundo.


sábado, 29 de novembro de 2008

Carta Agroecologica

Com um pouco de atraso eis a Carta Agroecológica de Porto Alegre!

A conclusão mais simples, porém profunda, dos seminários, é de que de fato a construção para um outro mundo possível se dá apartir da desconstrução dos costumes e das práticas impregnadas na atual sociedade de consumo e de acumulaçao de riqueza! A questão centro do debate é a luta pela mudança do padrão de costumes sociais que o capitalismo implantou através de décadas de alienação. 

E para pensar.... O presidente da empresa responsável pelo shopping NOVO de Porto Alegre, instalado na beira do poluído lago Guaiba, setencia: "o shopping center está blindado das crises porque estão impregnados no DNA das pessoas"...Quer MAIS???? 

Paulinho Mendes

Seminários encerram com lançamento da Carta Agroecológica de Porto Alegre

Após três dias de Seminários Internacional e Estadual sobre Agreocologia, os 1.174 participantes aprovaram a Carta Agroecológica de Porto Alegre. Entre as recomendações, destaque para a proposta de criação de um Plano Nacional de Transição Agroecológica, apresentada na palestra de abertura pelo coordenador geral de Assistência Técnica, Extensão Rural e Educação Rural da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Francisco Roberto Caporal, e defendida também pelo presidente da Emater/RS, Mário Augusto Ribas do Nascimento, durante solenidade de abertura. 

A seguir, a redação do documento: 

Carta Agroecológica de Porto Alegre 2008. 

Os 1.174 participantes inscritos no IX Seminário Internacional sobre Agroecologia e X Seminário Estadual sobre Agroecologia, reunidos no Auditório Dante Barone da Assembléia Legislativa, em Porto Alegre (RS), dias 25, 26 e 27 de novembro de 2008, para discutir tema “O Estado da Arte da Agroecologia”, recomendam: 

1. A criação de um Plano Nacional de Transição Agroecológica, tendo em vista o conjunto de externalidades negativas geradas pelo modelo atual de desenvolvimento rural. Tal Plano deve ter como pressupostos a solidariedade intra e intergeracional e a sustentabilidade em suas múltiplas dimensões (econômica, social, ambiental, cultural, ética e política). Além disso, deve contemplar ações de apoio à promoção de estilos de agriculturas mais sustentáveis, visando a preservação da agrobiodiversidade e a ecologização crescente dos sistemas produtivos; 

2. Que os princípios da Agroecologia sejam considerados na definição e execução de programas e projetos de Pesquisa, assim como nas agendas das instituições de Ensino e Extensão Rural, apontando para a consolidação de uma ética comprometida com a sustentabilidade da vida no Planeta , e incorporando questões de gênero de forma mais efetiva e estratégica ; 

3. A inclusão do enfoque agroecológico nas políticas públicas, especialmente as voltadas para o crédito rural destinado à agricultura familiar, e a ampliação de iniciativas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar, como é o caso do Plano de Aquisição de Alimentos; 

4. Que as instituições de ensino coloquem maior ênfase na educação agroecológica, incorporando conteúdos, valores e princípios de sustentabilidade em todos os níveis de escolaridade, com uma adequação da matriz curricular e a adoção de práticas sustentáveis (merenda escolar, reciclagem de lixo, etc); 

5. O estímulo e apoio à sistematização de experiências com enfoque agroecológico, de forma a possibilitar um amplo processo de diagnóstico, identificação, resgate, descrição e reflexão a partir das experiências sistematizadas, assim como a sua ampla divulgação; 

6. Que sejam envidados todos os esforços para a realização do X Seminário Internacional e XI Seminário Estadual de Agroecologia no Rio Grande do Sul, assim como no apoio à realização do II Congresso Latino-Americano e VI Congresso Brasileiro de Agroecologia, a realizar-se de 09 a 12 de novembro de 2009, em Curitiba (PR). 

Assessoria de Imprensa da Emater/RS-Ascar 
Jornalistas Adriane Bertoglio Rodrigues e Carine Massierer

A foto que ilustra a matéria é da Ponte do Arroio Velhaco na cidade de Arambaré!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Assim caminha a humanidade!


Buenas, que responsabilidade. Acho que nesta hora a companheira Iara já esta nos braços de seu querido filhão. Para nós fica a responsa de levar o blog ativo até a sua volta. Quando digo nós, quero dizer todos os leitores do blog. Não será uma tarefa fácil, mas com a ajuda dos companheiros tenho a certeza de que vamos conseguir, viu Iara! 
Toda a contribuição será muito bem vinda!
Vamos trazer para o blog ainda nesta semana dois assuntos importantes, um é o final do Seminário de Agroecologia que acontece na Assembléia Legislativa no Auditório Dante Barone, encerra amanhã. Vamos reproduzir a " carta de Porto Alegre" uma tradição do seminário. Também ocorrerá no final de semana a BioNAT, vamos acompanhar e trazer as informações.
Bom é isso.. Assim CAMINHA a humanidade! 

Ps. A foto que ilustra a postagem é no Rio Grande do Sul em Cotiporã. Muito legal uma casa típica italiana em um ambiente muito lindo. 

EM TEMPO.... Não por acaso me esqueci de um grande detalhe que foi lembrado por um anônimo, mas atento leitor do blog.. de fato... a propriedade da foto é onde degustei e comprei a "melhor" cachaça do Rio Grande do Sul... Cachaça " BALSA VELHA".. RECOMENDO!!!
Paulinho Mendes

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Enfim, chegou à hora!

Caros (as) leitores (as)!

Afasto-me por dois meses, passando o bastão para o grande companheiro Paulo Sérgio Mendes Filho, o Paulinho. Integrante do Coletivo Desenvolvimento Sustentável, ele terá, a partir de hoje, a tarefa de dar VIDA a esse blog.

Nenhuma dificuldade para essa figura rara. Criativa, sensível, inquieta. Sempre buscando e encontrando explicações para todos os fenômenos da vida, sejam eles no plano da política, da economia, do meio-ambiente, da arte, como também das PESSOAS. Longas conversas nos aproximam. Pasmem, mas descobri que é possível ter longas conversas com essa rara pessoa, em que pese a sua constante e inquieta inquietude.

Quanto a mim, parto para um reencontro. Há dois anos não compartilho o quotidiano com o meu querido filho, Rodrigo. Alimentamos-nos virtualmente. E, agora, finalmente, chegou o grande dia de sentir o calor, o carinho e a voz, sem mediações. Ao vivo e a cores. Nada substitui um abraço de verdade, o riso, o olhar, o fazer as coisas juntos. E é isso que vou encontrar. Já com o coração na mão.

Vou a esse encontro cheia de expectativas e de alegrias. Mas não posso deixar de confessar que os dias que antecederam a viagem foram/têm sido cheios de uma saudade antecipada, se é que existe essa possibilidade. Saudade das coisas, dos sons, dos aromas, das árvores, das flores e das pessoas queridas que aqui deixo.

Amo essa Porto MUITO Alegre. E para me despedir brindo-lhes com algumas fotos da nossa cidade. Não são de minha autoria. As recebi em algum momento da vida e salvei-as sem registrar a origem. Se alguém souber, informe no blog, por favor, pois, vale a pena resgatar essa informação. É um belo trabalho.

Um GRANDE e “XINXADO” ABRAÇO.

E VIVA A VIDA!!!

P.S. Lauro Bernardi e Antenor Pacheco são dois companheiros do Coletivo que intensificarão as suas contribuições para o blog nesse período. Bom trabalho e boas energias para vocês.

sábado, 22 de novembro de 2008

Conferência sobre os biocombustíveis. 'Uma grande feira de negócios'

IHU - Unisinos *

Adital
Finalizada ontem, a 1ª Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, promovida pelo governo brasileiro, foi, segundo a ambientalista Lucia Ortiz, "uma grande propaganda do etanol". O evento não contou com a presença do presidente Lula, de outros chefes de Estado e não oportunizou que acordos fossem fechados sobre o biocombustível produzido a partir do etanol. "Foi uma grande feira de negócios", disse Lucia, ao analisar a presença de muitos empresários desse setor. Lucia esteve presente nesta conferência e também no evento paralelo organizado pelos movimentos sociais para discutir o modelo da política brasileira em relação à produção ao etanol.

Lucia Ortiz é coordenadora do Núcleo Amigos da Terra e do GT Energia do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. É geóloga e mestre em Geociências.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A Conferência Internacional sobre Biocombustíveis: os biocombustíveis como vetor do desenvolvimento sustentável é patrocinada pelo governo brasileiro. Em sua opinião, o governo pretende com esse evento?

Lucia Ortiz - A pretensão do governo, ao unir esforços, investir e promover esse evento, foi a de conquistar uma aceitação do etanol brasileiro no mercado internacional. Ou seja, expandir seu mercado de exportação de commoditie agrícola energética, principalmente em relação ao etanol, que é produzido a partir de grandes cultivos agroindustriais. Por isso nós chamamos de agrocombustíveis. Em contraposição a esse conceito, a conferência do governo chama de biocombustíveis, como vetor do desenvolvimento sustentável, expressão da qual discordo.
Era esperada a presença de chefes de Estado de nível ministerial, pelo menos, nessa conferência, mas isso não se confirmou. O que estamos vendo no evento oficial é a presença de níveis mais baixos de representação dos governos e uma grande feira de negócios. Existem muitos empresários que estão fazendo uma grande promoção desse setor. A questão da crise financeira afetou a não vinda dos chefes de Estado, mas alguns países não viram aqui oportunidade de firmar acordos ou lançar algum projeto de padronização. Outros países entenderam essa conferência mais como uma grande propaganda do etanol do que uma oportunidade de fazer grandes negócios.

IHU On-Line - Por que você discorda da idéia em torno do biocombustível?

Lucia Ortiz - Eu não concordo com essa tese porque penso que a estratégia de promoção dos agrocombustíveis, utilizada pelo governo brasileiro, tem como base a expansão das monoculturas voltadas à exportação. As monoculturas para os agrocombustíveis se somam a todo o modelo do agronegócio, que está em franca expansão e tem impactos diretos e indiretos sobre a redução da biodiversidade, devido aos deslocamentos de populações tradicionais de pequenos e médios agricultores que, de fato, produzem o alimento da população brasileira. Eles são ainda são responsáveis pelas mudanças do uso do solo, pelo desmatamento e, desta forma, contribuem para o aquecimento global. Como se destinam para abastecimento da indústria automobilística que prioriza o transporte individual e precisa de insumos que envolvem muita energia para ser produzida, eles alimentam um modelo de transporte e de produção agrícola que é altamente impactante para o clima. Por isso, as mudanças climáticas devem ser resolvidas com mudanças mais estruturais.

IHU On-Line - Os movimentos sociais fizeram um evento paralelo ao oficial, qual o conteúdo das discussões e os objetivos dessa iniciativa?

Lucia Ortiz - Nós tivemos um encontro que reuniu mais de cem pessoas de vários países da América Latina, também dos Estados Unidos, Europa e até da Ásia. Tivemos uma representatividade muito boa e que se reuniu por três dias com o objetivo de avaliar um pouco a conjuntura da crise financeira. Nós a entendemos como uma crise de modelo de civilização, pois estamos vendo a crise climática, a crise energética, a escassez da água e, ainda, a crise financeira que mostra que esse modelo econômico está acabando com o nosso capital natural, a nossa base da vida. A partir desse contexto, nós analisamos a estratégia que o governo quer empurrar e nos aprofundamos na análise dos impactos e as estratégias para minimizá-los. Fizemos críticas específicas e num segundo momento apresentamos nossas propostas para construção da soberania energética e alimentar. É um conceito que se opõe ao discurso e ao conceito do governo.

IHU On-Line - A crise mundial desfocou o debate em torno da crise climática que cada vez mais ganhava espaço ou se trata de oportunidade que poderá alavancar ainda mais o debate sobre a crise ambiental?

Lucia Ortiz - Com certeza, ela é uma oportunidade porque mostra um colapso desse nosso modelo, desse padrão de consumo e produção, de acumulação de riquezas e distribuição desigual e que é baseado no desperdício excessivo de energia. Então, ela traz muitas oportunidades de reflexão e de repensar os modos de vida no campo e na cidade, e centrando nas necessidades reais das pessoas. Por outro lado, vemos que o governo está muito preocupado com o impacto da crise financeira para suas metas de crescimento econômico. É possível que o governo, através dessa crise, para estimular a economia, mesmo aplique recursos públicos nos seus projetos num objetivo de gerar empregos, acelerar a economia apesar a crise. Estamos vendo duas coisas: uma oportunidade de reflexão e de construção de alternativas, mas vemos que a intenção do governo ainda está indo em outro sentido, apostando ainda mais no mercado de exportação, não tanto no que a população precisa.

IHU On-Line - O modelo de política que está sendo realizada para os biocombustíveis será afetado pela crise financeira?

Lucia Ortiz - Imaginávamos que sim, mas, como o próprio governo está investindo forte nesse setor, a crise não afetará a intenção do governo. O que pode afetar é a retração dos mercados que iriam importar. Em duas semanas, uma decisão muito importante será tomada no Parlamento da União Européia em relação à aprovação ou não de metas compulsórias de substituição de combustíveis fósseis por agrocombustíveis. Se eles aprovarem, todo o combustível será importado, pois eles não têm terra para isso. Por isso, as soluções para conter o problema do clima vão recair sobre os países menos responsáveis pelas mudanças. E a intenção do Brasil é avançar nesse setor.

IHU On-Line - Os biocombustíveis afetam a soberania alimentar?

Lucia Ortiz - Sim, porque na medida em que o agronegócio avança, inviabiliza a produção da agricultura familiar, que é a base da soberania familiar no Brasil. O avanço dos agrocombustíveis afeta diretamente sobre o pequeno produtor que sai do meio rural e vai para a cidade. Com isso, nós acabamos importando alimentos ou massificando a nossa dieta alimentar porque não valorizam uma alimentação diversificada e saudável e, principalmente, mais amigável para o meio ambiente.

* Instituto Humanitas Unisinos
Publicação extraída de http://www.adital.com.br

Agrocombustíveis e Soberania Alimentar e Energética

Adital

* Documento final do Seminário Internacional Agrocombustíveis como obstáculo à construção da Soberania Alimentar e Energética, realizado em São Paulo, 17 a 19 de Novembro de 2008.

Nós organizações e movimentos sociais do Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Bolívia, El Salvador, México, Equador, Paraguai, Tailândia, Holanda, Suécia, Alemanha e Estados Unidos, reunidos em São Paulo de 17 a 19 de Novembro de 2008.
Discordamos radicalmente do modelo e da estratégia de promoção dos agrocombustíveis. entendemos que estes não são vetores de desenvolvimento, nem tampouco de sustentabilidade. Esta estratégia representa um obstáculo à necessária mudança estrutural nos sistema de produção e consumo, de agricultura e de matriz energética, que responda efetivamente aos desafios das mudanças climáticas.
Afirmamos que:

O modelo de agricultura industrial, onde se inserem os agrocombustíveis, é intrinsecamente insustentável, pois apenas se viabiliza através da expansão das monoculturas, da concentração de terras, do uso intensivo de agroquímicos, da superexploração dos bens naturais comuns como a biodiversidade, a água e o solo. Os agrocombustíveis representam uma grave ameaça à produção de alimentos. Independentemente dos cultivos utilizados para a produção de energia, comestíveis ou não, trata-se da competição por terra agricultável e por água.

A produção em escala industrial de agrocombustíveis, ao expandir a fronteira agrícola, soma-se à expansão do conjunto do agronegócio - cujos impactos dinâmicos e efeitos cumulativos são o principal vetor de desmatamento e destruição de ecossistemas em todo o mundo, e no Brasil é responsável pela destruição da Amazônia, do Cerrado e outros.

No Brasil, o setor sucroalcooleiro não se sustenta sem o financiamento público: a promoção dos programas governamentais de agrocombustíveis historicamente tem sido caracterizada por incentivos e subsídios governamentais diretos (como financiamentos públicos do BNDES, em grande parte oriundos do FAT) e indiretos (como não penalização das evasões fiscais e perdão de dívidas).

O setor sucroalcooleiro conta com a conivência do governo quanto ao descumprimento das legislações trabalhistas e ambientais: entre os impactos da produção de etanol no Brasil destacamos a superexploração e as condições degradantes de trabalho e a utilização de mão de obra escrava; a contaminação dos solos, do ar e da água e redução da biodiversidade; o encarecimento das terras e a concentração fundiária, que fragilizam ainda mais os programas de reforma agrária e promovem, concomitantemente, um processo brutal de invasão de territórios de populações tradicionais e povos indígenas e de expropriação das terras de pequenos e médios agricultores; e a ameaça a produção dos alimentos que são consumidos no país. A extrangeirização da terra -seja através da compra ou contratos de arrendamento, para a produção de agroenergia-, também é um fator recente e extremamente preocupante, pois hipoteca as áreas de terras agriculturáveis disponíveis e as condições estruturais de produção de alimentos.

Denunciamos que a estratégia de difusão internacional do modelo agroenergético do governo brasileiro, através da ação de seus ministérios, em especial o Itamaraty, e instituições financeiras e de pesquisa, como BNDES e Embrapa, reproduzirá os impactos e problemas do setor nos países da África, América Latina e Caribe.

Questionamos a estratégia de expansão dos agrocombustíveis através do mercado global: nos opomos radicalmente ao acordo de difusão tecnológica Brasil/EUA, que visa a padronização e comoditização do etanol. Nos opomos às metas de substituições de combustíveis na União Européia e nos EUA que ampliarão a demanda por terras para produção de agrocombustíveis nos países do Sul.

Alertamos que nem o zoneamento, nem critérios ambientais e sociais irão tornar sustentável o modelo do agronegócio exportador: as propostas de certificação socioambientais dos agrocombustíveis, a tomar por experiências diversas (como FSC, RTSPO, RTSB), não minimizam, mas escamoteiam os impactos, servindo majoritariamente como um instrumento de legitimação do comercio internacional. O zoneamento agroecológico da cana proposto pelo governo brasileiro, assim como a difusão de conceitos como o de terras ociosas, degradadas ou marginais, legitima a expropriação dos territórios para a expansão das monoculturas e oculta os conflitos sociais.

Reafirmamos nossa luta de mais de uma década contra os transgênicos: o avanço dos agrocombustíveis, do etanol de segunda geração e da produção de bioplásticos inclui um componente estrutural de biotecnologia, transgenia e biologia sintética, fatores que representam uma nova frente de ameaça à biodiversidade.

O atual modelo de produção e consumo, promovido pelos países do Norte é insustentável e coloca em risco a vida do planeta. Diante da crise estrutural do sistema capitalista, que engloba a questão energética, ambiental, alimentar, financeira e de valores é preciso repensar o modelo de sociedade e de civilização.

Defendemos como proposta alternativa a soberania energética, que não poderá ser alcançada em detrimento da soberania alimentar:

A soberania energética e alimentar é o direito dos povos de planejar, produzir e controlar a energia e os alimentos nos seus territórios para atender as suas necessidades:

- Requer uma nova organização do modo de vida em sociedade e das relações entre campo e cidade.
- Pressupõe um sistema alimentar calcado na reforma agrária em bases ecológicas adaptada as particularidades de cada bioma, como real alternativa aos problemas da escravidão no campo, da superexploração dos trabalhadores rurais e de concentração e acesso a terra; o fortalecimento do campesinato e das economias locais; a valorização dos hábitos alimentares e culturais; a diminuição das distâncias entre produção e consumo e relações solidárias de comercio.

Este sistema é também menos dependente, mais eficiente pode ser autosuficiente em energia. É mais apropriado e resistente e é a real solução para a crise climática, provocada pelo modelo agroindustrial petrodependente que é reproduzido na estratégia dos agrocombustíveis, a qual nos opomos.

A soberania energética pressupõe um modelo de produção e consumo de energia e de transporte baseado na racionalidade e economia, através da mudança nos atuais padrões de consumo, na diminuição dos fluxos planetários de bens e energia do sistema econômico globalizado, e em modelos de mobilidade que priorizem o transporte coletivo, públicos e de qualidade em detrimento dos automóveis individuais.

Pressupõe a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia produzida de forma descentralizada e para atendimento das demandas locais, bem como o apoio de assistência técnica e desenvolvimento de pesquisas voltadas aos interesses dos povos.

O preço da energia deve ser baseado no custo da produção real e não na especulação financeira. Tampouco pode estar sob controle de grandes grupos econômicos.

A soberania alimentar e energética está calcada nos princípios da democracia e da descentralização, com participação popular no planejamento e tomadas de decisões e gestão da produção de alimentos e energia, incluindo o cesso e controle sobre os fundos públicos, e da solidariedade entre os povos, considerando as diferentes potencialidades, necessidades e soluções apropriadas em cada país ou região.

A energia e os alimentos são direitos dos povos, nos são dados pela terra, pela água e pela diversidade da natureza, não podem ser tratados como mercadorias.

Publicação extraída de http://www.adital.com.br

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Primavera silenciosa

Bernardi,L.E. ¹

Adepto ao chavão, você é o que lê, fui fisgado no dia de hoje (18/11/2008) por uma chamada radiofônica sobre uma matéria que circularia no jornal O Sul, pg. 5 do Caderno Reportagem. “Veneno disfarçado de salada? Alface e tomate a dupla infalível no prato estão entre os alimentos mais expostos aos agrotóxicos, mas por meio de medidas caseiras, é possível minimizar o problema”.

Para contribuir com uma reflexão sobre a responsabilidade do conhecimento, transcrevo trechos colhidos do livro SILENT SPRING, 305p. Publicado em 1962, de autoria da bióloga Rachel Carson.


ELIXIRES DA MORTE

“Pela primeira vez na história do mundo, cada um dos seres humanos esta agora sujeito a entrar em contato com substâncias químicas perigosas, desde o momento que é concebido até o momento que sua morte ocorre. Em menos de dois decênios do seu uso, os pesticidas sintéticos foram tão intensamente distribuídos pelo mundo que eles aparecem virtualmente em toda a parte. Na água, no corpo dos peixes, dos pássaros, dos répteis, dos animais domésticos e selvagens e no próprio homem, tornando-se quase impossível localizar exemplares livre das referidas substâncias, mesmo em regiões isoladas.... Esta indústria criada para a produção de produtos sintéticos é um dos frutos da segunda guerra mundial... Seduzido pela técnica insinuante de vendas, bem como pelo persuasor oculto, o cidadão médio raramente forma consciência do caráter mortífero dos materiais de que se circunda, na verdade, esse cidadão chega mesmo a não perceber sequer que os está usando. ... Cada uma destas repetidas exposições ao veneno, por mais leve que seja, contribui para o envenenamento cumulativo... O Relatório mensal do Escritório de Estatísticas Vitais, de julho de 1959, declara que os crescimentos malignos – inclusive dos tecidos linfáticos e dos formadores do sangue - foram responsáveis por 15 por cento das mortes ocorridas em 1958. Compare-se isso com a proporção de 4 por cento, em 1900.....A situação, relativamente as crianças, é ainda mais profundamente perturbadora. Há um quarto de século o câncer nas crianças, era considerado raridade médica. Hoje, mais crianças em idade escolar, nos Estados Unidos, morrem de câncer, do que qualquer outra enfermidade. Grandes quantidades de tumores malignos são descobertas, clinicamente, em crianças com idade inferior a cinco anos, mas constitui fato ainda mais impressionante o de que uma quantidade muito expressiva de crescimentos malignos, isto é, de tumores cancerosos, se encontrarem presentes ao nascimento da criança, e mesmo antes disso... O Dr. Francis Ray, da Universidade da Flórida, advertiu que nós talvez estejamos iniciando o câncer, nas crianças de hoje, por meio da adição de substâncias químicas (aos alimentos)...Por enquanto, muito pouco se sabe a respeito da extensão a que nossos genes, sob condições de exposição aos efeitos das substâncias químicas inusitadas, estão sendo submetidos a tais influências mutagênicas...”.

Enfim, o debate deve ir além das “receitas caseiras para minimizar o problema”. A questão de fundo passa por este modelo produtivo suicida e, avança para a permissividade de nosso aparato de vigilância e controle.

¹ Engº. Agrº. Emater-RS, Esp. Planejamento e Gestão Ambiental, membro do Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

86 anos

Novembro 16, 2008
por José Saramago

Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.

http://caderno.josesaramago.org

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Porto MUITO Alegre

PRIMAVERA EM PORTO ALEGRE!
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Repensando a FASE

Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI

O seminário "Repensando a FASE", realizado no dia 13/11/2008, foi um esforço dos(as)trabalhadores(as)da Fundação de Atendimento Sócio-educativo, através do SEMAPI e da AFUFE, para encontrar os caminhos que levarão de fato a ressocialização dos adolescentes. Um consenso já unifica o debate: que o caminho passa, necessariamente, pelo protagonismo dos(as) trabalhadores(as).

Entretanto, para mim fica uma pergunta: como ter protagonismo, quando o trabalhador(a) é tratado como um Ser que não pensa? como garantir o protagonismo, quando o(a) trabalhador(a) não tem oportunidades de qualificação/formação e acaba seus dias, seus meses, seus anos, trabalhado em estruturas completamente sucateadas, em condições de trabalho que levam ao adoecimento? não há condições objetivas mínimas para trabalhar, muito menos para desenvolver práticas sócio-educativas, capazes de ressocializar os jovens que lá estão, privados de sua liberdade, e, também, provavelmente, privados da possibilidade de um retorno dígno para a sociedade.

Espero que avanços aconteçam, mas, não sou otimista. Vivemos no Rio Grande do Sul, governo Yeda Crusius, numa conjuntura em que os(as) trabalhadores(as) e o povo não têm valor. E, ainda que afirmemos que o NOSSO TRABALHO TEM VALOR, muita luta há que ser feita para dar materialidade a essa afirmação.

Estratégias bem formuladas,penso, poderão dar conta de parte do desafio. Aos trabalhadores(as) cabe essa formulação, e a FASE, ciente disso, está fazendo a sua parte, a partir do ciclo de seminários que inaugurou hoje.

Parabéns aos(as) trabalhadores(as)da FASE, ao SEMAPI e a AFUFE. E bom trabalho!!!

Veja matéria completa sobre o Seminário na página do Sindicato www.semapirs.com.br e abaixo a poesia que deu início às reflexões.

RISCOS
Rir é correr o risco de parecer tolo.
Chorar é correr o risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr o risco de se envolver.
Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar o seu verdadeiro Eu.
Defender seus sonhos e idéias diante da multidão
é correr o risco de perder as pessoas.
Amar é correr o risco de não ser correspondido.
Viver é correr o risco de morrer.
Confiar é correr o risco de se decepcionar.
Tentar é correr o risco de fracassar.
Mas os riscos devem ser corridos, porque o maior perigo
é não arriscar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Flores da primavera



Percorrendo as ruas e parques de Porto Alegre é impossível ficar indiferente ao presente que a natureza nos oferece nesse período. Além de outras flores e árvores, particularmente os JACARANDÁS estão belíssimos. Vale a pena apreciá-los vagarosamente. Andar pelas ruas, seja a pé ou de ônibus, deve ter um significado para além de nos levar a algum lugar. Vamos deixar(saber quando isso é fundamental exige sabedoria) o pragmatismo de lado e dar atenção às coisas belas da vida. Olhar para os lados, parar, tocar, enfim, apreciar a beleza que é a PRIMAVERA em nossa cidade. Este, pode ser um bom começo. Humaniza, faz bem para a alma e nos deixa mais felizes. E, como felicidade contagia, ela também brotará naqueles que nos cercam. Para homenagear a PRIMAVERA e nos realimentarmos da energia dessa estação, publicamos o texto abaixo. É lindo, inspirador e ajuda a lembrarmos o quanto ainda devemos lutar para que as flores com seus perfumes e os pássaros com as suas sinfonias continuem a nos visitar ano a ano. Boa Leitura!!!

Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI

Pe. Alfredo J. Gonçalves *

Abre-se a primavera. Estação das flores, das cores e dos amores. Vale a pena parar um pouco para contemplar, meditar, refletir. Que nos dizem a flor e a primavera?
Primeiro, seu sorriso livre, gratuito e aberto constitui por si só uma linguagem sem palavras. Linguagem que, em harmonia com o canto dos pássaros, o brilho do sol e das estrelas, o olhar das crianças e dos animais, o sussurro da brisa e da água, forma a grande sinfonia do universo. Um mundo em música e em festa, como um jardim florido, ao redor do qual as abelhas entoam o hino da fecundação!

Mas a flor tem outras lições. Como a espiga, como o edifício, ou como o poema, ela se levanta do chão. Busca o ar livre, o céu, a luz e o sol, mas depois de mergulhar as raízes na terra. Antes de crescer para cima, cresce para baixo. Sonha com o horizonte, mas com os pés firmes no chão da história. Aliás, a flor costuma ser tanto mais bela quanto mais árido e agreste é o solo. Os sonhos, como transfiguração das carências, também costumam ser mais belos e radicais nos porões e periferias da sociedade.

Nas asas da brisa e na dança dos pássaros, voa o pólen das flores. Mas para voar, além de asas, é preciso ter pés. As pétalas se vestem de luz somente quando as raízes buscam os nutrientes que vêm do chão escuro, frio e úmido. Projetos que não tenham os alicerces firmes na rocha do contexto histórico serão facilmente arrastados pelo vento. Manipulados pelos furacões oportunistas da política.
Também impressiona a gratuidade da flor. Entrega-se à contemplação sem nada exigir em troca. Sendo efêmero, seu brilho parece mais vivo e colorido. Como se tivesse consciência de sua passagem fugaz pela face da terra, doa-se com toda a intensidade. Faz lembrar Fernando Pessoa: "para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou excluí"! A passagem pela vida é breve e única. Por isso a flor se reveste da mais bela roupagem, antes de murchar e desaparecer para sempre. O perfume e a beleza são de tal magnitude que compensam seu desfile meteórico aos olhos dos viajantes.

Em sua gratuidade, a flor revela-se, ao mesmo tempo, forte e frágil. Como o amor, de que é o símbolo por excelência, vê-se impotente diante das intempéries. Acariciada pela brisa, ela pode ser devastada pela impetuosidade dos ventos. Mas estes, no dizer do poeta, embora possam destruir as flores, jamais impedirão o retorno da primavera.

A flor orienta-se pela luz. Busca a luz e dela se nutre. O nome do girassol traduz exatamente isso. O mais interessante é que, mesmo de noite, ele insiste em seguir o sol. Baixa o olhar para o solo como se adivinhasse que o astro rei encontra-se lá, do outro lado do planeta. Mesmo no escuro, segue fielmente a trajetória da luz. Sabe que as trevas são passageiras e que a nova aurora não tarda.

Impressiona, ainda, a diversidade das flores. Profusão de cores e tons, roupas e formatos. Inútil perguntar se a rosa é mais bela que o crisântemo, ou se o cravo é mais perfumado que a magnólia. Elas não são melhores nem piores, umas em relação às outras. São diferentes! E é justamente essa diferença que torna belo o jardim. Para brilhar, nenhuma necessita apagar o sorriso da outra. Todas e cada uma em particular encontram seu espaço na harmonia do conjunto.

Hoje corremos o risco de destruir as flores e o jardim, a natureza e o planeta. Reduzimos tudo a valor monetário, a lucro e acumulação de capital sobre capital. Está em jogo a vida, o oxigênio, a biodiversidade. Que esta estação nos ensine a lição das flores, junto com a necessidade de fazê-las brotar, nem que seja na pedra, no concreto no asfalto. Só assim estaremos avançando para a eterna primavera!

* Assessor das Pastorais Sociais.
Texto publicado em www.adital.com.br

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um aninho é pouco, mas foi muito bom!

Peço desculpas ao meu querido amigo, companheiro Paulinho, pois nas minhas tantas mensagens deixei passar essa, tão cheia de carinho. Alertada por ti, Paulinho, vejo que chegou exatamente no dia em que o blog comemorava 1 ano. Ainda que alguns dias depois, a publico, cheia de orgulho pelas tuas queridas palavras.Valeu companheiro!!!essa caminhada, tendo-te como par, seguramente, por si só, já valeu a pena. Quanto àquele almoço, fica combinado para 2009. Cheio de boas energias e novidades.Um beijo no coração!!!!!

Abaixo a tua mensagem.
Iara Aragonez.


Paulo Sérgio Mendes Filho
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI


Vinte e uma horas, de um início de noite, depois de um final de tarde lindo em Porto Alegre, dia 30 de outubro de 2008, aniversário de um aninho do Blog da Sustentabilidade do SEMAPI, não poderia deixar de postar uma mensagem, não é?

Que maravilha, um ano sustentando informações de qualidade de quem, e para quem, acredita em um mundo diferente para melhor . Nós que acompanhamos de perto a dedicação da companheira Iara Aragonez na construção, pesquisa e análise do conteúdo postado em nosso blog percebemos o carinho e a paixão de quem sabe das coisas. Foi um passo depois do outro. Várias vezes a companheira postava um artigo interessante, ou um texto e perguntava: Vocês leram o blog hoje? E nós,companheiros de caminhada, corríamos para o computador, envergonhados evidentemente, para leitura do citado texto. E pode crer, nunca desperdiçamos nosso tempo, pelo contrário, sempre recolhíamos informações importantes. Que bom né, as vezes, uma foto, um texto, uma dica, uma idéia, um artigo, uma música, um vídeo, um carinho, enfim.. o desenvolvimento de uma idéia em transe.

Um dia, comentava com a Iara da necessidade em salvar todos os conteúdos do blog em um cd, hoje me dei conta, de que não precisa salvar em um disco, sabe por que?, porque tenho a certeza de que todos que leram alguma vez algum texto do blog gravaram permanentemnte em sua memória. Acredito também, que estes mesmos, já divulgaram para outros tantos as idéias lidas no blog e com isso semearam idéias mundo a fora. Esta é a essência de um blog de qualidade,semear idéias mundo a fora.

As idéias escritas e disponibilizadas para tantos outros exercitam nossa capacidade de pensar sobre as coisas e nos fazem semeadores de idéias. As vezes necessariante não são as mesmas postadas, mas algumas outras decorrentes destas, e que intencionalmente nos fizeram pensar a partir de então. E assim foi, um vai e vem desenvolvendo idéias formando opiniões, caminhando e desenvolvendo, envolvendo e compartilhando, um ano e tanto!

Portanto ... só me resta uma coisa...Longa Vida BLOG DA SUSTENTABILIDADE SEMAPI!
Valeu Iara, acho que novamente deveríamos fazer um almoço daqueles!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

30 de outubro de 2007

Dia 30 de outubro de 2008. Neste dia, há um ano, o Coletivo Desenvolvimento Sustentável colocava no ar o Blog “Coletivo Desenvolvimento Sustentável" do SEMAPI Sindicato. Ou seja, este blog que tem hoje, nesse momento,6.232 acessos.

Lembro que em algumas conversas no Coletivo, questionávamos se “Desenvolvimento Sustentável” era a melhor denominação para expressar o que pensávamos; para traduzir a concepção que tínhamos sobre o DESENVOLVIMENTO que queríamos; para mobilizar a nossa base e o próprio Sindicato - direção e trabalhadores - a mudar suas práticas cotidianas, fossem elas de consumo ou no modo de fazer a gestão dos ambientes nos quais viviam ou trabalhavam.

Achávamos que o termo cunhado na década de 1980 era muito carregado da “energia” capitalista, pois, na verdade, centralmente, traduzia a preocupação da ONU com o esgotamento da natureza enquanto recurso para a reprodução do capital. O problema a resolver era como continuar crescendo frente à finitude das reservas naturais. Não estava em questão o livre mercado pregado pela ideologia neo-liberal, gerador de pobreza e de miséria; não estava em questão o padrão de consumo da sociedade moderna, o qual exigia e exige cada vez mais a exploração do meio-ambiente e do trabalho para dar conta da satisfação das “necessidades”, enfim, não estava em questão o desenvolvimento nos marcos do capitalismo.

Com isso, caros leitores do Blog e também meus queridos companheiros do Coletivo Desenvolvimento Sustentável, deixo aqui uma provocação. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ou DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL SOLIDÁRIO?

Acabo de sair de um bom debate sobre esse tema, animado pelo mestre em educação, assessor da ADS/CUT Sul, VALMOR JOÃO UMBELINO. Combinamos que nas próximas semanas estaremos publicando no Blog um texto seu que nos ajudará a aprofundar essa questão. Uma reflexão pautada pelos princípios da economia solidária, pela utopia de uma outra sociedade possível e pela sua certeza de que "...entre desenvolvimento e capitalismo não há compatibilidade, ou seja, são como água e vinho..."

Pois bem, nesse dia em que comemoramos 1 ano de existência, parece-me interessante celebrá-lo com uma boa “crise existencial”. E a vocês o que parece?

Um grande abraço a todas e a todos(as) leitore(as) do blog e também para os companheiros do “Coletivo Desenvolvimento Sustentável”.

Iara Borges Aragonez, desde Florianópolis,
Escola Sul da CUT.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Soberania Alimentar - Semapi debate possibilidades de uma sociedade sustentável



Uma sociedade sustentável o que temos a ver com isto?

Foi com esta interrogação que o Semapi (Coletivo de Desenvolvimento Sustentável e Núcleo Ecológico Sustentabilidade - Necoss), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a Marcha Mundial das Mulheres e a Cooperativa GiraSol realizaram o Seminário que tratou da Soberania Alimentar e Energética na véspera do Dia Mundial da Alimentação, na quarta-feira (15/10), a partir das 19 horas, no auditório da Entidade.

O Seminário foi uma maratona de informações e relatos de experiências, ao mesmo tempo em que animaram as perspectivas de se repensar o mundo e uma nova forma de se viver no planeta.

Confira as fotos do seminário sobre Soberania Alimentar e Energética

Manifesto de abertura

A saudação inicial foi feita pela diretora do Semapi Iara Aragonez que leu um pequeno manifesto, onde as entidades organizadoras expressaram o seu propósito com a atividade e algumas convicções em relação ao tema

"O nosso objetivo hoje é avançar na reflexão sobre a crise alimentar e energética a partir da agenda positiva dos movimentos sociais do nosso Estado que fazem de forma aguerrida a resistência e o contraponto ao agronegócio, à transgenia, à monocultura, ao modelo de produção hegemônico que acaba com a nossa diversidade biológica, social e cultural, assim como, ao padrão de consumo imposto pela mídia e pelas grandes redes que invadem o nosso território e induzem à compra desenfreada de seus produtos em detrimento da nossa saúde, da nossa cultura e do desenvolvimento local, seja este no campo ou na cidade. Portanto, queremos hoje, aqui, afirmar e reafirmar coletivamente que a superação dessa crise passa necessariamente pela construção da nossa Soberania Alimentar e Energética, pois, temos a convicção de que esse é o único caminho capaz de restituir a dignidade de nossa gente e garantir a autonomia dos povos".

Três crises colocam em risco o planeta

O assessor da Via Campesina, Frei Sérgio Görgen chamou a atenção para três tipos de crises que estão afetando o mundo atualmente: a crise da alimentação, a crise energética e a crise ambiental. “Estas crises são mais profundas que a crise do dinheiro ou a crise desse modelo de capitalismo, porque está na base da produção”, explicou.

As soluções devem ser pensadas de maneira integrada, pois os problemas têm uma mesma matriz. Segundo ele, temos que mudar o modelo de produção capitalista: que privilegia as monoculturas, os insumos diretos e indiretos e a dependência dos derivados do petróleo, a petrodependência. “São elas que estão esculhambando o meio ambiente, temos que reverter esta lógica”, observou Frei Sérgio.

Por exemplo, o petróleo é o energético básico para a produção de alimentos, só é possível desmatar a Amazônia, porque se tem combustível para ir até lá, para mover as motosserras e transportar as madeiras, o efeito estufa é o resultado da emissão de gases na atmosfera produzidos pelas indústrias e automóveis.
“Temos que pensar a agricultura a partir daquilo que a natureza oferece. Repensar as cidades e a distribuição geográfica da população. Fazer a reforma agrária com a necessidade de produzir alimentos com preservação ambiental e com geração de energia local. Temos que reverter esta lógica e pedir para que os agricultores tradicionais e os índios nos ensinem a viver”, concluiu Frei Sérgio.

Mulheres também em luta por soberania alimentar e energética

A bióloga Cíntia Barenho, representante da Marcha Mundial das Mulheres, relatou as perspectivas da união entre a Marcha e as mulheres da Via Campesina. Os dois movimentos protagonizaram um encontro em Belo Horizonte (BH) no final de Agosto/2008, que reuniu mais de 500 mulheres para discutir o tema. “O que se pensa sobre soberania alimentar é o direito dos povos de determinar suas políticas de alimentos e não simplesmente suprir as demandas de exportação”, destacou.

No encontro de BH foram ressaltadas as necessidades de construir um novo modelo energético, que rompa com a petrodependência, que produza energia local, permita a participação da sociedade civil e contribua para a autonomia das mulheres. O encontro também foi uma forma de união entre os movimentos do campo e da cidade. “Para isto é necessário a construção de políticas públicas”, observou Cíntia.

A agricultura ecológica como modo de produção e de vida

O produtor ecológico integrante da Associação dos Produtores Ecológicos de Ipê (Apema), Vilmar Menegat, deu uma aula de vida, sobre o desenvolvimento deste “novo” modo de produção, que preserva o meio ambiente e produz alimentos saudáveis, no painel “Sementes Crioulas e a Preservação da biodiversidade”.

Há 20 anos, eles produziam individualmente e entregavam os produtos para os atravessadores, após, se organizaram na Apema e comercializaram os seus próprios produtos, os resultados e os benefícios foram de toda a ordem: “Hoje eu posso dizer que sou um agricultor e sou feliz”, destacou.

Vilmar falou de sua experiência de produzir ecologicamente, rompendo com a agricultura moderna, que produz somente um tipo de alimento. “Muitos diziam que este sistema de agricultura era do passado, mas na nossa propriedade temos uma bicharada e vários tipos de alimentos. A agricultura moderna se desfaz daquilo que é fundamental”, explicou Vilmar. Na propriedade onde ele mora com os seus pais, tudo o que é consumido é produzido ali e comercializado nas feiras ecológicas.

Outro cuidado que o agricultor tem é com a produção das suas sementes crioulas. “As sementes já tem tecnologia e cada tecnologia traz riscos. O desafio é que cada agricultor tenha suas próprias sementes. Por isto cuidamos da qualidade das sementes e dos grãos e investimos numa unidade de beneficiamento. São poucos os que produzem sementes crioulas”, relatou Vilmar.

A agricultura ecológica tem muitas variedades de produtos e por isto se está constantemente aprendendo com a natureza. “Por exemplo, hoje no mercado tem de tudo, mas temos que entender que os alimentos são produzidos no seu tempo, na sua época”. Além da produção de alimentos eles também estão investindo em bosques e florestas como forma de aumentar a biodiversidade do local.

Este trabalho desenvolvido em Ipê, além de alimentos também gera conhecimento e trocas de experiências, a propriedade do Vilmar constantemente é visitada e contabiliza mais de três mil pessoas de mais de 27 países diferentes.

A natureza é complexa

O extensionista rural e presidente da Associação dos Servidores da Ascar/Emater, Gervásio Paulus, falou sobre o aspecto cultural da “agricultura familiar de base ecológica”. “Eu sempre separo “Agri” de “cultura”, para mostrar que mais do que plantar, agricultura implica num processo cultural”. Ele citou o termo “biotecnologia”, que parece moderno, mas, no entanto é milenar, pois na Índia, na China e mesmo antes de Cristo já existia. “Nos últimos 40 ou 60 anos conseguimos poluir e causar mais erosão do que a agricultura milenar, porque o homem quis dominar a natureza”, destacou Gervásio.

Ele explicou que o processo da monocultura implica numa mudança cultural muito grande e antinatural, porque na natureza não existe a monocultura, existe a biodiversidade. “Nos enganamos com relação aos nossos paradigmas. Os ecossistemas naturais são complexos, precisamos construir agro sistemas parecidos com o ecossistema. A grande sacada da natureza para aumentar sua produtividade é a sua diversidade. Assim se uma espécie morre, existem outras. Por exemplo, não existe erva daninha, ou praga, estes são indicadores do estado do solo ou do meio ambiente. Os agrotóxicos ajudam a combater os efeitos que eles mesmos criam”, concluiu. Outro exemplo. “A floresta Amazônica não precisou de agrotóxico para se constituir no maior ecossistema. E o que estão fazendo? Estão desmatando para plantar na Amazônia e no nordeste que se poderia ter atividade de agricultura estão plantando floresta”

Redes de consumo para integrar o campo e a cidade

Para fechar os painéis da noite, o presidente da Cooperativa Girasol, Adair Barcelos, relatou o processo de construção de grupos de consumidores, que passaram a adquirir produtos naturais. “Primeiro montamos um grupo com compras mensais, depois semanais, depois conseguimos uma sede, e assim montamos uma rede de consumidores. “Começamos com a idéia que é possível ter um produto limpo e justo, onde não existe exploração do homem e da natureza e com a construção da cooperativa Girasol passamos para uma prática concreta de organização dos consumidores urbanos”.

A cooperativa demonstra que é possível construir um outro tipo de relação de produção e de comércio, onde os consumidores sabem o que estão consumindo, e ao mesmo tempo estão estimulando um sistema de produção também limpo, ecologicamente correto e ambientalmente sustentável.

Após os painéis os participantes fizeram perguntas e passou-se para a degustação dos produtos produzidos pelos agricultores ecológicos.
O desafio colocado por último é a necessidade de ampliar o processo de produção ecológica para se ter escala e assim os custos de produção e para o consumidor também ser acessível.

Foi destacado que assim como a agricultura convencional recebe subsídios e tem empresas como a Embrapa para estimular a produção, a agricultura ecológica também precisa de empresas e políticas públicas para que realmente possa ser acessível para a população e prime por um outro paradigma que não seja somente o lucro, mas sim a qualidade do produto e a manutenção e preservação do meio ambiente.

Por Luis Henrique Silveira/Engenho Comunicação e Arte

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI avança no debate sobre SUSTENTABILIDADE


Do dia 13 ao dia 19 de outubro acontece no Estado do RS um conjunto de atividades que chamarão a atenção para a CRISE DOS ALIMENTOS, cuja compreensão passa necessariamente pelo entendimento de outro fenômeno da atualidade: a corrida à produção de BIOCOMBUSTÍVEIS, fomentada pelos países do Norte e tida como solução para a redução das emissões com efeito sobre o aquecimento global, estas, resultantes do uso dos combustíveis fósseis.

Entretanto, parece estarmos frente a uma falácia, pois, a produção de agrocombustíveis vem competindo com as florestas, uma vez que se "viabiliza" pela ampliação das fronteiras agrícolas, derrubando o Cerrado e a Amazônia, criando assim, graves problemas com o ambiente em geral, o que inclui o aprofundamento do aquecimento global e a redução da produção de alimentos.

Há como produzir biocombustíveis sem competir com a produção de alimentos e sem desmatar as florestas?

E mais, qual o papel da agricultura familiar de base ecológica frente a expansão do agro-negócio e do latifúndio; da preservação das sementes crioulas frente ao monopólio mundial de sementes e da transgenia; das mulheres; dos camponeses e dos CONSUMIDORES DA CIDADE neste cenário em que a soberania alimentar e energética são caminhos necessários para a superação dessa crise que assola o planeta e acaba com a autonomia dos povos?

Este Seminário, promovido pelo SEMAPI, MPA, Marcha Mundial das Mulheres e a Cooperativa de Comércio Justo e Consumo Consciente - GiraSol, vai propiciar esse debate para avançarmos na nossa compreensão e melhor prepararmo-nos para a AÇÃO.

O SEMAPI, na perspectiva de propiciar uma maior reflexão sobre o tema da SUSTENTABILIDADE, inicia com esse Seminário uma série de debates intitulado UMA SOCIEDADE SUSTENTÁVEL, O QUE TEMOS A VER COM ISSO? Nesse sentido, o Coletivo Desenvolvimento Sustentável, juntamente com o NECOSS – Núcleo Ecológico Sustentabilidade SEMAPI, formado por trabalhadores do SINDICATO, está organizando o próximo seminário: Gestão Ambiental Sustentável - REDUZIR – REAPROVEITAR - RECICLAR.

Por ora, convidamos você a participar do seminário SOBERANIA ALIMENTAR e ENERGÉTICA – COMPREENSÃO E AÇÃO que estamos realizando no dia 15 de outubro, no Sindicato, às 18h30min.

Iara Borges Aragonez e Antenor Pacheco
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI Sindicato

sábado, 27 de setembro de 2008

Arambaré é isso!!!

“O sacerdote que espalha luz”, concedeu-me o privilégio de estar e conviver com a natureza tal e qual sonho. Tá bem que já com sinais de degradação, principalmente se ouvirmos aqueles que ali criaram-se e hoje lutam por uma ARAMBARÉ capaz de preservar as suas belezas naturais, fundamentais para a preservação do seu ecossistema.

Há possibilidades para isso. Porém a administração local tem que colocar essa pauta em sua agenda.

Lá estive para contribuir nesse debate, e, junto com meu querido amigo, companheiro, Paulinho, seguramente, avançamos.

Mas, quero aqui, destacar a beleza de Arambaré que tem em seus moradores os seus protagonistas. As casas privilegiam jardins e hortas. A cidade, com suas Figueiras centenárias e umbus, mexem com nossas emoções.

Considero-me uma privilegiada, pois andar pela cidade nos dias ventosos e nas noites frias dessa primavera, visitando suas figueiras e seus recantos escondidos, pelas mãos do meu querido amigo, filho de Arambaré, Paulinho, ou PAULO SÉRGIO MENDES FILHO, não é pouca coisa.

Abaixo, alguns registros dessa visita.

E, VIVA A PRIMAVERA!!!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Para historiador, Semana Farroupilha é equívoco

Reportagem: Luiz Renato Almeida (2007)
Em 20 de Setembro, os gaúchos comemoram a Revolução Farroupilha. Para o historiador da Universidade Federal de Passo Fundo (UPF), Tau Golin, a Semana Farroupilha é um equívoco histórico.

Porto Alegre - Nesta quarta-feira, 20 de Setembro, os gaúchos comemoram a chamada Revolução Farroupilha, movimento reivindicatório surgido no Rio Grande do Sul em 1835
Para o historiador da Universidade Federal de Passo Fundo (UPF), Tau Golin, o tradicionalismo passa uma falsa idéia de que, no século 19, a população riograndense se levantou contra o Império. Para o pesquisador, o que começou em 1835 foi um movimento contra a taxação da terra e do charque, liderado por estancieiros e charqueadores. Nesta entrevista, Tau Golin explica porque, na sua opinião, a Semana Farroupilha é um equívoco histórico.

Os gaúchos sabem o que se comemora no 20 de setembro?Os riograndenses sabem que se comemora a Revolução Farroupilha. No entanto, não têm uma idéia precisa e desconhecem o que foi a Revolução Farroupilha. A visão que predomina no conjunto da população é a elaboração feita pelo tradicionalismo, convertida em um civismo. O que significa isso? Todo o Rio Grande do Sul, na pretensão tradicionalista, foi transformado em uma espécie de região-país, como se todos tivessem o interesse de combater o Império. Essa é uma visão equivocada, porque os farrapos eram minoria da população. Eles jamais passaram de cinco mil a seis mil pessoas, numa população de 450 mil. Vários problemas existem nesta visão sobre a Revolução Farroupilha. Em primeiro lugar, o povo do Rio Grande do Sul, na sua maioria, ficou ao lado da Regência, do Império. Nós não podemos nos esquecer que esta revolta dos estancieiros e charqueadores do Rio Grande do Sul, que ocorreu em 1835, se dá poucos anos depois da Independência do Brasil. E a Independência do Brasil foi um processo bastante traumático, do ponto de vista da construção de uma identidade nacional. Ou seja, o Estado Nação surge em 1822. A população, até então, não tinha uma identidade de nação, eles eram apenas súditos de Portugal. Então, a Independência do Brasil significou que ela passou a ter uma identidade. E a revolta dos estancieiros não era uma reivindicação do conjunto da população. Era uma reivindicação contra a taxação da terra e do charque. Eram interesses de uma classe proprietária e de pessoas que lidavam no mercado internacional do charque. Não eram interesses da população. Por outro lado, nestes primeiros momentos a oligarquia do Rio Grande do Sul estava disputando o poder desta nova nação com as elites das outras regiões do Brasil. Então, nós não temos na Revolução Farroupilha uma dimensão, que se deu a partir do tempo, que o Rio Grande do Sul era uma espécie de região-nação que estava sendo sufocada pela Regência. Na verdade, a maioria do Rio Grande do Sul ficou ao lado do Império, porque ser contra o Império, naquele momento, era ser contra uma noção de brasilidade, era perder essa identidade que a Independência tinha dado. E foi por isso que a maioria da população do Rio Grande do Sul, especialmente as cidades, lutou ao lado do Império, e não ao lado dos farroupilhas.

O senhor está dizendo a visão atual sobre a Revolução Farroupilha dá ênfase a esta bandeira da liberdade, mas omite temas controversos, como a opção pelo escravismo?A Revolução Farroupilha foi um movimento reivindicatório dos estancieiros e charqueadores, porque a estrutura do País que estava se fundando trabalhava com uma noção de regulamentação do País. Durante todo o período colonial, três séculos, não se cobrava o imposto da terra. Esse novo País começa a pensar na cobrança do imposto da terra. Os interesses dessa rebeldia dos caudilhos do Sul se dava também em cima de uma tradição guerreira, de guerras de fronteiras, que saía da política ou fazia da guerra um estado de política. Ou seja, entrar em armas era uma coisa natural na tradição dessa oligarquia riograndense, tanto é que esse protesto englobou três tipos de rebeldes: a maioria dos rebeldes farroupilhas era monarquista, o partido do Bento Gonçalves era monarquista ditatorial, não queria saber da normatização do país. Enquanto havia uma pequena parte de farroupilhas que eram monarquistas constitucionalistas: tinham uma idéia da lei, o que implicaria ser esse novo país. E havia uma minoriazinha, representada pelos jornalistas, pelos secretários desses grandes líderes, principalmente por influência da Revolução Francesa, que eram republicanos. Essas pessoas é que escreviam os textos. E se tomam estes textos, essas proclamações, como se fossem história realmente acontecida. Na verdade eram textos: era uma revolução do papel, e não uma revolução em que aquelas idéias que estavam ali eram verdadeiramente realizadas. Com exceção deste pequeno grupo, tanto o partido da maioria do Bento Gonçalves, como o partido da minoria, eram escravocratas. Tanto é que, quando eles reúnem a Constituinte Farroupilha, a escravidão é preservada e, além de só os proprietários terem direitos, os bens desses proprietários deveriam ser maiores do que seus bens no período imperial.

Até que ponto a exaltação do gaúcho não beira uma espécie de preconceito com as pessoas de fora?
A Semana Farroupilha, do ponto de vista da história, é um grande equívoco. Essa idéia de que o Rio Grande do Sul se levantou como um todo contra o Império é uma bobagem tremenda. Isso não tem o mínimo de fundamentação histórica e foi inventado pelos tradicionalistas, mas em cima de um movimento feito pelo castilhismo, no início da Proclamação da República, porque o Partido Republicano Riograndense procurava uma legitimação. Essa legitimação foi buscada no passado. Então o primeiro grande movimento estatal feito desde uma visão de totalidade do Rio Grande do Sul farroupilha foi feita pelo castilhismo, que foi um regime completamente despótico. A primeira grande manipulação da visão histórica feita pelo estado castilhista ocorreu durante toda a República Velha. Com o passar do tempo, o tradicionalismo que surge vai se basear nesta idéia, só que no pós-Segunda Guerra Mundial estão em vigor no mundo os movimentos anti-coloniais, ou seja, as guerras de libertação nacional. E esse conceito de guerra de libertação nacional foi utilizado pelo tradicionalismo, aplicável ao Rio Grande do Sul. Começaram a passar a idéia de que houve um momento no passado que todo o Rio Grande do Sul se levantou contra o império. Mas não tem consistência nenhuma essa afirmação. O que nós temos concretamente é que a população, além de ser regimentada a força... os farrapos mantiveram a escravidão, quando fizeram o acordo final e aceitaram a anistia oferecida pelo Barão de Caxias, entregaram os cento e poucos negros que ainda restavam no exército farroupilha que não tinham sido chacinados no combate de Porongos, para o Império. Esses negros, que, em sua maioria constituíram os lanceiros negros, foram levados para o Rio de Janeiro, pelo Barão de Caxias, como escravos do Estado, e foram trabalhar nas obras do Estado. Parte deles trabalhou na recuperação do porto do Rio de Janeiro, inclusive. O que nós temos é a formação de uma memória altamente manipulável, transformada num civismo, num patriotismo caótico, que alimenta um tipo de sentimento completamente arrogante, anti-brasileiro, que não auxilia na compreensão da grandeza da história do Rio Grande do Sul, porque transformou o Rio Grande do Sul no mito de uma República de estancieiros, numa República de senhores de escravo. Então, hoje nós temos um Estado mobilizado pelas forças da indústria cultural, pelos aparelhos do Estado, para cultuar na avenida e por toda a mídia, senhores de escravo e caudilhos como heróis regionais.

E qual a sua opinião sobre a transformação do 20 de setembro em um grande evento, que atraia turistas de outros Estados, iniciativa esta criticada inclusive por alguns tradicionalistas?Precisamos compreender a natureza do tradicionalismo, que por ter aparatos de Estado, aparatos da indústria cultural e em vários âmbitos da vida social, ele conseguiu incorporar todas as emoções e se faz de representante desses sentimentos de pertencimento. As pessoas que têm bons sentimentos, que desconhecem a natureza do tradicionalismo e a sua função, elas estão no processo, estão no movimento, mas desconhecem essa função estatal, essa capacidade dogmática de controle, de exercício de poder sobre as pessoas e fundamentalmente de uma vigilância sobre o comportamento e sobre a cultura. Então, em todos os âmbitos da vida social e cultural, os tentáculos do tradicionalismo vão se apossando deles, e esses tentáculos vão dando novos sentidos às emoções. Todos nós temos um sentimento de pertencer ao Sul do Brasil, de vivermos no Rio Grande do Sul, reconhecemos na história do Estado a sua grandeza. Isso está muito adequado à pós-modernidade, que se fundamenta basicamente no espetáculo e na imagem. Não interessa mais ser riograndense. Interessa parecer ser. Esse parecer ser adquiriu o aspecto de identidade. Parecer ser do Rio Grande do Sul é ter um aspecto consagrado no modelo tradicionalista. O modelo está pronto: basta você querer parecer do Sul, você veste esta fantasia. Obviamente, com isso não tem materialidade, tudo isso envereda para um superdimensionamento do parecer ser, ou seja, dessa coisa espetacular. Isso vai criando sentidos próprios, são forças que vão sendo manipuladas pelo próprio movimento, pelo Estado, então hoje o tradicionalismo também é uma força turística. Todos os recursos do grande espetáculo pós-moderno são utilizados: são verbas que deveriam ser destinadas à educação, ao conhecimento, à pesquisa, ao saber, e são desviadas, digamos assim, para esse campo de teatralidade, da espetacularização, dos desfiles, dos rodeios, ou seja, desta grande teatralidade, de um culto completamente vazio da identidade regional.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

8°. Encontro Diocesano de Sementes Crioulas



Eng°Agrônomo Lauro E. Bernardi
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
Semapi Sindicato


A Comissão Pastoral da Terra – Diocese de Santa Cruz do Sul, com apoio da Emater-RS / Ascar, Paróquia Santo Antônio, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Movimento dos Pequenos Agricultores, promoveu dia 6 de agosto no Município de Pouso Novo RS, o 8°. Encontro Diocesano de Sementes Crioulas, tendo como objetivos:
• Estimular o resgate e a troca de sementes crioulas entre os agricultores e agricultoras;
• Fortalecer a agricultura de base familiar;
• Discutir alternativas de produção agroecológica;
• Fortalecer a organização dos pequenos agricultores e agricultoras.
• Discutir alternativas de renda proporcionando melhores condições dos jovens e suas famílias permanecerem na roça dignamente.

Após a abertura com pronunciamento do bispo Don Sinésio Bonh e demais autoridades presentes, o agricultor ecologista Juarez Antônio Felipe Pereira de Mariana Pimentel, abordou o tema “preservar as sementes crioulas, uma questão de soberania camponesa” aos mais de 340 participantes. Mauricio Queiroz da organização do evento destaca que o 8°. Encontro recebeu mais de 200 tipos diferentes de sementes e mudas, explicitando uma excelente mostra da biodiversidade regional e de estratégia de enfrentamento a dominação das sementes pelas grandes corporações. O trabalho em grupo realizado durante a tarde levantou demandas de trabalho, apontou alternativas e compromissos de continuidade de encontros iguais a estes que ao longo dos anos vem sendo fortalecido pela ação da Pastoral e seus parceiros. Ao final do evento que contou com animação musical do cancioneiro popular Antônio Gringo, foram realizadas com entusiasmo característico trocas de sementes e mudas entre os participantes.

A Importância deste tema
A evolução milenar dos cultivos, a partir de seus centros de origem, legou a humanidade uma riqueza insubstituível, agora ameaçada.

O avanço do mercado de sementes de alta produtividade está fazendo desaparecer a variabilidade genética vegetal. A agricultura mundial e milhões de vidas e modos de subsistência dependem da diversidade genética e, o sentido comum nos diz que a perda destes recursos trará conseqüências negativas à humanidade. Desde o alvorecer da agricultura, há 12.000 anos, até o século XX, cada camponês teve que produzir e guardar suas próprias sementes para a temporada seguinte. Essa necessidade contribuiu para o desenvolvimento da diversidade genética e teve como resultado variedades notadamente bem adaptadas á condições muito específicas. De quase um quarto de milhão de espécies vegetais, a humanidade domesticou menos de 1.500 espécies sob a agricultura formal. Nossas necessidades alimentares hoje são supridas por menos de 30 espécies de plantas. A compreensão de que nossas alternativas alimentares seguem se reduzindo é realmente aterrador. O exemplo dramático da fome no continente africano tem relação direta com a uniformidade do sistema alimentar mundial, implantado pela revolução verde. A diversidade destes campos garantia que um ou outro cultivo adaptado sobrevivesse. Se os cultivos simples fossem afetados, sempre sobravam, para consumo, cultivos menores e plantas silvestres comestíveis. A introdução de cultivares de alta sensibilidade mudou tudo isso. Hoje, com as variedades ‘modernas’ introduzidas na África, quando a seca desfere seu golpe, não resta nada a que se possa recorrer. Pessoas morrem de fome como nunca visto antes. O aprofundamento da desapropriação do conhecimento milenar camponês pela obcecada industrialização da agricultura recriará outras Áfricas, pelo simples aniquilamento da biodiversidade. O aniquilamento da vida. A história brinda-nos com exemplos educativos. ‘Durante a guerra do Vietnã , um fungo atacou o cultivo de milho dos Estádios Unidos. A pressão de seleção para incorporar crescentes ganhos de produtividade altamente dependente de pacotes tecnológicos fez com que praticamente todos os híbridos ficassem aparentados (estreitamento da base genética). Assim, quando uma raça específica do fungo Helmintosporium maidis derrubou a resistência incorporada de uma cultivar, todas as cultivares igualmente disponíveis mostraram-se sensíveis a esta doença. A solução veio da tradicional agricultura Mexicana, que tinha entre seus cultivares milenares, mantidos pelos povos indígenas, genes de resistência natural a esta doença. A motivação apenas econômica da biotecnologia, apoiada por um sistema implacável de propriedade intelectual, faz com que as sementes vendidas como milagrosas tomem o lugar dos valiosos estoques nativos. Onde buscaremos garantir nossa segurança alimentar, quando nossos bancos de resistência natural estiverem irreversivelmente contaminados, ou centrados numa estreita base genética sob controle de um ou dois monopólios? A liberação das cultivares transgênicas de milho (polinização aberta), poderá contaminar de forma criminosa em poucos ciclos de cultivo, todos nossos materiais crioulos. Reflitamos sobre isso. (Eng°. Agrônomo Lauro E. Bernardi / Coletivo Desenvolvimento Sustentável / Semapi Sindicato)

Aproveitamos a oportunidade para divulgar a segunda edição das cartilhas sobre legislação de sementes e mudas: Semente Crioula é Legal: a nova legislação brasileira de sementes e mudas e A Produção de Sementes Registradas na Nova Legislação Brasileira de Sementes e Mudas, produzidas pelo GT Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia, ANA. O formato eletrônico das duas cartilhas e do jornal pode ser encontrado no site da AS-PTA http://www.aspta.org.br/politicas-publicas/biodiversidade/cartilhas-e-publicacoes

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Declaração Final do Encontro Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética



Uma breve síntese da participação do SEMAPI Sindicato e logo após a Declaração Final do Encontro Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética.
Foram quinhentas mulheres, negras, brancas, indígenas, quilombolas, sem terra, agricultoras, sindicalistas, mães, solteiras, casadas, jovens, estudantes, idosas, lutadoras que, de todas as regiões do Brasil, de 23 estados, de mais de 20 organizações, urbanas e rurais, reuniram-se em Belo Horizonte (MG), no período de 28/08 à 31/08, para apropriarem-se e debater sobre o grande tema da atualidade, Soberania Alimentar e Energética.

Os temas tratados foram muitos: Soberania Alimentar e Energética: Energia para que e para quem?, Integração, Soberania Alimentar, Energética e Economia Feminista, Convivência com o Semi-Árido, Agroecologia, sementes crioulas e agricultura urbana,
Resistências e ações diretas das mulheres contra as transnacionais, Ocupações dos espaços e territórios urbanos, Preço da energia, Produção energética descentralizada, Consumo e Economia Solidária, Trabalho doméstico e creches, dentre outros.

Detaca-se que o SEMAPI Sindicato esteve representado, sendo relatada a sua experiência em curso, na perspectiva da sustentabilidade, baseada na reflexão para a adoção em seu cotidiano de novas práticas de consumo. Na mesa CONSUMO e ECONOMIA SOLIDÁRIA, valendo-se da experiência recolhida também da vivência na Cooperativa GiraSol - Comércio Justo e Consumo Consciente, Iara Aragonez falou do consumo como uma potente "arma" para enfrentar as transnacionais que controlam a cadeia produtiva alimentar e que no seu processo produtivo geram danos ao meio ambiente e a sociedade. Considerou que os movimentos sociais e organizações como sindicatos, associações, conselhos, ONGs, que têm como pauta e bandeiras, o enfrentamento do capital, devem incluir em suas táticas, o boicote a produtos e a empresas que simbolizam a dominação. Destacou que tal medida coletiva é um árduo caminho, pois, a sociedade orienta a sua prática de consumo induzida pela publicidade e pelos meios de comunicação hegemônicos e, de forma alienada, respondem aos seus incessantes apelos, perdendo o olhar crítico.

Entretanto, diz, há que se incluir o CONSUMO CONSCIENTE em nossa pautas, criando densidade social e as condições objetivas para atingir, por essa via, a alma do capitalismo.

Orientar os nossos salários e os orçamentos das organizações nas quais militamos, que em sua grande parte são compostos por recursos dos trabalhadores(as), para fortalecer economicamente empreendimentos do campo popular solidário, no qual localizam-se a ECONOMIA SOLIDÁRIA e a AGRICULTURA FAMILIAR ECOLÓGICA, é o caminho. Atualmente, grande parte das organizações realizam seus eventos e tocam o seu cotidiano, consumindo bebidas e alimentos industrializados, das grandes redes, e, por conseqüência, fortalecendo economicamente o inimigo ao qual combatem em seus discursos e em suas marchas.

"Desobedecer"* a mídia, a publicidade, a força da sedução dos produtos industrializados, dentre outras imposições do capital, é uma forma ativa de resistência. E, a nós, protagonistas dos movimentos e organizações, cabe mobilizar a sociedade,também para essa forma de resistência.

Foi muito interessante o debate e constatado que esse tema do consumo está ainda em construção/formulação nos movimentos e organizações da esquerda brasileira, sendo sim necessária uma maior apropriação do tema e de sua força, bem como a incorporação do mesmo como balisador das decisões do cotidiano, incluindo-o no conjunto de táticas que já lançam mão em suas lutas para o enfrentamento do capital.

*Thureau, em 1849, desenvolveu a tese da "desobediência civil", como forma de enfrentar o poder instituído e as leis injustas. Serviu como uma tática principal aos movimentos nacionalistas em antigas colonias da África e Ásia, antes de adquirirem a liberdade. Mahatma Gandhi, usou a desobediência civil como uma ferramenta anti colonialista.

"Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor".(Thureau)

Iara Borges Aragonez.
SEMAPI Sindicato

Abaixo, a

Declaração Final do 1° Encontro Nacional de Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética.


Por soberania Alimentar e Energética!

Nós, mulheres do campo e da cidade reunidas em Belo Horizonte, de 28 a 31 de Agosto de 2008, expressamos nossa visão sobre desafios e alternativas para a construção de Soberania Alimentar e Energética.

Somos mulheres organizadas, protagonistas de lutas de resistência em defesa de uma sociedade igualitária, onde a organização da economia tenha como centralidade a sustentabilidade da vida humana e não o mercado e o lucro.

O modelo atual de desenvolvimento se apropria do racismo e do sexismo. Fundamenta-se em uma visão de economia que considera o econômico apenas as atividades mercantis e desconsidera a reprodução e invisibiliza o trabalho das mulheres. Esse modelo se pauta por uma concepção de desenvolvimento baseada na idéia de crescimento econômico ilimitado, onde o mercado e o lucro privado são priorizados em detrimento do interesse público e dos direitos humanos fundamentais, onde a política econômica se orienta pela opção exportadora, apoiada fortemente pelo Estado, no agronegócio empresarial e no setor minero-metalúrgico-energético e em uma demanda energética insustentável.

Para manter esse modelo, grandes projetos energéticos e de infra-estrutura são construídos, distantes das lógicas produtivas e culturais que organizam os territórios, provocando a expulsão do campesinato e de populações tradicionais das suas terras, a contaminação dos trabalhadores e trabalhadoras e o aprofundamento da crise ambiental e das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, são desconsiderados os caminhos alternativos e modos de desenvolvimento voltados para a igualdade social e a justiça ambiental que nossos movimentos têm proposto a partir de suas práticas concretas nos territórios que se pautam pela construção de Soberania Alimentar e Energética.

Em contraposição a este modelo afirmamos nossa luta feminista e socialista por uma nova economia e sociedade baseada na justiça social e ambiental, na igualdade, na solidariedade entre os povos, assentada em valores éticos coerentes com a sustentabilidade de todas as formas de vida e a soberania de todos os povos e comunidades tradicionais sobre seus territórios.

Diante disso:

Denunciamos:

O atual modelo de produção de energia que visa manter um padrão de produção e de consumo ambientalmente insustentável e socialmente injusto, baseado no monopólio das fontes de energia pelas grandes empresas.

As falsas soluções de mercado que estão sendo propostas para reverter o quadro de mudanças climáticas como a produção de agrocombustíveis em grande escala, assim como as expansão de impactantes projetos hidroelétricos e a retomada do programa nuclear brasileiro, energia perigosa, cara e sem soluções para os seus rejeitos.

O atual modelo de produção de agrocombustíveis, baseado em monoculturas; modelo defendido pelo governo brasileiro e controlado pelo agronegócio, que vem homogeneizando os territórios, pressionando a expansão das fronteiras agrícolas, gerando impactos sociais e ambientais e que tem sido um dos grandes responsáveis pelo aumento dos preços dos alimentos.

A especulação internacional dos produtos alimentícios que também se constitui em uma das causas do aumento dos preços dos alimentos, ao lado do aumento do preço do petróleo e do desvio de alimentos para produção de etanol e biodiesel.

O trabalho escravo que sustenta esse modelo e as péssimas condições de trabalho e de exploração do assalariado e assalariada rural, além do abuso sexual e o assedio moral a que são vitimas trabalhadoras do campo e da cidade.

Que o controle da cadeia produtiva alimentar pelas grandes transnacionais ameaça a soberania alimentar e a saúde da população. Em especial os produtos transgênicos e os altos níveis de agrotóxicos utilizados nos alimentos com a cumplicidade das autoridades públicas que não zelam para que as legislações sobre rotulagem de transgênicos e agrotóxicos sejam respeitada pelas indústrias.

O desaparecimento de sementes crioulas, a perda de biodiversidade e a ameaça a segurança alimentar em virtude da liberação comercial de cultivos transgênicos e da expansão das monoculturas de exportação, apoiadas por empresas e universidades publicas, enquanto falta pesquisa para avaliar riscos no meio ambiente e`a saúde do consumo de transgênico.

A privatização dos recursos naturais e a apropriação de nossas terras, a exploração da nossa floresta, das águas e de nossos rios, mares e manguezais pelo capital com apoio dos recursos públicos.

A privatização do setor elétrico que contribuiu para que as tarifas de energia sejam diferenciadas entre os consumidores residenciais e indústria e as políticas energéticas beneficiem as grandes indústrias para obterem cada vez mais, mais lucros.

As cidades brasileiras sofrem impactos diretos desse modelo de desenvolvimento alimentar e energético, com as altas taxas no preço da energia, com o aumento dos preços dos alimentos, com a precarização do trabalho e do transporte coletivo urbano e com a especulação imobiliária.

Reafirmamos:

A necessidade de construir um novo modelo energético para o Brasil que priorize a produção e a distribuição descentralizada de energia visando atender as necessidades locais e territoriais e que contemple a participação da população no seu planejamento, decisão e execução. E que contribua para a autonomia das mulheres, possibilitando a elas protagonizarem experiências de Soberania Energética em seus territórios.

A necessidade de desenvolvermos formas de consumo e comercialização de produtos de forma solidária e sustentável com o fortalecimento dos mercados locais e feiras livres, assim como o reconhecimento do trabalho produtivo das mulheres e seu fortalecimento.

Que é tarefa do Estado a viabilização de políticas públicas que garantam a nossa Soberania Alimentar e Energética.

A importância da pesquisa, desenvolvimento e implantação de fontes energéticas alternativas e o reconhecimento e investimento do Governo nas experiências descentrizadas de produção alternativa de energia, na socialização do trabalho doméstico e no fortalecimento da agricultura camponesa.

A agroecologia como projeto político para alcançar a soberania alimentar, assim como a luta pela Reforma Urbana, a agricultura urbana e a defesa de uma nova ocupação do espaço urbano para moradia e produção como orientadoras de políticas publicas.

A luta pelo direito à terra através da Reforma Agrária, onde esteja garantido o direito da mulher a terra, o acesso aos recursos naturais e `as decisões sobre seus usos.

Os direitos territoriais de povos indígenas e populações quilombolas.

O direito ao trabalho em condições dignas e bem remunerado. O direito a previdência social, a diminuição da jornada de trabalho, a socialização do trabalho reprodutivo.

Uma integração regional que esteja pautada na solidariedade, na complementariedade entre nossas economias, na sustentabilidade das praticas socioculturais e produtivas.

Nos comprometemos:

A lutar por justiça ambiental, pela reforma agrária, e em defesa da sustentabilidade da vida como valor central para a economia.

A desenvolver formas organizativas de luta das mulheres contra esse modelo de desenvolvimento que afeta o campo e a cidade e a denunciar permanentemente as diferentes formas de opressão e mercantilização que vivem as mulheres.

A construir e a fortalecer alianças entre movimentos sociais do campo e da cidade e a defender a necessidade de articularmos nossas experiências reivindicando políticas públicas que visibilizem as nossas experiências alternativas e nossas propostas para construção de uma transição rumo a um modelo de desenvolvimento que tenha como centro a sustentabilidade e a dignidade da vida humana.

A desenvolver formas de uso sustentável dos recursos naturais e das energias renováveis sustentáveis (eólica, solar e biomassa) bem como o aproveitando a água da chuva através da utilização de cisternas, o uso de placas solares e de experiências autônomas que contribuam para a construção de um novo modelo energético;

A lutar pela reestatização do setor elétrico e a defender o uso sustentável das águas e dos recursos energéticos.

A lutar pela autonomia econômica das mulheres e pelo direito ao trabalho digno e a fortalecer a luta dos trabalhadoras e trabalhadores assalariadas.

A lutar pela recuperação, preservação e multiplicação das plantas medicinais e sementes crioulas, em defesa da biodiversidade, da água e pelo direito de decidir sobre nossa vida, nossos alimentos, nosso corpo.

A lutar pelo direitos territoriais dos quilombolas e indígenas, porque suas lutas também são nossas. Por isso apoiamos a demarcação continua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em Roraima e reafirmamos os direitos dos povos indígenas aos seus territórios.

A realizar as mobilizações dos dias 16 e 17 de outubro por Soberania Alimentar, a participar da campanha contra o preço de energia e a fortalecer nossa marcha no 8 de março como processos de reafirmação de nossa luta por soberania alimentar e energética, diante da necessidade de construir um novo modelo energético e alimentar para o Brasil.


Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética!