quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A utopia do desenvolvimento sustentável e suas implicações no imaginário coletivo

Por Ilese Schmidt
Integrante do Coletivo Desenvolvimento Sustentável do
Semapi Sindicato

"A evolução social depende fortemente do modelo civilizatório que a sociedade adota (embora não conscientemente) em determinados momentos cruciais de sua história. Por isso, para compreender o presente é necessário abrir uma ampla perspectiva de análise que possa contextualizá-lo adequadamente”. (Leis, Héctor)


Introdução

A Revolução Industrial e seu Impacto na Natureza – um pouco de história

A Revolução Industrial designa um processo de profundas transformações econômico-sociais que se iniciou, principalmente, na Inglaterra, em meados do século XVIII. Caracteriza-se pela passagem da manufatura à indústria mecânica com a introdução de máquinas fabris multiplicando o rendimento do trabalho e o aumento da produção global.

A Inglaterra adianta sua industrialização em 50 anos em relação ao continente europeu e sai na frente na expansão colonial. Nasce a sociedade industrial. Entre as principais características da sociedade industrial, podemos citar: a organização das mais diversas atividades humanas pelo capital; a predominância da indústria na atividade econômica e o crescimento da urbanização. Vários historiadores têm dividido o processo de criação das sociedades industriais em duas fases, a primeira com duração de 1760 a 1860 e a segunda iniciada por volta de 1860. A velha Europa agrária foi se tornando uma região com cidades populosas e industrializadas. O processo de industrialização entrou num ritmo acelerado, envolvendo os mais diversos setores da economia (na segunda fase da Revolução), com a difusão do uso do aço, a descoberta de novas fontes energéticas, como a eletricidade e o petróleo, e a modernização do sistema de comunicações. Assim a expansão industrial logo ativaria a disputa por novos mercados fornecedores de matérias-primas e consumidores de gêneros industrializados resultando no que se denominou neo-colonialismo.

A necessidade de ampliar os limites de suas relações comerciais e desenvolver mercados em outros continentes os países envolvidos nesse processo, como por exemplo: a Inglaterra, a França, Estados Unidos, a Alemanha, Japão e outros, aumentavam com rapidez a exploração de seus recursos minerais e fontes de energia, aumentando dessa forma a produção.

A crescente urbanização, o aumento progressivo da produção, a exploração dos recursos naturais sem critérios e a necessidade de consumo dos bens produzidos são algumas das conseqüências desse processo iniciado no século XVIII.

Um ideal filosófico – a modernidade

A Revolução Industrial veio consolidar o ideário da Modernidade e o sistema de organização social conhecido como Capitalismo.

A Modernidade refere-se a um “estilo, costume ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII, e que ulteriormente se tornou mundialmente influente”. As idéias principais associadas a esse novo estilo de vida são:

1.a idéia de progresso, considerando o novo melhor ou mais avançado que o antigo;
2.a valorização do indivíduo, ou da subjetividade, como lugar da certeza e da verdade, e origem dos valores;
3.a capacidade de estabelecermos verdade absolutas e inquestionáveis;
4.a objetividade;
5.e, no nosso caso, a principal característica a ser considerada: a razão.


A Razão

Muitos autores, entre eles: Max Weber, Max Horkheimer e Jüergen Habermas preocuparam-se em desvendar as novas bases da sociedade moderna, distinguindo uma nova forma de razão:

A Razão instrumental

A razão instrumental é aquela em que a ação racional mantém relação com os fins. O indivíduo passa a orientar sua ação pelos fins, sendo que os meios e as conseqüências ficam na forma secundária.

A razão instrumental nasce na crença de que exista um sujeito do conhecimento e quando este sujeito toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a NATUREZA e os SERES HUMANOS. Passando a ser um instrumento de dominação, poder e exploração.

Concluindo, a Revolução Industrial com bases filosóficas na Modernidade, trouxe um modelo sócio-econômico de exploração permanente e indiscriminada do ambiente e da natureza. A relação do homem passou a ser predatória e intencional, justificada pela necessidade de progresso e avanço social e econômico. Em outras palavras o homem atribuiu ao desenvolvimento, com base em uma ética do individualismo e do crescimento econômico, a solução de todos os problemas da vida social e do próprio homem e o seu destino natural.

Da sociedade de produção para a sociedade de consumo

A partir da Revolução industrial que propunha uma sociedade mais justa, com maior produtividade e benefícios para todos, o século XX avançou alterando uma sociedade dita de produção para uma considerada de consumo. Afinal os bens produzidos em larga escala, agora, precisavam ser consumidos. A produção exacerbada e sem limites dimensionados, pela crescente e indiscriminada industrialização, mercantilismo e liberdade capitalista só gera o consumo predatório e desenfreado que constatamos. É uma relação diretamente proporcional. E insistirmos na idéia de consumo é, em outras palavras, insistirmos na destruição do planeta e da vida. Esta análise é crucial quando queremos identificar as relações imbricadas nesta rede que, naturalmente visualizamos: desenvolvimento-produção-consumo. Há uma relação direta e as mudanças que precisamos orienatr são de ordem sócio-econômicas e políticas associadas a mudanças comportamentais e ético-valorativas. Anular uma destas proposições seria insistir no modelo dos chamados “ecocapitalistas”, aqueles defensores da sustentabilidade orientada pelos próprios agentes de mercado. A compilação abaixo avalia o processo histórico iniciado após o marco da modernidade e sua utilização pelo modelo capitalista orientado para a produção e o consumo:
“Um tempo marcado por paradoxos onde convivem situações contrastantes de riqueza, fome e exclusão; de alta tecnologia e ameaças e riscos tecnológicos; de avanço científico, grandes incertezas e degradação ambiental; de alta longevidade e descarte dos idosos; de profusão de equipamentos comunicacionais e empobrecimento do diálogo e da comunicação real; de globalização e maior interdependência material e econômica associadas ao crescimento do individualismo e da solidão; de expansão da esfera pública e perda de credibilidade na política; de secularização crescente da vida social e multiplicação de novas espiritualidades; de complexificação dos problemas e reducionismos na compreensão; de muita atenção sobre os meios técnicos para satisfazer os objetivos de conquista de riqueza, do poder e do sucesso e escassa discussão sobre seus significados para os indivíduos e coletividades e sobre as alternativas possíveis de projetos civilizatórios e sociais.” (Leonardo Boff, Anthony Giddens, Ulrich Beck)

Representações, crenças e imaginário social

Nietzsche, segundo Viviane Mosé, nos traz o questionamento do que sejam os valores. Melhor, ele pergunta da existência mesma dos valores o que implica em suspeitar do valor dos valores. Quando afirma que a verdade é um valor ele nos revela que a verdade é uma idéia, uma construção do pensamento, ela tem história. Em Genealogia da Moral, ele afirma que “precisamos conhecer as circunstâncias em que os valores nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram”. Os valores são circunstanciais, não há uma verdade originária. Pelo contrário, os valores, e desta forma a verdade, são criações humanas e respondem ao jogo de forças temporal da história.

A linguagem, considerada como uma ferramenta para comunicar idéias, está constituída dentro deste arcabouço de construção que veio a efetivar comportamentos preponderantes e formas de poder. Na medida em que ela, a linguagem, naturaliza relações de dominação uma vez que o entendimento dos significados e sentidos decorrem de intervenções humanas, de intenções de construção de valores, de sentido e de representações das experiências adquiridas no agir social(Hall apud Santana, 2000).

Para Fiorin, a partir do nível fenomênico da realidade, constroem-se as idéias dominantes numa dada formação social. Essas idéias são racionalizações que explicam e justificam a realidade. Na sociedade capitalista, a partir do nível aparente, constroem-se os conceitos de individualidade, de liberdade como algo indivi¬dual etc.

Aparecem as idéias da desigualdade natural dos ho¬mens, uma vez que uns são mais inteligentes ou mais espertos que os outros. Daí se deduz que as desigualdades sociais são na¬turais. Outras idéias pias, presas às formas fenomênicas da rea¬lidade, vão construindo-se: a riqueza é fruto do trabalho (só se omite que é fruto do trabalho dos outros); pobres e ricos vão sempre existir; a pobreza é uma bênção, pois a riqueza só traz preocupações.

Assim perseverar na utilização de expressões como “consumo consciente” ou “desenvolvimento sustentável” como possibilidade de intervir na forma danosa que se configurou a ação do homem junto à natureza parece-me uma abreviatura deste mal necessário que se constituiu a produção, o desenvolvimento, o consumo e a desordem da vida neste planeta. Como provável sugestão insinuo que devemos, como tantos autores já o fizeram, inverter a lógica estabelecida e traçarmos novos capítulos da história pautados numa “ética da vida”. Estabelecermos a VIDA como ponto de partida e chegada. Ancorarmos nossos preceitos na sustentação do que é imprescindível a todos que compõe o tecido social e a tudo aquilo que existe antes mesmo da sua concepção: o ambiente – este planeta. E como já vimos, para utilizarmos da linguagem para perpetuarmos novas crenças, deixo a provocação de utilizarmos a expressão “ação pela vida”, ao invés de consumo consciente e/ou desenvolvimento sustentável.

REFERÊNCIAS

1.Fiorin, José Luís Linguagem e Ideologia.
2.Giddens, Anthony. As Conseqüências da Modernidade.
3.Leis, Héctor. A Modernidade Insustentável.
4.Marcondes, Danilo. Iniciação à História da Filosofia.
5.Mosé, Viviane.Nietzsche e a grande política da Linguagem.
6.Santana, Leila Navarro. Identidade do corpo: uma questão de interpretação.
7.Silva, Sérgio Luís. Razão Instrumental e Razão Comunicativa

Um comentário:

Sílvia BAG disse...

Ilese, concordo em abnegarmos o uso da expressão "consumo consciente e/ou desenvolvimento sustentável" - olhando por uma tela de estudante do MKT -, particularmente, por esta ter sido incorporada como estratégia do marketing que se diz social adotado e ultrajado pelas multinacionais por razões/necessidades globais. Ação pela vida local, pelo reconhecimento do cidadão como ser coletivo, como agente ativo transformador de uma sociedade que se reconfigura por emergências ambientais e não por emergências promocionais, camufladas por ecobags que visam dar status(acredite, já ouvi confirmações sobre essa vantagem),e quem se permitir ser invadido por novos ditames de consumo sem perceber-se em uma realidade aparente, não se permitirá a construção de novos valores para um novo agir social.