domingo, 1 de novembro de 2009

BRASIL: O maior consumidor mundial de agrotóxicos

AS PTA

Há títulos que não se comemoram. O de maior consumidor mundial de agrotóxicos, assumido em 2008 pelo Brasil, certamente é um desses. Diante desse alarmante quadro, há atores do agronegócio que querem fazer crer que tamanho derramamento de veneno é na verdade condição de país “líder em defesa vegetal”, ou ainda, reflexo do “uso intensivo de tecnologia”. Seguindo essa visão de “progresso”, Andef, CNA, bancada ruralista e outros fazem coro dizendo que sem o uso desses produtos a agricultura brasileira pára. Nessa linha chantagista, justificam a oposição a qualquer controle mais rigoroso ou mesmo o banimento de produtos já proibidos em vários países do mundo, como o inseticida e acaricida organoclorado endosulfam (Thiodan).

Como disse recentemente o colunista Janio de Fretias, isso não é agronegócio, mas sim “agromorte”, onde “nos envenenam a todos, não só ao meio ambiente, em um genocídio lento e doentio, que nos é servido em nossa própria mesa. Sem reação de ninguém” (Folha de São Paulo, 14/10/2009). A descrição e análise do problema estão perfeitas, mas felizmente não se pode dizer o mesmo de seu reclamo.

Isso porque nesta quarta 28 foi lançado em Brasília o Fórum Nacional de Combate aos Impactos do Agrotóxicos. A iniciativa é coordenada pelo Ministério Público do Trabalho e pelo Ministério Público Federal e conta com a participação de organizações da sociedade civil de diversas áreas e órgãos governamentais. Esse espaço permanente de debate que se cria tem como objetivo implementar ações concretas de proteção à saúde do trabalhador, do consumidor e ao ambiente como forma de enfrentar os males trazidos pelo agrotóxicos.

Alguns estados desenvolvem experiências similares, como é o exitoso caso de Pernambuco, que tem à frente o procurador do Trabalho Pedro Serafim, eleito também coordenador do Fórum Nacional. O Fórum trabalhará em estreita sintonia com organizações da sociedade, comunidades e regiões afetadas pelos agrotóxicos, recebendo denúncias e acionando órgãos competentes e demais responsáveis de forma que sejam implementadas ações efetivas de controle que permitam ao Brasil se livrar o quanto antes desse agourento título.

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Participaram do ato de criação do Fórum e o integram as seguintes organizações da sociedade civil: Rede Brasileira de Justiça Ambiental; Articulação Nacional de Agroecologia - ANA; Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar do Brasil - FETRAF-BRASIL; Rede de Ação em Agrotóxicos e suas Alternativas para a América Latina - RAP-AL; Via Campesina Brasil; Terra de Direitos; AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa; SINPAF Hortaliças; Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva - ABRASCO/GT de Saúde Ambiental; Comissão Pastoral da Terra - CPT; Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde - MT; Articulação do Semiárido Brasileiro - ASA; Associação Brasileira de Agroecologia - ABA; Repórter Brasil; Associação Brasileira do Ministério Público do Meio Ambiente - ABRAMPA.

O Fórum é aberto para receber outros membros cuja atuação seja afim a seus objetivos.

Banimento dos agrotóxicos Acefato e Endossulfam – termina na próxima terça-feria (03/11) o prazo para participar da consulta pública e apoiar a proibição do uso desses produtos, conforme recomendação da Anvisa.

Saiba como participar em:http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2009/040909_2.htm

sábado, 24 de outubro de 2009

3º Congresso do SEMAPI/RS

Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentável SEMAPI/RS

Nos dias 21, 22 e 23 de outubro/2009 foi realizado o 3º Congresso do SEMAPI/RS - Trabalho Decente e Qualidade de Vida, no Hotel Fazenda Figueiras, em Mariluz.

Dentre os vários temas tratados no Congresso*, Sustentabilidade e Meio Ambiente: O engajamento dos Atores Sociais por Justiça Cimática, foi o tema desenvolvido pela geóloga e coordenadora da ONG Amigos da Terra Brasil, Lucia Ortiz.

Lúcia foi convidada pelo Coletivo Desenvolvimento Sustentável - CDS do SEMAPI que, juntamente com o Instituto Biofilia, está formulando, já em fase final, o Projeto Cultura Ambiental, Consumo e Sustentabilidade – As bases para a construção de uma REDE EcoSindical pela SUSTENTABILIDADE. A primeira edição desse Projeto está prevista para ocorrer em Dez/2009, no SEMAPI. O público que desfrutará dessa formação é: dirigentes sindicais, trabalhadores (as) dos sindicatos e a base sindical.

Na tarde de 22/10 e manhã de 23/10 o CDS coordenou o trabalho em grupo que aprofundou o debate sobre o tema Sustentabilidade e Meio Ambiente. O objetivo central dos trabalhos foi delinear as grandes linhas de ação para o Sindicato nos próximos quatro anos. Participaram da Oficina, trabalhadores (as) da EMATER, FASE, FADERS, FEPAM, FUNDAÇÃO ZOOBOTÂNICA e FGTAS.

O debate foi riquíssimo e podemos afirmar que o tema tem uma grande acolhida na categoria. Um dos momentos ricos dos trabalhos foi o relato de experiências de cada participante nos seus locais de trabalho, na perspectiva da SUSTENTABILIDADE.

Abaixo a foto dos participantes da Oficina e, mais abaixo, texto-base que orientou o debate do grupo.



* Ver cobertura completa do Congresso no site www.semapirs.com.br
As abordagens das principais palestras, dentre elas a de Lúcia Ortiz, estão registradas no site com muita propriedade.

REDE EcoSindical pela Sustentabilidade

Coletivo Desenvolvimento Sustentável SEMAPI/RS

O SEMAPI, em 2006, no II Congresso, tirou como uma de suas resoluções a criação do Coletivo Desenvolvimento Sustentável - CDS, sendo este instituído pela gestão 2007-2010.

A análise feita pelo Coletivo para orientar o seu planejamento estratégico teve como centralidade o cada vez mais evidente impacto da ação humana sobre o meio ambiente. Verifica-se que, movido pela lógica produtivista, o modelo de desenvolvimento vigente, baseado no esgotamento dos recursos naturais e na exploração social do trabalho, vem deixando rastros de destruição que exigem respostas concretas e urgentes da sociedade.

Constata-se no debate que um dos pilares de sustentação desse modelo é o padrão de consumo imposto e adotado pela maioria da população, que, irreflexiva e inconscientemente cede ou concede ao capital. Ou seja, a grande mídia, com a sua publicidade muito bem elaborada, tem sido capaz de penetrar na mente e na subjetividade das pessoas, orientando ou determinando as suas decisões cotidianas.

A sociedade do “Ter”, assim denominada por aqueles que fazem a crítica da supremacia deste em relação ao SER, atingiu um patamar tal de anestesiamento que grande parte das pessoas tornou-se incapaz de perceber o real significado dessa “obediência coletiva”. Escapa-lhes o fato de que as suas decisões de consumo, além de servirem, sobretudo, aos interesses de uma classe, a dominante, fortalecendo-a, têm trazido conseqüências que afetam o bem viver do conjunto da população.

Frente a essa análise de conjuntura o Coletivo Desenvolvimento Sustentável – CDS formulou a sua MISSÃO, tendo sido a mesma assim definida: “LUTAR pela sustentabilidade do Planeta, desencadeando junto à base do SEMAPI e do Movimento Sindical, processos que oportunizem uma reflexão crítica sobre o modelo de desenvolvimento hegemônico, construindo uma ponte para a adoção de práticas cotidianas capazes de inverter a lógica estabelecida e de constituir as bases para um modelo de desenvolvimento sustentável.”

Uma das premissas que orientou o planejamento estratégico do CDS é que as alterações ambientais não se reduzem a um problema meramente ambiental e que acordos e medidas para a sua mitigação não se limitam a ações de maior eficiência no uso de recursos naturais ou na adoção de planos de conservação. Alterações estruturais da economia e dos hábitos de consumo são parte fundamental da solução.

Assim sendo, um dos eixos estruturantes do planejamento foi o Consumo e Sustentabilidade, o qual organiza as ações relacionadas à Significação e Re-significação do Ato Cotidiano de Consumir.

Esse eixo, além de dialogar com a premissa acima citada, justifica-se pela compreensão de que o padrão de consumo da sociedade contemporânea é um dos principais responsáveis pelos danos sociais, culturais e ambientais que o planeta terra hoje vivencia, constituindo-se em pilar de sustentação do modelo de produção hegemônico, que é socialmente excludente, ambientalmente insustentável e economicamente injusto.

Para enfrentá-lo, definimos como um dos passos fundamentais entender coletivamente os mecanismos utilizados para garantir a sua reprodução, dentre eles, a criação artificial de necessidades pela indução ao consumo desenfreado e alienado.

Nesse sentido, desvendar esta indução, assim como a cadeia de valores que está oculta atrás de cada produto, deve ser parte da superação da lógica econômica perversa a qual estamos submetidos. Para tanto, um passo essencial é trazer para o plano da consciência a noção de que o ato de consumir não é inócuo em sua consequências. E, dotar de intencionalidade política esse ato é um movimento essencial para estabelecer processos de fortalecimento de outra lógica produtiva, esta, orientada pelos valores e princípios da sustentabilidade, como justiça social, ambiental, cultural, além da ética e da solidariedade.

O Planejamento estratégico do CDS também definiu como eixos estruturantes a economia solidária e a articulação com os movimentos sociais, em particular com o sindical e ambientalista. Nessa linha, outra idéia que vem orientando o seu debate e ação é a da organização EM REDE como fator estratégico para a potencialização de suas ações.
Acreditamos que a interação, a troca sistemática e a ação cooperada, a partir do acúmulo histórico de cada movimento favorecem a criação das sinergias necessárias para a construção do novo ao qual o SEMAPI desafiou-se a partir do Congresso de 2006.

O Coletivo, nessa linha de provocar a sua base para a reflexão acerca do tema da SUSTENTABILIDADE e sensibilizá-la para novas práticas já, a partir de outro paradigma, desenvolveu o blog www.sustentabilidadesemapi.blogspot.com e também organizou no Sindicato seminários temáticos. E, de forma inovadora, estimulou a criação do Núcleo Ecológico pela Sustentabilidade do Semapi – NECOSS, constituído por trabalhadores (as) do Sindicato.

Ainda, orientados por esses eixos estruturantes, Consumo e Sustentabilidade, Articulação com os Movimentos Sociais, e, pela idéia-força de REDE, associada a Economia Solidária, o Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI, dando prosseguimento e, com a mesma intensidade de quando deliberamos pela sua criação em 2006, propõe o projeto Cultura Ambiental, Consumo e Sustentabilidade – As bases para a construção de uma REDE EcoSindical pela Sustentabilidade. Elege, no seu âmbito, como temas centrais de reflexão, as múltiplas dimensões da sustentabilidade e o padrão de consumo e de produção da sociedade capitalista.

Com esse Projeto entendemos avançar no enraizamento das sementes da sustentabilidade, esta, característica essencial da nova sociedade que queremos construir. Com ele, articulados com o movimento ambiental e sindical, construiremos as bases para a constituição de uma grande REDE estratégica capaz de materializar as mudanças as quais nos propomos. A articulação com a CUT/RS está no horizonte do Projeto, pois, a sua capacidade articuladora e o seu desafio de construir um novo projeto de sociedade, potencializam, no nosso entendimento, as possibilidades de alcançarmos e consolidarmos o que esperamos.

Agora, convictos de que mudanças culturais se efetivam apenas a partir de profundas e sistemáticas reflexões, pela incorporação de novas práticas e também pela troca de acúmulos entre diferentes atores sociais, projeta-se para 2010 a efetiva construção da REDE EcoSindical, a qual deverá ter vida longa para prosseguir nas transformações necessárias. Caberá à próxima gestão do SEMAPI garantir o seu fortalecimento e consolidação para então passarmos para outro patamar do debate.

Acreditamos que os sindicatos, além de sua missão clássica de lutar por melhores salários, melhores condições de trabalho, organizar a classe trabalhadora, defender os direitos difusos, denunciar e combater às políticas neoliberais, devem também tomar para si este outro desafio. Assim, afirmam-se como atores sociais e políticos com efetivo compromisso com as questões que atingem tanto a vida da sociedade local como a do planeta, assumindo desta forma o protagonismo no processo de superação do modelo perverso ao qual estamos submetidos

Nas Oficinas de Mobilização e Sensibilização a serem realizadas no âmbito do projeto Cultura Ambiental, Consumo e Sustentabilidade – As bases para a construção de uma REDE EcoSindical pela Sustentabilidade, o modelo de desenvolvimento hegemônico e seus mecanismos serão debatidos. Para melhor compreendê-lo, o foco de análise se deterá nas consequências ambientais, sociais, políticas, econômicas, éticas e culturais produzidas pela crescente industrialização da cadeia produtiva de alimentos e pela disseminação, pelo capital, de valores que induzem ao consumo desenfreado como forma de afirmação e legitimação social.

O recorte na produção de alimentos deve-se a posição estratégica desse setor do ponto de vista da soberania alimentar e da importância desta para a autonomia da nação. Deve-se também ao peso da cadeia produtiva alimentar no processo de degradação ao qual estamos submetidos, uma vez que se industrializa cada vez mais e cada vez mais fica submetida às grandes transnacionais as quais tomam contam de nossos territórios e nos impõem hábitos que destroem a nossa cultura alimentar.

Frente ao exposto, fica evidenciado que a questão ambiental não é apenas ligada a ecologia ou a conservação de ecossistemas. Portanto, faz-se necessária a criação de mecanismos sociais, políticos e formativos capazes de provocar a reflexão e dar densidade a outras formas de compreender, pensar e agir, somando-se as estratégias específicas e, a partir daí, constituindo as bases sociais para outro tipo de desenvolvimento.

Ousar para transformar. Com a REDE EcoSindical tecida e amadurecida em seus propósitos e práticas, teremos criado as condições para a classe trabalhadora, base dos sindicatos que integram a REDE, pensar e lutar por outro modelo de sociedade. Onde, finalmente, a produção e o consumo estarão organizados a partir de referenciais sócio-ambientais e todas as formas de dominação e exploração foram superadas. Onde a autogestão e a distribuição da riqueza serão fundantes do modelo.

Portanto, caberá a REDE aprofundar e ampliar cada vez mais o processo reflexivo e paralelamente fomentar a adoção de práticas sustentáveis por parte das organizações e de suas bases, buscando contagiar desta forma a sociedade no seu conjunto. O Projeto Cultura Ambiental, Consumo e Sustentabilidade é uma das ferramentas para tanto e, o Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI/RS, um dos atores responsáveis para levar adiante esse compromisso.

Assim, estaremos efetivamente avançando na criação das condições para a construção do novo que preconizamos, o qual poderá ter inúmeras denominações, dentre elas, o ECOSSOCIALISMO. Por que não?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

”Proteger espécies agrícolas é tão importante quanto proteger a Amazônia”

A pesquisadora Juliana Santilli, autora do livro “Agrobiodiversidade e direito dos agricultores”, explica o que é a agrobiodiversidade, e quais políticas devem ser adotadas para proteger as variedades agrícolas e os agricultores, contribuindo para a defesa ambiental e para a segurança alimentar.

A reportagem e a entrevista é de Bruno Calixto e publicada por Amazonia.org.br, 08-10-2009.

Os defensores do meio ambiente costumam dar grande destaque para a questão da biodiversidade, alertando para os riscos da extinção de espécies. Entretanto, a biodiversidade agrícola, de espécies cultivadas como o arroz, o feijão, o milho, é geralmente negligenciada.

Para entender melhor esse conceito de agrobiodiversidade, o site Amazonia.org.br conversou com a pesquisadora e doutora em direito ambiental Juliana Santilli, que lançou recentemente o livro “Agrobiodiversidade e direitos dos agricultores” (Ed. Peirópolis, 514 págs.).

Juliana explica que, segundo estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 95% das espécies agrícolas desapareceram nos últimos cem anos. Com a modernização da agricultura e ênfase na monocultura, muitas outras espécies estão ameaçadas, colocando em risco nossa segurança alimentar.

Além disso, a autora fala da importância de políticas para a agricultura familiar, no âmbito do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), e sobre os direitos dos agricultores. “O reconhecimento dos direitos dos agricultores é uma parte chave de qualquer política de reconhecimento e valorização da agrobiodiversidade”.
Eis a entrevista.

O que é agrobiodiversidade?
Agrobiodiversidade é a biodiversidade agrícola. Corresponde aos três níveis de diversidade: a diversidade de espécies agrícolas, por exemplo, arroz, feijão; a diversidade de variedades agrícolas, pois dentro de uma mesma espécie existem diversas variedades; e a diversidade de ecossistemas agrícolas, como sistemas agroflorestais, de queima e pousio [descanso ou repouso dado às terras cultiváveis], e outros. Então a agrobiodiversidade encobre esses três níveis.

É comum vermos denúncias de espécies de animais ameaçados de extinção, e da perda da biodiversidade. A agrobiodiversidade também está ameaçada?
Sim, está ameaçada. Há estudos feitos pela FAO que mostram que nos últimos cem anos os agricultores perderam entre 90% e 95% de suas espécies e variedades. O que ocorre é que em geral as pessoas associam a biodiversidade às plantas e animais silvestres. Há poucas políticas públicas voltadas para a conservação da biodiversidade agrícola. Essa foi a razão pela qual eu quis escrever esse livro.

Os próprios juristas que trabalham com direito ambiental têm se ocupado muito pouco no tratamento jurídico da agrobiodiversidade. Historicamente, o componente cultivado da biodiversidade tem sido negligenciado pelos ambientalistas e pelas políticas de órgãos públicos. E, na verdade, proteger variedades de mandioca, milho, arroz, e os nossos ecossistemas agrícolas, é tão importante quanto proteger a floresta amazônica, a Mata Atlântica, o mico leão dourado. Muitas variedades de espécies agrícolas já se extinguiram, e outras correm risco de extinção.

A nossa alimentação se baseia em um número cada vez mais reduzido de espécies, e isso tem consequências não só para o meio ambiente, mas para a nossa saúde, que está diretamente associada à qualidade dos alimentos que nós comemos. Nossa alimentação se torna mais pobre. Poucas pessoas se dão conta da interface entre os modelos agrícolas hegemônicos e o padrão alimentar que nos é imposto.

O que causa essa perda da agrobiodiversidade? Isso está relacionado à modernização da agricultura?
O relatório da FAO que eu citei antes aponta como principal causa a substituição das variedades locais heterogêneas, de ampla base genética, pelas variedades industriais, aquelas que são adotadas por um modelo industrial de agricultura, pelas monoculturas com uso de variedades homogêneas e altamente dependentes de insumos externos. Essa é a principal causa da perda da agrobiodiversidade: a adoção de modelos agrícolas monoculturais que usam uma única espécie, ou números muito reduzidos de espécies e variedades agrícolas, ao contrário dos sistemas locais que tendem a ser mais diversos.

Que tipo de política seria necessária para defender a agrobiodiversidade?
Algumas políticas que têm sido adotadas no MDA, a favor da agricultura familiar, tendem a favorecer mais a agrobiodiversidade. A própria criação da Secretaria da Agricultura Familiar, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, programa de aquisição de alimentos, são iniciativas positivas. Entretanto, ainda é pouco, porque você tem muito mais subsídios e políticas voltados para o agronegócio, para a monocultura. Às vezes uma única roça familiar ou tradicional tem uma diversidade muito maior do que em toda uma plantação de soja.

No livro a gente propõe alguns novos instrumentos. Por exemplo, não temos ainda uma categoria de unidade de conservação ambiental voltada para a agrobiodiversidade. Acho que seria importante que o Sistema Nacional de Unidades de Conservação incluísse algumas categorias voltadas para a agrobiodiversidade, e acho que seria interessante também pensar em alguma coisa como uma reserva de segurança alimentar. Seriam áreas nas propriedades rurais, um percentual, uma parte dessas áreas que teriam que se dedicar à agricultura para abastecimento interno, para gêneros alimentícios. Como uma medida de segurança alimentar.

Existem também iniciativas, por exemplo, no âmbito do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), com a Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro. Eles apresentaram um pedido para que seu sistema agrícola tradicional seja reconhecido como patrimônio cultural e material. Caso se reconheça o sistema agrícola do rio Negro como um bem que integra o nosso patrimônio cultural, isso passará a obrigar o poder público a adotar políticas de conservação, de estímulo.

No âmbito da FAO temos um programa para os sistemas agrícolas engenhosos de patrimônio mundial. Da mesma forma que você tem o patrimônio comum da humanidade, a ideia é ter reconhecimento para esses sistemas agrícolas diversos, que reúnem tanto uma grande diversidade biológica como também uma grande diversidade sociocultural.

No plano nacional, o Ipham criou uma categoria da chancela de paisagens naturais, e algumas paisagens agrícolas. Por exemplo, o vale do Itajaí está sendo considerado para fim de reconhecimento como paisagem natural. Enfim, são apenas alguns exemplos.
O livro também aborda os direitos dos agricultores. Quais são esses direitos?
O reconhecimento dos direitos dos agricultores é uma parte chave de qualquer política de reconhecimento e valorização da agrobiodiversidade, porque os agricultores têm papel fundamental na conservação da agrobiodiversidade.

Recentemente o Brasil ratificou o tratado da FAO sobre recursos fitogenéticos para alimentação e agricultura. Como os ambientalistas dão pouca atenção para a agrobiodiversidade, esse tratado não teve a mesma repercussão que a convenção sobre diversidade biológica, com instrumentos mais voltados para a biodiversidade silvestre.

Esse tratado é um marco importante, porque entre outras coisas prevê o direito dos agricultores: o direito aos conhecimentos tradicionais associados à agrobiodiversidade, a repartição dos benefícios gerados pela utilização da agrobiodiversidade, o direito dos agricultores de guardar, trocar, produzir as suas próprias sementes, e o direito de participação política dos agricultores, em todas as instâncias de decisão que os afetem: a política agrícola, agrária, em relação à produção e comercialização de sementes.

Não que os direitos dos agricultores deva se limitar aos que estão previstos no tratado. Eles são muito mais amplos, incluem o direito de acesso a terra, a água, as políticas de crédito, a reforma agrária. Mas esse tratado é um marco importante para se pensar na definição dos direitos dos agricultores. É um primeiro passo.

Esses direitos já são reconhecidos pela sociedade?
Não. Principalmente porque nos últimos anos as leis de sementes, que regulam e estabelecem as normas de produção, comercialização e utilização de sementes, estão extremamente restritivas e tendem a favorecer apenas os sistemas formais. Os sistemas locais, em que a produção está na mão dos próprios agricultores, têm pouco reconhecimento legal. Embora a lei de semente tenha algumas brechas, na prática as organizações de agricultura familiar têm encontrado dificuldades para trabalhar nos termos da lei de sementes.

Uma das ameaças aos direitos dos agricultores são leis de sementes muito restritivas, e leis de proteção de cultivares, que também tendem a ser restritivas. Atualmente os agricultores têm direito de guardar para uso próprio as sementes de variedades protegidas, um direito reconhecido pela lei brasileira em vigor. Entretanto, há iniciativas no Congresso Nacional que pretendem restringir essa possibilidade do agricultor guardar as suas sementes para usar na safra seguinte, o que no meu entendimento é uma violação dos direitos do agricultor.

O Brasil já ratificou esse tratado internacional, foi aprovado pelo Congresso, promulgado pelo presidente, está em vigor desde o ano passado. Portanto o país deve cumprir com as obrigações que assumiu no plano internacional e implementar os direitos dos agricultores antes de adotar qualquer nova legislação que possa criar novas restrições e novos empecilhos aos direitos dos agricultores.

Um dos capítulos do livro faz uma relação entre as sementes e o movimento do software livre. Que relação é essa?
O que eu tento mostrar é um pouco as conexões entre o movimento software livre e os commons e as sementes. Em determinado momento, as pessoas que desenvolvem programas de computador, conhecidos como hackers, se deram conta de que uma excessiva proteção do direito de propriedade intelectual sobre o software acabava restringindo sua liberdade de criação e circulação de informações, e desenvolveram softwares em que o código fonte é aberto, para permitir que outros programadores possam desenvolver outros softwares.

Em certo sentido, o que muito agricultores familiares reivindicam é isso, um acesso livre as sementes e a informação genética contida na semente, para que eles possam intercambiar livremente as suas sementes, utilizá-las como fonte de variação no melhoramento que é feito pelos próprios agricultores. É nesse sentido, uma forma de garantir o acesso, não completamente livre, mas totalmente regulado, às sementes.
(IHU-Online)

sábado, 10 de outubro de 2009

Dia da Criança: Cidadã ou Consumista?

Frei Betto *
Adital

Na próxima segunda, 12 de outubro, comemora-se o Dia da Criança. Momento de refletir o que temos feito com as nossas. Estamos formando futuros cidadãos ou consumistas?

Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar 4 horas por dia na escola e o dobro de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias destinadas a crianças ou que as utilizam como isca de consumo.

A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.

Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, constatou a pesquisadora, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.

Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Ora, sabemos todos que o tombo é proporcional ao tamanho da queda. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, impositiva, indisciplinada em casa e na escola.

A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.

Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais de que, um e outro, queriam se ver livre dele no fim de semana.

Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente "adulta". Encurta-se, assim, seu tempo de infância. A fantasia, própria da idade, é transferida à TV e ao apelo de consumo. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.

Com frequência pais me indagam o que fazer frente à indiferença religiosa dos filhos adolescentes. Respondo que a questão é colocada com dez anos de atraso. Se os filhos fossem crianças, eu saberia o que dizer: ore com eles antes das refeições; leiam em família textos bíblicos; evitem fazer das datas litúrgicas meros períodos de miniférias, como a Semana Santa e o Natal, e celebrem com eles o significado religioso dessas efemérides; incutam neles a certeza de que são profundamente amados por Deus e que Deus vive neles.

Crianças são seres miméticos por natureza. A melhor maneira de interessar um bebê em música é colocá-lo ao lado de outro que já tenha familiaridade com um instrumento musical. Ora, o que esperar de uma criança que presencia os pais humilharem a faxineira, tratarem garçons com prepotência, xingarem motoristas no trânsito, jogarem lixo na rua, passarem a noite se deliciando com futilidades televisivas?

Criança precisa de afeto, de sentir-se valorizada e acolhida, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, de punição sem violência física ou oral. Só assim aprenderá a conhecer os próprios limites e respeitar os direitos do outro. Só assim evitará tornar-se um adulto invejoso, competitivo, rancoroso, pois saberá não confundir diferença com divergência e não fará da dessemelhança fator de preconceito e discriminação.

É preciso conversar com elas, através da linguagem adequada, sobre situações-limites da vida: dor, perda, ruptura afetiva, fracasso, morte. Incutir nelas o respeito aos mais pobres e a indignação frente à injustiça que causa pobreza; senso de responsabilidade social (há dias vi alunos de uma escola varrendo a rua), de preservação ambiental (como a economia de água), de protagonismo político (saber acatar decisão da maioria e inteirar-se do que significam os períodos eleitorais).

Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens finitos. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens infinitos - generosidade, solidariedade, espiritualidade - ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição.

Saber educar é saber amar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Publicidade e Consumo Infantil - PL 5921/2001

"A televisão comercial movimenta um mercado milionário com a publicidade voltada para o público infantil. Crianças tornam-se consumidoras cada vez mais cedo, muitas vezes logo depois que aprendem a falar. Psicólogos, educadores e organizações da sociedade criticam essa prática.

- Jorge Broide professor da UNIBAN Universidade Bandeirantes de São Paulo, psicanalista e presidente do conselho consultivo da fundação ABRINQ pelos direitos da criança e do adolescente.

- Lais Fontenelle Pereira mestre em psicologia clinica e coordenadora de educação do Instituto Alana. e

- Fernando Brettas, presidente do sindicato das agências de propaganda do Distrito Federal."

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O FUTURO DOS ALIMENTOS.

The Future of Food
Escrito e Dirigido por: Deborah Koons Produção: Catherine Butler Vem ocorrendo uma revolução nos campos de cultivo e nas mesas de jantar da América, uma revolução que está transformando a própria natureza dos alimentos que comemos. "O Futuro dos Alimentos" oferece uma investigação aprofundada à verdade perturbadora que se encontra por detrás dos alimentos geneticamente modificados, patenteados e não rotulados, que, de forma silenciosa, têm enchido as prateleiras das lojas dos Estados Unidos durante os últimos 10 anos. Das planícies de Saskatchewan, no Canadá aos campos de Oaxaca, no México, este filme dá voz aos agricultores cujas vidas e sustento têm sido prejudicados por esta nova tecnologia.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PRIMAVERA



Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Por nossos mortos, nem um minuto de silêncio. Toda uma vida de luta!

NOTA PÚBLICA SOBRE O ASSASSINATO DE ELTON BRUM PELA BRIGADA MILITAR DO RIO GRANDE DO SUL

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra vem a público, manifestar novamente seu pesar pela perda do companheiro Elton Brum, manifestar sua solidariedade à família e para:

Denunciar mais uma ação truculenta e violenta da Brigada Militar do Rio Grande do Sul que resultou no assassinato do agricultor Elton Brum, 44 anos, pai de dois filhos, natural de Canguçu, durante o despejo da ocupação da Fazenda Southall em São Gabriel. As informações sobre o despejo apontam que Brum foi assassinado quando a situação já encontrava-se controlada e sem resistência. Há indícios de que tenha sido assassinado pelas costas.

Denunciar que além da morte do trabalhador sem terra, a ação resultou ainda em dezenas de feridos, incluindo mulheres e crianças, com ferimentos de estilhaços, espadas e mordidas de cães.

Denunciamos a Governadora Yeda Crusius, hierarquicamente comandante da Brigada Militar, responsável por uma política de criminalização dos movimentos sociais e de violência contra os trabalhadores urbanos e rurais. O uso de armas de fogo no tratamento dos movimentos sociais revela que a violência é parte da política deste Estado. A criminalização não é uma exceção, mas regra e necessidade de um governo, impopular e a serviço de interesses obscuros, para manter-se no poder pela força.

Denunciamos o Coronel Lauro Binsfield, Comandante da Brigada Militar, cujo histórico inclui outras ações de descontrole, truculência e violência contra os trabalhadores, como no 8 de março de 2008, quando repetiu os mesmos métodos contra as mulheres da Via Campesina.

Denunciamos o Poder Judiciário que impediu a desapropriação e a emissão de posse da Fazenda Antoniasi, onde Elton Brum seria assentado. Sua vida teria sido poupada se o Poder Judiciário estivesse a serviço da Constituição Federal e não de interesses oligárquicos locais.

Denunciamos o Ministério Público Estadual de São Gabriel que se omitiu quando as famílias assentadas exigiam a liberação de recursos já disponíveis para a construção da escola de 350 famílias, que agora perderão o ano letivo, e para a saúde, que já custou a vida de três crianças. O mesmo MPE se omitiu no momento da ação, diante da violência a qual foi testemunha no local. E agora vem público elogiar ação da Brigada Militar como profissional.

Relembrar à sociedade brasileira que os movimentos sociais do campo tem denunciado há mais de um ano a política de criminalização do Governo Yeda Crusius à Comissão de Direitos Humanos do Senado, à Secretaria Especial de Direitos Humanos, à Ouvidoria Agrária e à Organização dos Estados Americanos. A omissão das autoridades e o desrespeito da Governadora à qualquer instituição e a democracia resultaram hoje em uma vítima fatal.

Reafirmar que seguiremos exigindo o assentamento de todas as famílias acampadas no Rio Grande do Sul e as condições de infra-estrutura para a implantação dos assentamentos de São Gabriel.

Exigimos Justiça e Punição aos Culpados!

Por nossos mortos, nem um minuto de silêncio. Toda uma vida de luta!

Reforma Agrária, por justiça social e soberania popular!

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Governo que se esfalece

Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente - MoGDeMA

O governo do RS esfacelou-se, mas se engana quem ache que um dia ele teve início para os gaúchos.

As denúncias contundentes do Ministério Público Federal, e jamais vistas na nossa história, não são total surpresa para nós que acompanhamos, desde o início, os graves fatos que vêm acontecendo na área ambiental. O momento, embora amadurecido na reflexão, ainda não nos mostra todos os desdobramentos desta situação, em que a própria democracia se vê ferida.

O grupo que se apresentou “com uma nova forma de governar”, e que está muito bem definido em qualquer dicionário de bolso, causou destruição e danos irreparáveis ao nosso meio ambiente, ao homem do campo e as pessoas em geral, tudo para atender interesses financistas. Para tanto, promoveu grave e lamentável desestruturação desde a Secretaria Estadual do Meio Ambiente até seus órgãos subordinados, como a FEPAM. De forma jamais vista, a “coisa pública” foi posta a serviço de empresas de celulose, que chegaram ao cúmulo e extremado acinte de exigir e impor ações, que o governo servilmente acatou.

Lembramos que administradores em cargos de escolha política, escandalosamente desconsideraram alertas sobre graves indícios de irregularidades em Estudo de Impacto Ambiental de empresas como a Votorantim, assim como as conseqüências desastrosas da implantação de oceânicas lavouras de eucalipto. Sob a imposição de determinações tenazes e com propósitos alheios aos interesses cidadãos, funcionários concursados ainda são submetidos a administradores que tiveram as próprias empresas de celulose entre seus financiadores de campanha política. Sob o cunho espertalhão de “agilizar liberações ambientais”, tais administradores ainda estão levando de roldão o cuidado mínimo exigido com tais licenças. Não entendemos e nem admitimos como legítimos os atos impetrados por qualquer um dos representantes da SEMA ou FEPAM. Eles também devem responder à justiça pelos seus atos.

O principal prejudicado por estes atos serão todos os gaúchos, mas particularmente o homem do campo, o pequeno agricultor, a produção agrícola, o alimento saudável, já vêm sofrendo com o engodo, envenenamento e destruição das nossas riquezas naturais. É importante salientar o encadeamento calamitoso para o campesino que, sem uma política séria e de apoio a produção agrícola, vendeu sua terra na esperança de obter vida digna na cidade. Hoje, terras agrícolas produtivas são sugadas por raízes de empreendimento financista, secando campos, destruindo a riqueza do solo, só para aumentar a fortuna de quem já é rico. Hoje, desiludidos e enganados, muitos destes valorosos e experientes produtores aumentam roldões de desempregados das grandes cidades.

Não exageramos ao afirmar que, desde os seus primeiros momentos, a ação conjunta de “governo” e empresas vem aniquilando características e valores que só o nosso meio ambiente possui. Com a justificativa absurda e mentirosa de geração de empregos e promoção do desenvolvimento, o nosso RS foi repassado a “empresários” que vêm vampirizando nossa força de trabalho, destruindo nosso campo, alagando nossas florestas, levando a bancarrota nossa economia; atitudes que enriquecem uns poucos gananciosos, mas que aniquilam nosso Estado. O nosso Pampa virou terra de negociata.

Mas este governo não está só!

Muitos políticos da Assembléia Legislativa atuaram como braços vigorosos de apoio e estímulo das intenções governamentais. Temos que tirar o necessário aprendizado da vergonhosa situação que vivemos e, para que o caos não se perpetue, temos que tirar estes personagens da política gaúcha. Para tanto, perguntemo-nos; quem não votou favorável à exigida CPI? Quem dos políticos foi financiado por empresas de celulose? (procure o seu em www.tse.gov.br). Quais os partidos que fugiram das suas responsabilidades? Aonde têm nos levado estes absurdos financiamentos de campanha?

Por fim, mas não por último, temos que pensar em recompor o nosso Estado. A desordem, a confusão e a subversão são os legados deixados pelo “novo jeito de governar”. Reafirmamos que os atos administrativos da SEMA e FEPAM devem ser anulados, pois atenderam a interesses não cidadãos.

A tarefa será árdua e levará anos, pois o “enraizamento” dos interesses particulares e espúrios deste governo abalou a estrutura administrativa, feriu honra e envergonhou a nossa história.

domingo, 26 de julho de 2009

Sustentabilidade: um olhar para fora...

Por Dal Marcondes, da Envolverde

Muita gente ainda não compreende o que é sustentabilidade e porque deveria mudar seu modo de vida. A sociedade certamente não vai empreender as transformações necessárias se não estiver convencida da urgência das mudanças.

Dias atrás estava conversando com um bom amigo, que não trabalha nem com comunicação e nem com meio ambiente e sustentabilidade, sobre carros, trânsito e modelo de desenvolvimento. Ele vive em Santos, uma cidade que eu adoro por ser, ainda, uma boa referência em estrutura urbana. Depois de 15 minutos de conversa percebi que estamos em lados completamente opostos em relação ao que seja uma vida confortável e sustentável. Comentei que se Santos continuasse a receber automóveis no ritmo atual, em muito pouco tempo estaria completamente engarrafada, com os mesmo problemas de mobilidade que São Paulo já enfrenta.

Santos é uma cidade plana, pequena sob o ponto de vista territorial, concentrada em temos de ocupação. Ou seja, ideal para trajetos a pé, de ônibus e de bicicleta, sem falar de um tal VCL (Veículo Leve Sobre Trilhos) dos qual se fala desde que o Mário Covas era governador (ele também um santista). Minha surpresa veio quando meu amigo simplesmente respondeu que esse era um preço a ser pago pelo conforto. De pronto perguntei, “mas que conforto?”

Em minha visão de jornalista especializado em temas ligados à sustentabilidade, conforto é uma cidade onde a mobilidade é garantida através de meios que não imponham mais poluição e nem ocupação desordenada das ruas. Transporte público, espaços abertos, bicicletas e uns poucos carros que são usados apenas por necessidade absoluta. Argumentei que andar de táxi, por exemplo, pode ser muito mais barato do que andar de carro. Não se corre o risco de levar multas, não é preciso pagar estacionamento e nem sequer é preciso se preocupar com tomar um chopp a mais.

Por mais que eu tentasse explicar as vantagens individuais e coletivas em ter uma cidade com menos carros e mais espaço para as pessoas, meu amigo não conseguia entender. Para ele eu devo ter parecido uma espécie qualquer de idiota que não entende o quanto um carro oferece de conforto. Claro que compreendo isso, eu mesmo tenho um carro. No entanto, a questão é como usamos o carro e para que. Por exemplo, se locomover para um escritório, pagar um estacionamento e retornar no final do dia é uma atividade que pode muito bem ser feita de outra forma, principalmente em Santos.

Outra coisa que constatei, pela enésima vez, é o quanto as questões relacionadas ao meio ambiente, à sustentabilidade, aquecimento global etc estão longe das pessoas que não estão diretamente envolvidas com este tema. Certamente a culpa não é destas pessoas, mas sim das outras, aquelas que compreendem a importância de ser sustentável, mas que não estão conseguindo mostrar o quanto isso é importante para todo mundo.

Não se trata apenas de economizar água, energia, separar lixo para a reciclagem ou outras tantas atividades que são preconizadas nas cartilhas de educação ambiental. É preciso estimular o pensamento sustentável, que favorece um olhar mais sistêmico sobre a realidade. Mas como fazer isso?

Nos últimos anos temos trabalhado na Envolverde para informar e formar uma parte da sociedade sobre a transversalidade necessária na abordagem dos temas socioambientais e econômicos. Não estamos mais na fase dos diagnósticos. A maior parte dos problemas socioambientais graves que devem ser enfrentados com urgência pela sociedade já estão devidamente identificados, catalogados, estudados e diagnosticados, com suas causas e conseqüências exaustivamente conhecidas.

A questão agora é saber como convencer as pessoas a mudar. As milhões ou bilhões de pessoas mais afetadas pelos problemas sociais e ambientais não têm a capacidade de reação necessária para alterar a realidade de seu entorno. E as milhões ou bilhões de pessoas que precisariam mudar o modo de vida, ou simplesmente não sabem disso, ou não acham necessário, ou estão se lixando para os problemas.

A questão que se coloca é como conseguir que a sociedade entenda o sentido de urgência dos problemas ambientais, em especial do aquecimento global, do desmatamento e da degradação de ecossistemas, como fazer a atual geração de seres humanos no planeta compreender que deve existir uma “solidariedade intergeracional”, ou seja, que precisamos preservar recursos para as pessoas que ainda não nasceram (como prevê o triple bottom line).

Aqueles que compreendem esta urgência devem superar o sentimento de frustração que está se sobrepondo à necessidade de continuar falando, escrevendo, ensinando e pregando. Mas, principalmente, é preciso compreender que a grande maioria das pessoas ainda não está convencida, por muitos motivos, de que precisam mudar. (Envolverde)

* Dal Marcondes é diretor da Envolverde.

(Agência Envolverde)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A cidadã Yeda e a Governadora

Paulo Mendes Filho

Estamos observando que a cada dia os ânimos se acirram e o confronto se anima. O momento requer diálogo para não perder a razão, a quebra de braço pode quebrar as pernas. As denúncias de corrupção foram trazidas por ações da Polícia Federal e por membros do governo. São denúncias que comprometem vários políticos da sua base de sustentação. Ao serem jogadas na mídia sem apuração judicial, transformam-se em munição pesada das entidades sindicais para defenderem-se dos ataques do governo. Um governo muito duro, que não conversa com trabalhadores, centralizado e focado na radicalização. Bate por dentro e por fora, nos seus aliados e nos seus servidores. Levar uma réplica da escola de lata para frente da casa da governadora foi uma ação para mostrar as contradições do governo e pressionar a Assembleia Legislativa para apurar as denúncias de corrupção. Nada de mais. A casa da governadora não é uma casa qualquer, é o objeto que materializa as denúncias de corrupção. O mesmo vale para a simbologia das escolas de lata. Portanto, não houve excesso e sim uma oportunidade bem aproveitada pelos sindicatos para denunciar o governo.

O que saiu da normalidade foi o ataque de fúria da governadora. Expôs seu cargo, a família, netos e filha ao ridículo. Tudo indicava que o melhor seria ficar em casa bem tranquila, chamar a polícia, resolver a questão e depois pedir desculpa aos vizinhos em nota oficial. Mas não, com um casaco do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) ela vai até as grades do portão, xinga, bate boca, levanta o tom, provoca os manifestantes, expõe os netos, colocando-os na condição de prisioneiros, chama os professores de torturadores, escreve um cartaz, se deixa fotografar em estado de ódio e age loucamente como se fosse uma Yeda qualquer e não a governadora do Rio Grande. O caminho da Paz passa pela apuração das denúncias. Se não confirmadas, a governadora se fortalece, se confirmadas ela deve sair. Enquanto durarem as suspeitas, o confronto não irá parar, com a apuração a vida volta ao normal. A sociedade tem que pressionar, o Rio Grande precisa ser grande novamente, precisamos de uma governante e não de uma cidadã qualquer no governo!

Diretor do Semapi/Sindicato

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Os mapas da alma não têm fronteiras

Por Eduardo Galeano*

Texto lido pelo autor na cerimônia em que recebeu a condecoração da Ordem de Maio da República Argentina, na embaixada daquele país em Montevidéu, no dia 9 de julho.

Montevidéu, julho/2009 – Permitam-me agradecer esta oferenda que estou recebendo, que para mim é um símbolo da terceira margem do rio. Nessa terceira margem, nascida do encontro das outras duas, florescem e se multiplicam, juntas, nossas melhores energias, que nos salvam do rancor, da mesquinhez, da inveja e de outros venenos que abundam no mercado.

Aqui estamos, pois, na terceira margem do rio, argentinos e uruguaios, uruguaios e argentinos, rendendo homenagem à nossa vida compartilhada e, portanto, estamos celebrando o sentido comunitário da vida, que é a expressão mais profunda do senso comum.

Afinal, e perdão por ir tão longe, quando a história ainda não se chamava assim, lá no remoto tempo das cavernas, como faziam para sobreviver aqueles indefesos, inúteis, desamparados avós da humanidade? Talvez tenham sobrevivido, contra toda evidência, porque foram capazes de compartilhar a comida e souberam se defender juntos. E passaram-se os anos, milhares e milhares de anos, e está claro que o mundo raras vezes recorda essa lição de senso comum, a mais elementar de todas e a que mais falta nos faz.

Tive sorte de viver em Buenos Aires nos anos 70. Cheguei corrido pela ditadura militar uruguaia, e me fui corrido pela ditadura militar argentina.

Não me fui. Me foram. Mas nesses anos comprovei, uma vez mais, que aquela pré-histórica lição de senso comum não estava de todo esquecida. A energia solidária crescia e cresce ao vai e vem das ondas que nos levam e nos trazem, argentinos que vêm e vão, uruguaios que vamos e voltamos. E, no tempo das ditaduras, soubemos compartilhar a comida e soubemos nos defender juntos, e ninguém se sente herói nem mártir por dar abrigo aos perseguidos que cruzavam o rio, indo para lá ou vindo de lá. A solidariedade era, e continua sendo, um assunto de senso comum e, portanto, era, e continua sendo, a coisa mais natural do mundo. Talvez por isso, sua energia, a sempre viva, foi mais viva que nunca nos anos de terror, alimentada pelas proibições que queriam matá-la. Como o bom touro do duelo, a solidariedade cresce no castigo.

E quero dar um testemunho pessoal de meu exílio na Argentina.

Quero render homenagem a uma aventura chamada “Crisis”, uma revista cultural, que alguns escritores e artistas fundamos com o generoso apoio de Federico Vogelius, onde pude dar algo do muito que me ensinara Carlos Quijano em meus tempos do semanário “Marcha”.

A revista “Crisis” tinha um nome bem deprimente, mas era uma jubilosa celebração da cultura vivida como comunhão coletiva, uma festa do vínculo humano encarnado na palavra compartilhada. Queríamos compartilhar a palavra, como se fosse pão.

Os sobreviventes daquela experiência criadora, que morreu afogada pela ditadura militar, continuamos a acreditar no que então acreditávamos. Acreditávamos, acreditamos, que para não ser mudo é preciso começar por não ser mudo, e que o ponto de partida de uma cultura solidária está nas bocas dos que fazem cultura sem saber que a fazem, anônimos conquistadores dos sóis que as noites escondem, e eles, e elas, são também os que fazem história sem saber que a fazem. Porque a cultura, quando é verdadeira, cresce do pé, como alguma vez cantou Alfredo Zitarrosa, e a partir do pé cresce a história. Só o que se faz a partir de cima é o poço.

A ditadura militar acabou com a revista e exterminou muitas outras expressões de fecundidade social. Os fabricantes de poços castigaram o imperdoável pecado do vínculo, a solidariedade cometida em suas múltiplas formas possíveis, e a máquina do desvínculo continuou trabalhando a serviço de uma tradição colonial, imposta pelos impérios que nos dividiram para reinar e que nos obrigam a aceitar a solidão como destino.

À primeira vista, o mundo parece uma multidão de solidões amontoadas, todos contra todos, salve-se quem puder. Mas o senso comum, o senso comunitário, é um bichinho duro de matar. Ainda há quem espera a esperança, alentada pelas vozes que ressoam de nossa origem comum e de nossos assombrosos espaços de encontro.

Não conheço alegria maior do que a de nos reconhecermos nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também reconhecer-me em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos.

Os mapas da alma não têm fronteiras. IPS/Envolverde

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina, Memórias do Fogo e Espelhos: Uma História Quase Universal.

(Envolverde/IPS)

domingo, 12 de julho de 2009

A morte dos rios não traz desenvolvimento.



Artigo de Ruben Siqueira
EcoDebate, 11/07/2009

[EcoDebate] A civilização nasceu entre os rios Tigre, Eufrates e Nilo, o chamado “Crescente Fértil”. Mais tarde Roma desenvolveu-se à beira do Tibre e de seu império fez-se a “civilização ocidental cristã”. Esta, hoje, na sua mais grave crise, devia se ver refletida nos rios que poluiu…

No Brasil os rios foram os caminhos para a interiorização desta civilização trazida pelos portugueses. As “entradas e bandeiras” paulistas seguiram o rio Tietê. Pelo São Francisco entraram os senhores de terra, postando currais de gado e famílias de escravos – nascia a “civilização do couro” às margens do “rio dos currais”. Antes, os povos originários de Pindorama procuravam os cursos d’água e deles faziam os eixos de suas culturas. Acabaram ensinando o português a tomar banho…

Mas não apenas da civilização humana as águas são a fonte e o sustento, também da incomensurável biodiversidade. Todo mundo já aprendeu, ou deveria, que sem água não há vida.

Hoje, porém, no campo e nas cidades, os rios estão moribundos. De cada dez rios brasileiros sete estão poluídos. Todos os rios que cortam cidades, das megalópolis aos vilarejos, viraram esgotos, latrina, lixeira. Preservar as águas não é da lógica que rege o desenvolvimento. Hoje nos damos conta do grave problema que são a corrosão dos recursos naturais e o lixo excessivo que nosso estilo de vida produz. As águas são as primeiras a sinalizar o início do fim…

Da combinação de terra, água, luz solar e zelo feminino, nasceu a agricultura, há 12 mil anos. De lá para cá, a tecnologia evoluiu não só no controle dos fatores de produção agrícola, como até ao ponto de prescindir destes fatores. No vale do São Francisco, há fazendas em que o solo não é mais que sustentáculo da planta, toda a nutrição é artificial, feita por microgotejamento eletrônico. O “agricultor” está sentado ao computador numa sala climatizada, teclando as quantidades de fertilizantes que vão pela água bombeada do rio… Os gases liberados pelos fertilizantes químicos são dos piores de origem agropecuária, que respondem por 25% dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

Calcula-se que nas fazendas de irrigação de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), no São Francisco, sejam despejadas três toneladas de agrotóxicos diariamente. O rio é o destino da maior parte deste veneno. O Brasil tornou-se em 2008 o maior consumidor de agrotóxicos no mundo, perto de 400 mil toneladas, um negócio que mobilizou US$ 7 bilhões. Falta pouco para um quarto do que consome o mundo: 2 milhões de toneladas.

O modelo da moderna agricultura, também chamada “Revolução Verde”, se impôs para “desenvolver” as áreas rurais. A concentração da terra e da água, das sementes e dos investimentos públicos em grandes empresas agropecuárias aumentou a produção, mas de commodities (soja, carne, suco de laranja e, logo, etanol) para exportação e especulação no mercado de capitais. Cai o consumo de arroz e feijão, o que significa má alimentação e fome. As cidades violentas e inseguras, não param de inchar. O campo restou esvaziado para domínio do agronegócio globalizado, miséria camponesa e degradação ambiental.

Apesar dos sinais mais que evidentes de que por esse caminho não há futuro, vive-se hoje no Brasil franca expansão do agronegócio hidrointensivo, na onda dos agrocombustíveis, falsa solução para o aquecimento global. Intensifica-se a irrigação, que já consome 70% das águas disponíveis do planeta, inclusive no Brasil.

A transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional é exemplo cabal. A sede humana é só justificativa marqueteira. O verdadeiro interesse é expandir o modelo falido. A irrigação no Nordeste não funcionou como indutora do desenvolvimento, é duvidosa economicamente e um desastre social e ambiental.

Ao par da irrigação e dos esgotos, as barragens e hidrelétricas condenaram nossos rios. E não param de aumentar, sem que não se discutam os custos, nem para que e para quem tanta energia.

Se é verdade que “um rio é como um espelho que reflete os valores de uma sociedade”, a nossa não vale o que bebe e come…

Esgotado o “desenvolvimento”, precisamos recuperar o “envolvimento”. Aí, só a agroecologia pode nos salvar, salvando a terra, os rios, a agrobiodiversidade, os territórios, as tradições culturais, a soberania alimentar. Nisto os povos originários, sobreviventes à colonização, têm muito a nos ensinar.

A gestão territorial e participativa das águas através dos comitês de bacias poderá até contribuir para piorar o quadro, se for subserviente aos interesses expansionistas do capital. A luta maior é pela revitalização integral. Por isso bradamos “São Francisco vivo, terra e água, rio e povo”.

Ruben Siqueira, Sociólogo, agente da CPT na Bacia do Rio São Francisco, colaborador e articulista do EcoDebate.

sábado, 4 de julho de 2009

Sobre o tempo, ou a falta dele

Por Roberto Patrus-Pena*

Primeira parte

O anúncio chegou via e-mail:

"Compro tempo.

Sou um sujeito muito ocupado e tenho andado numa correria danada. Minha solução é comprar tempo. Homens do marketing: quero produtos e serviços que atendam a minha necessidade de ter mais tempo. E quero pagar por isso.

Quero tempo para cuidar do lar, tecer eu mesmo a seda do meu casulo. Deixá-lo gostoso e aconchegante, com a adega e a despensa preparadas para receber os amigos. Quero tempo para ir à praça com meu filho, andar de bicicleta por aí, passear com os passos lentos e largos, comendo pipoca, sem aquela pressa dos dias de rush. Quero tempo para rever meus amigos, telefonar nos dias de aniversário, visitá-los para bater papo, tomar café com bolo e colocar os papos em dia. Do tempo que eu conseguir comprar, vou usar um pouco para ficar à toa, olhando o tempo passar.

Quero tempo para ficar na cama depois de acordar, espreguiçar lentamente, alongar cada parte do meu corpo preparando-me para mais um dia na vida. Não quero mais o suplício de uma viagem noturna de ônibus para ganhar um dia de férias. Viajar de carro pode não ser perder um dia com a viagem. Quero justamente ter o tempo para gastar com a própria viagem. Em cada curva da estrada, explicar para meus filhos a geografia da região, as plantações, o relevo, a indústria... Preciso parar com esta mania de chegar sempre. O segredo está no caminho. Preciso aprender a “ser o último a sair do avião” como ensinou Gilberto Gil.

O que quero não é muito. Quero tempo para trabalhar melhor, devotar-me a quem amo e ter momentos de lazer e diversão. Eu sei que vocês, homens do Marketing, têm se esforçado em resolver o meu problema. Eu uso celular, o meu banco é eletrônico, tenho controle remoto de TV, vídeo, som, portão eletrônico, fax, scanner, e tudo o mais quanto a tecnologia possa me oferecer. Mas não adianta. Preciso de mais tempo".

Segunda parte

A resposta ao email foi a seguinte:

"Meu amigo, você sofre de estresse, a doença do tempo. Não procure a solução fora de você, porque o tempo é uma categoria interna. Kant o disse na Filosofia, Einstein o constatou na física. Sêneca escreveu que "não é dos lugares o mal de que sofremos, mas de nós".

Seu problema está na sua filosofia de vida. Tempo é questão de preferência. A vida exige a eleição de prioridades, e a falta de tempo demonstra a sua dificuldade de escolher. Escolher é renunciar, por isso, o exercício da liberdade não se faz sem alguma angústia. Repito: tempo é questão de prioridade.

Entendi o seu problema, mas não procure os homens do Marketing. A solução está dentro de você. Não procure ganhar tempo. Desfrute-o. Não tente comprar tempo. Doe-o a seus projetos prioritários, a si mesmo, e àqueles com quem você vive e trabalha. Do contrário, você não terá tempo nunca. Nem saúde”.

* Roberto Patrus-Pena é filósofo, psicólogo, professor, psicoterapeuta, mestre em Administração, Doutor em Filosofia. Tem 42 anos, é professor da PUC Minas há 20 anos e espera, daqui a dois anos, ter dedicado a metade da sua vida a essa instituição. Mora em Belo Horizonte (MG), almoça todos os dias com a família e sabe o valor do seu tempo. Email: robertopatrus@pucminas.br

(Envolverde/Revista Plurale)

quinta-feira, 25 de junho de 2009


O Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema), articulação que reúne instituições ambientalistas, sindicatos e movimentos sociais da cidade e do campo, viemos manifestar nossa posição sobre o tema em debate.

Consideramos que o atual Código Florestal representa a tutela MÍNIMA do Estado brasileiro sobre Meio Ambiente. Portanto, É INEGOCIÁVEL e deve ser mantido. As APP e a Reserva Legal são categorias fundamentais do Código que não podem permitir flexibilizações e debates instantâneos.

Deveríamos isto sim, garantir o seu devido cumprimento. Uma fiscalização eficaz e a aplicação das devidas sanções. Contudo, afirmamos nosso apoio às medidas legais de diferenciação entre pequenos e grandes, a fim de garantir a viabilidade da produção agrícola camponesa, agroecológica e familiar e dos pequenos agricultores. São estes que fortalecem a preservação e a conservação dos ecossistemas e da biodiversidade brasileira.

Manifestamos total repúdio à utilização de interesses dos pequenos produtores como fachada para promover medidas com o único objetivo de ampliar as atividades voltadas aos interesses do agronegócio.

Este, sem dúvida alguma, o principal vetor do desmatamento, da expansão das monoculturas e de toda a cadeia social e ambiental destrutiva que este setor promove.

Rejeitamos o discurso produtivista e predador da agroexportação em sua lógica tacanha e violência estrutural.

As alterações climáticas e o colapso ecológico que já estamos vivenciando hoje são provocadas e agravadas pelo modelo agrícola petro-dependente, que produz mercadorias tóxicas e não alimentos.

A fragilidade e o grau de exploração da agricultura familiar integrada às cadeias do agronegócio denunciam a urgência de políticas públicas, que assegurem a transição agroecológica e a viabilidade econômica destas famílias.

O direito coletivo ao meio ambiente é garantido pela Constituição, sendo fundamentalmente uma norma federal e como tal deve ser mantido. No caso do Rio Grande, o pouco que se vê de cumprimento da legislação depende exclusivamente do regramento federal.

Por aqui, assistimos hoje uma situação absolutamente inaceitável e sem precedentes na história política gaúcha. Interesses privado se sobrepondo ao que é de direito público.

O conflito de interesses é gritante: o secretário estadual do Meio Ambiente, Sr. BERFRAN ROSADO, eleito deputado estadual liderou a auto-proclamada “Frente Parlamentar Pró-florestamento”, conhecida como Bancada da Celulose.
Existem pródigos e documentados exemplos das manobras que sob sua condução, para garantir interesses do eucaliptal, promoveu a desarticulação dos processos de licenciamento nos órgãos ambientais.

A situação no Rio Grande também piora (e muito), quando o sr. Secretário do Meio Ambiente acumula a presidência do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA), onde, também a disparidade das vagas entre as organizações da sociedade civil e as entidades ligadas a produção e à industria, resulta na crônica prevalência dos interesses corporativos e poluidores sob um manto de ‘instância participativa’.

É notório em todo o país, que no Executivo gaúcho hoje, a corrupção é estrutural. Também propulsora da devastação ambiental. As irregularidades em processos de licenciamento para obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), dão o tom da degradação; tráfico de influência e suspeita de favorecimento, desvio de recursos públicos em obras de saneamento, barragens e projetos de irrigação, que vão afetar drasticamente a vida das populações, suas culturas e biodiversidade.

O desmonte da legislação ambiental em curso manifesto na proposta de mudança do Código Florestal vai ampliar o desmatamento, justamente quando a preservação da biodiversidade é fundamental para combater as mudanças climáticas que afetam o conjunto da sociedade.

Entendemos a ofensiva sobre o Código Florestal como parte da reorganização do marco legal ambiental, para atender a expansão territorial do agronegócio, especialmente da nova frente da agroenergia e dos agrocombustíveis.

Rejeitamos condicionar a preservação ambiental aos mecanismos de mercado e à lógica mercantil, assim como denunciamos a criação de novos mercados de água, da biodiversidade e do carbono.

São as relações de poder e os regimes de apropriação, uso e acesso dos recursos naturais que estão na base de todas as economias e todas as sociedades, desde sempre.

O modelo implantado no campo está na raiz de um sistema político que condiciona toda a sociedade. A violência do modelo dos agronegócios se manifesta diariamente: na expulsão dos camponeses, nos conflitos do campo, na compra de terras por estrangeiros, na apropriação dos recursos naturais, na concentração de terras, na desertificação, na contaminação por agrotóxicos e transgênicos, na destruição da biodiversidade, no êxodo rural e no crescimento dos cinturões de miséria ao redor dos centros urbanos, no desemprego e precarização do trabalho, na fome e na desnutrição, nas doenças e mortes por causas evitáveis, na perda de nossos patrimônios alimentares e na colonização da nossa cultura.

Nosso papel como Movimento Social está na ecologização da política e na politização da ecologia.

Porto Alegre, 25 de Junho de 2009
Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Audiência Pública sobre o Código Florestal com Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc

Galera...(é o PACHECO quem fala...)
O Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente – MoGDeMA – convoca em regime de máxima urgência para participar da:

Audiência Pública sobre o Código Florestal
com Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc

Dia 25 de Junho, às 14:00 horas
Auditório Dante - Assembléia Legislativa – RS
(chegar com antecedência)

O futuro de toda política ambiental brasileira depende desta legislação. Venha participar deste debate – precisamos ocupar o plenário!
Há uma ofensiva do agronegócio e das monoculturas para alterar drasticamente o conteúdo do código, reduzindo as obrigações dos proprietários. Isto é um absurdo, pois as exigências mínimas que estão em vigor não são cumpridas. Reduzir a Reserva Legal e autorizar a expansão de monocultivos exóticos (eucalipto) será o golpe de morte ao que ainda resta dos nossos ecossistemas.
Participe e traga sua indignação.
Carta de Princípios http://mogdema.blogspot.com/ .
Agradecemos desde já e contamos com sua participação

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Entrevista com o permaculturista Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição)

O mundo em transição – O movimento inglês Transition Towns, criado e disseminado pelo inglês Rob Hopkins, transforma cidades em modelos sustentáveis e independentes de crises externas

Imagine cidades inteiras sustentáveis, baseadas no comércio local, independentes do petróleo e de importações de alimentos. Pois elas já existem graças à visão e ação de Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição). Assustado com a dependência exterior do Reino Unido em combustível e alimentação e sabendo que esse cenário de mudança climática e escassez de petróleo só irá piorar nos próximos anos, Rob decidiu que apenas suas ações individuais como permaculturista não iriam bastar. Matéria de Thais Oliveira / Edição de Mônica Nunes, no Planeta Sustentável.

Com a sua vasta experiência em ecovilas e como professor de universidade, construiu um plano de mudança com o objetivo de alcançar a resiliência que, neste caso, significava a capacidade de sobreviver a choques externos como a escassez do petróleo, crises na produção de alimentos, falta de água e energia. Incluiu, nesse plano, todos os setores da sociedade – governo, setor privado e cidadãos – e todos os aspectos da vida cotidiana – saúde, educação, transporte, economia, agricultura e energia.

Sua primeira vitória foi em 2005, em Kinsale, na Irlanda, onde ensinava na universidade local, com a histórica decisão que levou o município todo a adotar o movimento como seu plano de gestão. Hopkins mudou-se então para Totnes, na Inglaterra, e transformou-a em vitrine do movimento. Devagar, a cidade de 8 mil mil habitantes pretende chegar em 2030 totalmente transformada e independente. Hoje já são mais de 110 cidades, bairros e até ilhas em 14 países do mundo convertidas na Transição.

O conceito é simples – apesar de trabalhoso – e flexível. Segundo Hopkins, cada comunidade adapta os doze passos iniciais do movimento à sua realidade e capacidade. Esses itens são apenas guias de como começar a quebrar a nossa dependência do petróleo, revendo os modelos de economia, comida, habitação e energia. Assim, essas cidades funcionam tanto no Japão quanto nos Estados Unidos ou no Chile. A idéia é parar de depender – ou depender minimamente – da tecnologia e voltar ao tempo onde não precisávamos de geladeiras, carros, tratores e aviões. Técnicas e conhecimentos dos nossos avós e ancestrais são valorizados e resgatados.

Uma das frentes do movimento reeduca a população e estudantes em aptidões como costura, gastronomia, agricultura familiar, pequenos concertos e artes manuais como marcenaria. Iniciativas incluem a criação de jardins comunitários para plantio de comida, troca de resíduo entre indústrias ou simplesmente o reparo de itens velhos, ao invés de jogá-los no lixo. O investimento em transporte público e a troca do carro pela bicicleta é inevitável para a redução das emissões de carbono. Em Totnes até uma nova moeda – a libra de Totnes – foi criada para incentivar e facilitar transações com produtores locais.

Diferente dos fatalistas que prevêem o fim do mundo em 2012 ou quadros horríveis de fome, seca e morte, os adeptos do Transition Towns têm uma visão realista, mas positiva, do futuro. Acreditam na ação transformadora de comunidades e no trabalho pesado para mudar as estatísticas. Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Rob Hopkins fala sobre a origem permaculturista do movimento e de seu futuro.

Como surgiu a idéia do Transition Towns?

Toda a idéia do movimento surgiu através do meu trabalho como permacultor e professor de permacultura nos últimos dez anos. Quando comecei a me aprofundar sobre a crise de combustível e mudança climática, as ferramentas de resposta sobre o assunto eram as de permacultura. Mas o que eu percebi é que, apesar de a permacultura ser o sistema de design ideal para isso, o movimento é ainda muito pouco conhecido e tem quase uma aversão embutida ao mainstream. Por isso, o que quis fazer através do Transition foi criar um modelo em que a permacultura fosse implícita ao invés de explícita, que ela estivesse escondida dentro do processo para que as pessoas a descobrissem se assim a desejassem.

Como você definiria o movimento?

Ele ainda está numa fase inicial de implementação, ainda é muito novo, mas é muito simples. É um modelo de doze passos que leva ao processo de quebra da dependência de combustível. E, assim, abrange tudo: comida, economia, moradia e por aí vai. É aplicar os princípios de permacultura para esse objetivo de independência, mas com a esperança de abranger muito mais pessoas, em todos os setores, não somente os que originalmente se interessariam pelo assunto. O movimento quer ser positivo e focado, mas também muito inclusivo. Ele tenta apelar para todos igualmente. E acho que aí está a chave de seu sucesso.

Você conseguiu um fato inédito de incluir governo, comércio, todos os setores nos planos das cidades. Como isso foi feito?

Com muito trabalho de persuasão e organização. É muito difícil, mas precisava acontecer. A permacultura precisava avançar muitos passos e rapidamente porque segura peças importantes do quebra-cabeças que vão ser os próximos dez anos. Não temos muito tempo a perder.

Já são mais de 110 comunidades engajadas no movimento, mas apenas uma na América Latina: no Chile. Você acha mais difícil os países em desenvolvimento se engajarem?

No Brasil, existem algumas pessoas interessadas no movimento, mas esse interesse ainda está no nível do contato e não da participação ativa. Acho que os desafios são diferentes porque o que focamos é a idéia de ser resiliente, ou seja, a necessidade de reconstruir o modelo de sociedade. Aqui no Reino Unido, por exemplo, nós desmontamos tudo e acabamos com a possibilidade de nos mantermos de forma independente. Nós nos tornamos dependentes do comércio internacional e compramos o que queremos pelo menor preço possível de outros países. Com isso, nos isolamos e nos colocamos no lugar mais perigoso que existe.

Nos países em desenvolvimento ainda há mais independência, mas isso começa a ser desvalorizado, a se perder e a ser destruído. Acho que, nesse caso, a primeira coisa a fazer é colocar o valor de volta na produção de alimentos e nos conhecimentos tradicionais, porque, quando perdemos o valor nessas áreas, é muito difícil recuperar. Mas o movimento se traduz para todos os tipos de sociedade e casos. Não é rigoroso, é apenas um conjunto de princípios que pode ser adaptado a cada realidade, a cada cultura e contexto. É mais um convite do que um modelo rápido e duro.

Quais são os novos desafios do Transition Towns?

Estamos desenvolvendo um modelo de treinamento, um curso de dois dias em que as pessoas aprendem tudo o que precisam para começar a transformar suas comunidades. Esse treinamento é uma organização que está formando grupos de treinadores em todo o Reino Unido e começa a atuar, também, nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia. Também estamos começando a dar consultoria para empresas em como elas podem ser mais independentes de combustível e mais sustentáveis. Trabalhamos também com o governo local para encontrar soluções. Assim, enfrentamos todas as frentes: sociedade, comércio e governo. Além disso, o “The Transition Handbook – from oil dependency to local resilience” (Ed. Green Books) está sendo traduzido em várias línguas e pode ser comprado através do nosso site.

* Matéria do sítio Planeta Sustentável, enviada por Edinilson Takara, leitor e colaborador do EcoDebate. www.ecodebate.com.br

domingo, 14 de junho de 2009

A cura para as demissões: demitam o patrão!

Modelo argentino de controle de fábricas pelos trabalhadores ganha força pelo mundo

Naomi Klein e Avi Lewis

Em 2004, fizemos um documentário chamado “The Take” sobre o movimento argentino de empresas dirigidas pelos trabalhadores. Depois do dramático colapso econômico do país em 2001, milhares de trabalhadores ocuparam suas fábricas fechadas e voltaram a produzir por meio de cooperativas. Abandonados por chefes e políticos, recuperaram salários e indenizações não pagas, ao mesmo tempo em que recuperavam seus postos de trabalho.

Quando viajamos pela Europa e América do Norte com o filme, cada sessão de perguntas e respostas terminava com o questionamento: “Tudo isso está indo muito bem na Argentina, mas poderia chegar a ter êxito aqui?”

Bem, agora que a economia mundial se assemelha em muito com a da Argentina em 2001 (e por muitas das mesmas razões) há uma nova onda de ação direta entre os trabalhadores dos países ricos. As cooperativas voltam a emergir como uma alternativa prática contra mais demissões. Trabalhadores nos EUA e na Europa começam a formular as mesmas perguntas que seus homólogos latino-americanos: por que tivemos que ser despedidos?, por que não podemos despedir nossos chefes?, por que se permite que um banco dirija nossa empresa enquanto recebem bilhões de dólares do nosso dinheiro?

No dia 15 de maio, na Cooper Union na Ciudad de Nueva York, participamos de um painel acerca deste fenômeno chamado “Demita seu chefe: a solução de controle pelos trabalhadores de Buenos Aires a Chicago.”

O encontro contou com a presença de representantes do movimento na Argentina, assim como de trabalhadores da famosa luta de "Republic Windows and Doors" em Chicago.

Foi uma boa maneira de escutar diretamente aqueles que tratam de reconstruir a economia desde a base e que necessitam de um apoio significativo do público, assim como dos responsáveis políticos e todos os níveis do governo. Para os que não puderam ir a Cooper Union, segue um breve resumo dos recentes acontecimentos no mundo das fábricas controladas por trabalhadores.

Argentina:

Na Argentina, inspiração direta para muitas ações dos trabalhadores, tem havido mais formas de tomada de fábrica nos últimos 4 meses do que nos últimos 4 anos.

Um exemplo:

A Arrufat, fabricante de chocolates com uma história de 50 anos, foi bruscamente fechada no final de 2008. Trinta empregados ocuparam a planta e, apesar da imensa dívida com o poder público deixada pelos antigos proprietários, estão produzindo chocolates a luz do dia, utilizando geradores.

Com um empréstimo de menos de 5 mil dólares do The Working World, uma ONG de fundo financeiro iniciada por um admirador do "The Take", puderam produzir 17 mil ovos de Páscoa para o maior feriado do ano. Obtiveram um lucro de 75 mil dólares, cada um levou 1 mil dólares para casa e destinaram o restante para a produção futura.

Reino Unido:

A Visteon é uma fabricante de autopeças que foi descartada pela Ford no ano 2000. Centenas de trabalhadores receberam um aviso-prévio de 6 minutos. Duzentos trabalhadores em Belfast sentaram-se sobre o teto de sua fábrica, outros duzentos seguiram este exemplo no dia seguinte.

Durante as seguintes semanas, a Visteon aumentou seu pacote de indenização em até 10 vezes mais que sua oferta inicial, mas a companhia se nega a colocar este dinheiro nas contas bancárias dos trabalhadores até que estes abandonem as plantas da fábrica, e eles, por sua vez, se negam a sair até que recebam o valor.

Irlanda:

Uma fábrica na qual os trabalhadores produzem o lendário cristal de Waterford, foi ocupada durante sete semanas no início deste ano quando a matriz Waterford Wedgewood declarou falência depois de ser adquirida por uma empresa privada de investimentos dos EUA.

A companhia estadunidense tem colocado até agora 10 milhões de euros em um fundo de indenização e realiza negociações para conservar alguns dos postos de trabalho.

Canadá:

Com o colapso das três grandes da indústria automotiva estadunidense, tem havido, até agora, quatro ocupações de plantas pela Canadian Auto Workers durante este ano. Em cada caso, as fábricas estavam fechando e os trabalhadores não recebiam a compensação que tinham direito. Ocuparam as fábricas para impedir que as máquinas fossem retiradas e o fizeram como meio de pressão para obrigar que as companhias voltassem à mesa de negociações – precisamente na mesma dinâmica adotada pelos trabalhadores argentinos.

França:

Na França, está acontecendo uma nova onda de "sequestro de chefes" durante este ano, nos quais os empregados enfurecidos detêm seus chefes em fábricas que seriam fechadas. As companhias em questão até agora incluem a Caterpillar, 3M, Sony e Hewlett Packard.

Levaram um prato de mexilhões e batatas fritas ao executivo da 3M, durante sua dura experiência de uma noite.

Uma comédia de êxito na França durante esta primavera foi um filme chamado "Louise-Michel," na qual um grupo de trabalhadoras contrata um assassino para que mate o seu chefe depois de este ter fechado sua fábrica sem aviso-prévio.

Um dirigente sindical francês disse em março: “os que semeiam a miséria colhem violência. A violência é cometida por aqueles que fecham postos de trabalho, não pelos que os defendem”.

Em maio, mil trabalhadores da siderurgia interromperam a reunião anual de acionistas da ArcelorMittal, a maior companhia siderúrgica do mundo. Ocuparam a central da companhia em Luxemburgo, romperam portas, quebraram janelas e enfrentaram a polícia.

Polônia:

Também em maio, no sul da Polônia, no maior produtor avícola da Europa, milhares de trabalhadores bloquearam a entrada do QG da companhia em protesto contra os cortes de salários.

EUA:

E, em seguida, há a famosa história da Republic Windows and Doors: 260 trabalhadores ocuparam sua planta durante seis dias que estremeceram o mundo em Chicago, em dezembro passado. Com uma habilidosa campanha contra o maior credor da empresa, o Bank of America ("vocês foram resgatados e nós fomos vendidos!"), e uma massiva solidariedade internacional, obtiveram as indenizações que lhes deviam. E, além disso – a planta reabriu sob nova direção, produzindo janelas de energia solar e todos os trabalhadores foram reintegrados aos seus antigos postos, com os mesmos salários.

Recentemente, Chicago se converteu numa tendência. Hartmarx é uma companhia de 122 anos que produz trajes de executivos, incluindo o azul marinho que Barack Obama usou na noite da eleição e o smoking e sobretudo que usou em sua posse.

A empresa está em bancarrota. Seu maior credor é o Wells Fargo, que recebeu uma ajuda de 25 bilhões de fundos públicos. Ainda que haja duas ofertas para comprar a companhia e mantê-a em operação, a Wells Fargo quer liquidá-la. Em maio, 650 trabalhadores votaram pela ocupação da fábrica em Chicago se o banco seguir em frente com a liquidação.


Naomi Klein é jornalista, escritora e ativista canadense e Avi Lewis é documentarista canadense.
Matéria extraída da página www.brasildefato.com.br

sábado, 13 de junho de 2009

Nota de apoio e solidariedade à luta dos povos indígenas da Amazônia Peruana*

A COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e as entidades da Campanha "Povos Indígenas na Amazônia: Presente e Futuro da Humanidade" acompanham com extrema preocupação o conflito desencadeado pela violenta repressão governamental contra a mobilização indígena na Amazônia peruana e repudiam veementemente as atrocidades cometidas. Os assassinatos podem passar de 100, entre eles 30 indígenas do povo Awajun.

As reivindicações para um desenvolvimento que respeite a vida humana e atendem a necessidade de uma relação diferenciada com o ambiente integram hoje a pauta dos organismos internacionais quanto à preservação e o futuro do nosso planeta. Motivo pelo qual manifestamos nosso integral apoio a esses povos por tratar-se de uma luta justa e legítima contra o Tratado de Livre Comércio, TLC entre Peru e EUA e os decretos que viabilizam sua implantação, entregando a exploração das riquezas naturais da Amazônia, inclusive nas terras indígenas, a empresas multinacionais.

Acordos bilaterais semelhantes foram firmados com outros países da América do Sul sob protestos das populações tradicionais e fortemente rechaçados em outros, onde os interesses de companhias, sobretudo norte americanas, tentaram se instalar.
A luta contra esses acordos é de todos os povos da Amazônia. Se for consentida a exploração dos recursos naturais na selva peruana no modo como vem sendo imposto, certamente nós também, do lado brasileiro, sofreremos as conseqüências do desmatamento, da poluição e da destruição das nascentes dos cursos d´água e rios que formam a bacia amazônica, além das conseqüências inevitáveis para as mudanças climáticas atualmente debatidas por todos os segmentos preocupados com o futuro do planeta.

Denunciamos o desenvolvimento terrorista que destrói e mata e condenamos todo e qualquer acordo bilateral ou multilateral que não respeite o direito dos povos indígenas de opinar sobre seus territórios e direitos, tal como previsto pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), nem aqueles nocivos à soberania de nossos países e potencialmente destruidores dos recursos naturais existentes.

Somamo-nos a todas as organizações indígenas, parceiros do movimento indígena e entidades da sociedade civil que exigem do governo peruano a correta investigação, a apuração dos fatos e a condenação dos culpados pelas ações que resultaram em tantos mortos, feridos e desaparecidos, cuja divulgação oficial não reflete o número real tendo por base as denúncias dos familiares das vítimas dessa violência.

Conclamamos todos a somarem com a luta dos povos indígenas pelo resgate do sentido fundamental da vida (bem viver de todos os seres) para o projeto de futuro da humanidade e do planeta.

Manaus, 10 de junho de 2009.

Coiab - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
Cimi - Conselho Indigenista Missionário
Secoya - Serviço de Cooperação com o povo Yanomami.
Sares - Serviço de Ação e Reflexão Social
Dep. Antropologia/Programa de Pós Graduação em Antropologia Social/Museu Amazônico da UFAM.
Equipe Itinerante
Central Única dos Trabalhadores - CUT/AM

Matéria retirada do site www.adital.com.br

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O Consumismo

Hobsbawm: a Era das Incertezas

MST *

Adital -

Por Verena Glass

Em entrevista exclusiva à Revista Sem Terra, o historiador Eric Hobsbawm apresenta ao leitor sua avaliação das origens, efeitos e desdobramentos da crise mundial.
Desde que sua magnitude se fez sentir, com seus capítulos ambiental, climático, energético, alimentar e, por fim, econômico, acadêmicos, sociólogos, economistas, políticos e lideranças sociais procuram entender e explicar suas causas, e analisar e prever suas conseqüências. Muitos têm buscado respostas e soluções apenas no próprio universo econômico.

Outros concluíram que vivemos uma crise civilizatória, e que o capitalismo implodiu por seus próprios desmandos. Mas ninguém parece ter respostas definitivas sobre o que nos prepara o futuro. Assim também Hobsbawm, o maior historiador marxista da atualidade.

Aos 92 anos, o autor de algumas das mais importantes obras acerca da história recente da humanidade, como "A Era das Revoluções" (sobre o período de 1789 a 1848), "A Era do Capital" (1848-1875), "A Era dos Impérios" (1875-1914) e "A Era dos Extremos - O Breve Século 20", lançado em 1994, não arrisca previsões sobre como será o mundo pós-crise.

Nesta entrevista, concedida por e-mail de Paris, porém, Hobsbawm apresenta suas opiniões como contribuição ao debate. De certezas, apenas a de que, se a humanidade não mudar os rumos da sua convivência mútua e com o planeta, o futuro nos preserva maus agouros. Cético e ao mesmo tempo esperançoso, não acredita que uma nova ordem mundial surgirá das cinzas do pós-crise, mas acha que ainda existem forças capazes de propor novas formas de organização e cultura políticas e sociais, como o MST.

Revista Sem Terra - O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes "feitos" da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?

Eric Hobsbawm - Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros.

No setor financeiro, isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali. Apesar do fato de que o capitalismo sempre - e por natureza - opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários "subprime" nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

RST - Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?

EH - Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a "desfinanceirização" do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.

RST - Antes de se agudizar o caos econômico, o mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças climáticas, a crise energética, as crises humanitárias decorrentes das guerras, entre outros. Como você avalia estes fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de desenvolvimento do capitalismo moderno?

EH - Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença - imposta não apenas pelos capitalistas - em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto significa que a fórmula da organização econômica mundial não pode ser determinada pelo capitalismo de mercado que, repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.

RST - O capitalismo tem adquirido, cada vez mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento do agronegócio. Muitos defendem que a Reforma Agrária não cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via Campesina?

EH - A produção agrícola necessária para alimentar os seis bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por uma pequena fração da população mundial, se compararmos com o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um crescente domínio da agricultura por parte não tanto do grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos capitalistas que hoje controlam o mercado desta produção. Da mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e iniciativas empresariais na disputa pela terra para propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e pela exploração dos recursos naturais. A Reforma Agrária sem duvida não é mais tão importante para a política como foi há 40 anos, pelo menos Insustentável: crescimento econômico e da população colocam em risco o futuro da amizade na América Latina, mas claramente permanece uma questão central em muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade garantem a segurança social e a solidariedade que o capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos migrantes rurais desempregados.

RST - Na virada do século, um novo movimento global de resistência social tomou corpo através do que ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas iniciativas?

EH - O movimento global de resistência altermundialista merece o crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi pioneiro na criação de um modo de ação política global sem precedentes, que superou fronteiras nacionais nas manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo, logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo antes da implosão econômica. Seu programa propositivo, porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande número de componentes ideologicamente e emocionalmente diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões específicas.

RST - Principalmente na América Latina, os anos 2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região com a eleição de governadores mais progressistas. A sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais ainda esperam por uma maior concretização. Como analisa este fenômeno?

EH - O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição efetiva da influência política e ideológica - e, na América do Sul, também econômica - dos EUA. Um segundo fator muito importante é o surgimento de governos progressistas - novamente mais fortes na América do Sul - , inspirados pela grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões do mundo neste momento. Estes novos regimes têm se beneficiado de um período de altos preços de seus bens de exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela, ainda não está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias sociais genuínas, mas até agora não reduziram significativamente as enormes desigualdades econômicas e sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior prioridade de governos e movimentos progressistas.

RST - Diante da crise civilizatória, do fracasso do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais, que não foram aptos a enfrentar as grandes questões mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem despontar no horizonte. Haveria, em sua opinião, a possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de enfrentar a hegemonia bélica, econômica e política do neoliberalismo?

EH - Eu não acredito que exista uma oposição binária simples entre "um novo socialismo" e a "hegemonia do capitalismo". Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de aplicar um modelo único, o "fundamentalismo de mercado" global anglo-americano, é uma aberração histórica, que potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída. Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de identificar o socialismo unicamente com a economia centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e maoísta. Esta também já era (exceto talvez se nosso século for reviver os períodos temporários de guerra total do século 20).

Depois da atual crise, o capitalismo não vai desaparecer. Vai se ajustar a uma nova era de economias que combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o novo tipo de sistemas mistos tem que ir além das várias formas de "capitalismo de bem estar" que dominou as economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Deve ser uma economia que priorize a justiça social, uma vida digna para todos e a realização do que Amaratya Sen chama de potencialidades inerentes aos seres humanos. Deve estar organizada para realizar o que está além das habilidades do mercado dos caçadores-de-lucro, principalmente para confrontar o grande desafio da humanidade neste século 21: a crise ambiental global. Se este novo sistema se comprometer com os dois objetivos, poderá ser aceitável para os socialistas, independente do nome que lhe dermos.

O maior obstáculo no caminho não é a falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o fato de que a crise econômica global coincide com uma situação internacional muito perigosa, instável e incerta, que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns entre os Estados, cujas políticas são dominadas por interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os interesses globais.

RST - Conceitos como solidariedade, cooperação, tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental, responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável, entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade a uma coabitação harmoniosa?

EH - Os conceitos listados estão mais para slogans do que para programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações e agendas (como a redução de gases de efeito estufa, encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são subprodutos de situações sociais mais complexas (como "tolerância", que existe efetivamente apenas em sociedades que a aceitam ou que estão impedidas de manter a intolerância). Eu preferiria pensar na "cooperação" não apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a organização mútua, que eram um elemento tão importante no socialismo do século 19, desapareceram quase que completamente do horizonte socialista do século 20 - mas felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de conceitos continue conquistando o apoio e mobilize a opinião pública para pressionar efetivamente os governos. Não acredito que a humanidade alcançará um estado de "coabitação harmoniosa" num futuro próximo. Mas mesmo se nossos ideais atualmente são apenas utopias, é essencial que homens e mulheres lutem por elas.

RST - O senhor, que estudou com profundidade a história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos, o que espera do futuro?

EH - Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e industrializadas. Do ponto de vista econômico, o centro de gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito superior às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se terminará em termos sustentáveis para além de algumas décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Se tornou mais instável e perigoso, especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo equilíbrio internacional entre as potências - os EUA, China, a União Européia, Índia e Brasil - presumivelmente ocorrerá, o que poderá garantir um período de relativa estabilidade econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode ser prevista é a natureza social e política dos regimes que emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador.

* Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Brasil

Boicotemos as empresas que destroem o ambiente

Francesca Caferri *

Adital -

Nesta entrevista, a física e ativista ambiental indiana Vandana Shiva comenta a importância da defesa da Amazônia e da biodiversidade que a área concentra. E afirma que, nesse sentido, os índios têm muito a nos ensinar.
Eis a entrevista:

- Senhora Shiva, por que essa é uma questão global?
- A Amazônia não é só uma floresta. Não é só do Brasil. É, antes de tudo, o maior depósito de biodiversidade do mundo, a contribuição mais importante para a estabilidade climática e hidrogeológica que restou na terra. Por isso, é uma questão mundial. E posso dizer, por ter visto com os meus próprios olhos, que a destruição que está ocorrendo ali e a luta ímpar dos índios contra as empresas que querem madeira e matérias-primas e a quem não importa nada deles é uma questão global, e como tal deve ser tratada. Pelos governos em primeiro lugar.

- O que deveriam fazer?
- Deveriam, sobretudo, se esquecer da palavra lucro quando se fala sobre essa área do mundo. Os únicos investimentos na Amazônia deveriam ser dirigidos para se garantir a sua sobrevivência e proteção. Só isso deveria ser considerado um ganho, em termos de estabilidade. O que eu espero concretamente é a formação de uma aliança global entre os países em nome da conservação da Amazônia.

- O G8 que ocorrerá em algumas semanas na Itália tem a proteção do meio ambiente e as mudanças climáticas entre os pontos principais da sua agenda. A senhora acredita que o discurso sobre a Amazônia pode ser enfrentado ali?
- Francamente, não espero muito do G8. Espero muito mais do G20, a cúpula ampliada à qual tomam parte os países chamados emergentes e, nesse caso, o Brasil. É essa a sede para se estimular uma mudança. O que aconteceu desde setembro do ano passado até hoje - a crise dos mercados, o estouro da bolha dos empréstimos, a crise financeira global - deveria nos ensinar alguma coisa. Que o modelo de desenvolvimento cego, que destrói tudo ao seu redor, que aponta só ao lucro, não funciona. Não funciona mais. Porém, esse é o modelo de desenvolvimento que está destruindo a Amazônia. Para olhar para o futuro, devemos pensar em um modelo diferente, iluminado, eu o definiria. Onde a ideia de futuro e a de desenvolvimento convivam.

- Nesse modelo, que papel tem os consumidores finais? Como a senhora sabe, o Greenpeace os chama em causa diretamente, colocando no patíbulo marcas que estão entre as mais conhecidas do mundo…
- Os consumidores podem muito. A primeira coisa a fazer é estabelecer uma moratória internacional sobre qualquer bem que esteja ligado de qualquer modo à destruição da Amazônia. Isso cabe aos governos, mas depois os consumidores também devem ir a campo. Pensemos no que ocorreu com a gripe suína no México: tomados pelo pânico, os consumidores impuseram aos supermercados de todo o mundo que não vendessem mais carne que chegava do México. As exportações entraram em queda em poucos dias. Ou pensemos no movimento que se desenvolveu em muitos países da Europa contra os transgênicos: os protestos impuseram às cadeias de distribuição que fossem "OGM free", pelo menos em parte. Ora, o mesmo pode ser feito para a Amazônia: os consumidores podem fazer pressões sobre os negócios para que não vendam produtos que não seja "Amazon free", que venda só aqueles que respeitam a Amazônia, que não se derivam das suas matérias-primas. E depois deveriam pedir que consumissem só carne local: desse modo, as importações do Brasil entrariam em queda.- Tudo isso criaria um dano grave à economia do país: e não podemos esquecer que falamos de um Estado em que boa parte da população ainda vive na pobreza…- A maior parte dos cultivos e das criações na Amazônia é ilegal. Quem ganha com essa economia são os que comercializam de modo ilegal, não o país.

- Falemos das populações indígenas: como a senhora sabe, muitos defendem que a proximidade com a "civilização" é um bem para eles. Qual é a sua opinião?
- Eu não estou de acordo. Se olharmos para o futuro e para aquilo que nos ajuda a ir para frente, entenderemos que o elemento fundamental é uma relação balanceada com a terra. Um sistema de conhecimento e de vida que não seja baseado na exploração, mas na harmonia. Nessa matéria, os índios têm muito a nos ensinar. Certamente não são primitivos. Primitivos me parecem ser antes aqueles que querem caçá-los.

[Entrevista publicada no jornal La Repubblica, 01-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Divulgada pelo IHU-Unisinos]

"Se o campo e a cidade se unir a burguesia não vai resistir"

sábado, 23 de maio de 2009

Indiana prega uma drástica redução dos combustíveis fósseis, o fim das monoculturas e dos transgênicos

O texto abaixo foi uma sugestão para o Blog do querido amigo e companheiro da nossa luta, Antenor Pacheco. O Pacheco também integra o Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI e é um dos fundadores do MOGDEMA - Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente.

Na sequência do texto você pode assistir um vídeo com entrevista de Vandana Shiva.


Com uma visão radical, Vandana Shiva prega uma drástica redução dos combustíveis fósseis, privilegiando energias renováveis ou até animais, o fim das monoculturas e dos transgênicos para se voltar a uma agricultura biodiversificada, não intensiva e sem fertilizantes químicos. A famosa cientista indiana, que participa junto com Ralph Nader e Jeremy Rifkin do International Forum on Globalization, gostaria que cada comunidade local voltasse a ter sua autossuficiência alimentar, chegando quase a abolir o "food-miles", a viagem realizada pelos alimentos até o prato dos consumidores, que torna os agricultores dependentes das exportações e contribui para o aumento do gás carbônico.

"Há muitos especialistas que ainda me criticam, defendem que as minhas teorias são irreais e nos reportariam para a época pré-industrial", admite Shiva, que na quinta-feira esteve em Bolonha para uma palestra do ciclo "Regina pecunia", sob o título "A maldição dos pobres". "Porém, a emergência alimentar é tal que finalmente se deverá levar em consideração também as soluções mais criativas". O preço do trigo aumentou em 130% nos últimos dois anos; o do arroz duplicou. Em 2008, pela primeira vez há muito tempo, houve 33 revoltas populares no mundo por causa do aumento dos preços da produção de alimentos, e potências como a China iniciaram a compra de terrenos nos países do Terceiro Mundo para garantir o alimento às gerações futuras.

"A terra se tornou a área chave dos conflitos. É um recurso limitado, que não pode ser estendido. Os terrenos férteis estão desaparecendo em uma velocidade que a humanidade nunca conheceu antes". O livro que Vandana Shiva apresentará na Feira de Turim na próxima sexta-feira junto com o diretor Ermanno Olmi e o fundador do movimento Slow Food, Carlo Petrini, é uma acusação contra os "ecoimperialistas": multinacionais e governos que ignoraram "as regras de Gaia para obedecer à lógica do lucro".

A crise dos subprime e a recessão, diz, podem ser a oportunidade para reinventar as nossas economias. "Desenvolvemos uma economia financeira centenas de vezes superior aos valores dos bens e dos serviços reais produzidos no mundo. Nunca antes as ações de uma parte da humanidade ameaçaram a existência de toda a raça humana".
Apesar disso, Vandana Shiva é otimista. O fato de que haja agora uma horta biológica e um presidente que se professa "green" na Casa Blanca a tranquiliza. "Mas é preciso estar atentos às pseudossoluções, que são apenas paliativas". Contrária, por exemplo, aos biocombustíveis, "que roubam terras dos agricultores e não resolvem a crise climática", essa física indiana de 57 anos defende que é preciso "se libertar do ouro negro" e favorecer uma "transição do petróleo para a terra".

"O aumento de catástrofes naturais ou o risco de epidemias como a gripe suína – continua – demonstram que o homem não pode negligenciar, como fez por dois séculos, a relação com a Mãe Natureza. Esquecemo-nos de ser cidadãos da Terra, e a crise climática é uma consequência do nosso distanciamento de um estilo de vida ecológico, justo e sustentável".

Dura, peremptória, Vandana Shiva entrou muitas vezes em conflito com a comunidade científica e o governo indiano, como quando rejeitou a famosa "Revolução Verde" iniciada em 1966. Há 20 anos, teve uma outra ideia: conservar sementes de muitas plantas que corriam o risco de desaparecer "para criar um futuro diferente daquele previsto pela indústria biotecnológica". Ao longo da sua evolução, explica, a humanidade se nutriu de cerca de 80 mil plantas comestíveis. Mais de três mil foram consumidas de uma maneira constante, mas agora dependemos só de oito cultivos (sobretudo de milho, soja, arroz e trigo) para produzir 75% dos alimentos mundiais.

"Nos bancos de sementes, temos culturas, como o milho, que podem suportar secas extremas, um tipo de arroz que alcança mais de cinco metros de altura e que pode sobreviver às enchentes da bacia do Ganges, um tipo que resiste à salinidade, que distribuímos depois do ciclone Orissa e do Tsunami".

A fazenda guiada por Shiva (na Índia, na fronteira com o Nepal e o Tibete) se tornou um modelo de biodiversidade e de sustentabilidade econômica, mesmo que muitos especialistas duvidem que seja possível aplicá-la em grandes números. "Na nossa cooperativa agrícola – relata Shiva –, as culturas não têm doenças, a terra é resistente à seca, e o alimento produzido é delicioso. Os bois aram a terra e a fertilizam. Abolindo os combustíveis fósseis da nossa fazenda, descobrimos a verdadeira energia: a da micorriza [associação simbiótica de fungos e raízes de plantas] e das minhocas, das plantas e dos animais, todos alimentados pela energia do sol".

Na fazenda, há novas culturas. Navdanya significa, de fato, "novas sementes", mas também "o novo dom". Não importa quantas canções vocês têm no seu iPod, quantos automóveis há na garagem de vocês ou quantos livros há em suas prateleiras – conclui Vandana Shiva. O que resta da vida sem um terreno fértil?". Talvez hoje, finalmente, alguém se disponha a ouvir essa pergunta.

Fonte: Anais Ginori, Jornal La Repubblica, Itália (Brasil de Fato)
(Tradução de Moisés Sbardelotto)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O futuro possível: onde começa o novo humanismo

Por Paolo Rumiz, do La Repubblica

“É preciso reencontrar as coisas belas, as sementes, as hortas”, afirma o cineasta Ermanno Olmi. “Recuperar a agricultura hoje quer dizer retomar a dignidade”, afirma o fundador do movimento Slow Food, Carlo Petrini. Nesta conversa bem informal, ambos comentam a relação com a natureza e criticam o modo de produção atual. Segundo eles, a natureza tem uma grande capacidade de se regenerar, contanto que seja deixada em paz. “A tragédia que vivemos não é econômica, mas filosófica: é preciso recuperar a essência”, afirmam. A reportagem é de Paolo Rumiz, publicada no jornal La Repubblica, 28-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Virá a fome, a fome do alimento justo. Virá a rejeição aos venenos e ao desperdício. Então, o filho pródigo voltará à casa do pai, redescobrirá a Boa Terra e iniciará a resistência contra o império do consumo e o saque à natureza. A hora se aproxima, os sinais são claros: o sistema está devorando a si mesmo, o barco afunda.

Conversamos sobre esses temas com o líder do movimento Slow Food, Carlo Petrini, e o cineasta Ermanno Olmi, em um diálogo “bíblico”, às vésperas da estréia do filme “Terra madre”, dedicado aos pequenos agricultores do mundo.

Como explicar que é preciso voltar à terra?

Olmi - Pensemos. Como se trai uma mulher? Quando a reduzimos a um instrumento procriativo. Mas o que é a terra senão uma mulher? Se não entendermos a sua essência vital, não compreendemos nada… A tragédia de hoje não é econômica, mas filosófica. É hora de voltar à essência, à verdade das necessidades.

Petrini - Olhe quanta dignidade os agricultores dos países pobres têm… Fazem com que pareçamos ridículos… Diante deles, vemos que somos feios, barulhentos, envenenados pelo inútil, curvados aos celulares… Pois bem, devemos explicar melhor que, hoje, voltar à terra não é mais voltar à miséria… Para evitar esta, temos a tecnologia… Mas voltar à dignidade, à beleza.

Sim, mas a nobreza das mãos não é mais representada. Nos jornais, só vemos fotos de empresários.

Petrini - É uma coisa que irrita. Nunca um agricultor, ou um pastor… Ignoram-se os novos sinais: a mulher de Obama que planta na horta da Casa Branca quer dizer alguma coisa, não? Muitos se dão contam, entendem que o agricultor pode ser rico como um rei… mais do que um empresário ou um advogado.

Olmi - Escute. Nunca como agora os empresários sentem o vazio da sua vida, entendem que desperdiçaram inutilmente… O modelo está no fim da linha, o Titanic afunda. Sabe o que estava escrito na quilha do Titanic? “Só Deus pode me afundar”. E depois…

Mas o modelo Titanic continua. Até a FAO exorta a produzir mais.

Petrini - Tolos. Empurrar a economia com o consumo é como dizer a um diabético “empanturre-se em uma confeitaria”. O consumismo faliu e deve ser recusado em todas as frentes. A velocidade deve ser combatida com lentidão; as necessidades inúteis, com a austeridade; o desperdício, com a propensão à reutilização… Resistência dura.

Olmi - Hoje, nos partidos, triunfa a palavra Liberdade. Li-ber-da-de. Sabe o que isso quer dizer? Simples. Liberdade para recuperar um modelo clamorosamente falido. Liberdade para consertar o Titanic. Liberdade para consumir, para desperdiçar, para envenenar. Se fosse eu, fundaria um partido da pobreza, entendida como redução do consumo. Não condenação, mas conquista.

Não é fácil entender. Estamos muito envenenados.

Olmi - Tranquilo. Virá a fome, e então entenderemos… A fome, quero dizer, do alimento justo… Pense na parábola do filho pródigo. De que ele se alimentava? Lavagem dos porcos. E nós? Igual. Lanchinhos, alimentos com aditivos. Porcarias. No nosso intestino, o alimento não fermenta mais, mas se putrefaz. E, assim, os mesmos que nos envenenam nos fazem gastar com remédios para acalmar os gases… Vamos acordar quando entendamos que, por trás da nossa fome, há uma tremenda saudade da qualidade. Então, o Pai virá e fará com que assem o novilho gordo… E vocês verão, será maravilhoso.

Como organizar a resistência?

Petrini - Roma passou séculos afundando… Os imperadores dispunham, julgavam, publicavam editos, mas o controle do território era tratado com desleixo. E assim, anarquicamente, nasciam aldeias com suas próprias regras. Nós vivemos um momento semelhante. Como Roma, o totalitarismo global desaba, mas continua comandando. E então se resiste construindo novas aldeias, núcleos de solidariedade, baseados não na utilidade ou no prazer, mas no bom e no justo. Comunidades da ética.

Olmi - A estratégia justa não é o choque frontal e nem a guerrilha. É ignorar os culpados, separar-se deles. Tornar-se estranhos ao seu projeto. Ajudar o filho pródigo a construir uma horta sua, a colocar debaixo da pia azeite e cinzas no lugar dos venenos, a não comprar congelados. Olhe o meu jardim: tem uma horta de oito metros quadrados e não sei como parar com ela…

Os italianos, se pudessem, encheriam a terra com galpões industriais.

Olmi - De fato, vivemos uma crise de civilização antes que uma crise econômica. Os valores, não os números, estão errados. Quem diz que a crise ou a superação da crise se mede em números não entendeu nada. Por que Marx faliu? Porque acreditava que a economia fazia a civilização. Agora cometemos o mesmo erro. Não entendemos que o nosso mundo, nos últimos dois mil anos, expressou uma única revolução: a de Cristo. Cristo, sublinho. Não a Igreja de hoje.

Petrini - É claro, precisamos de um novo humanismo. Vivemos três crises simultâneas: climática, energética, financeira. Mas todas têm uma única causa: a ganância. Um novo humanismo.

Na prática, o que isso quer dizer?

Petrini - Retorno a uma anarquia austera, com as comunidades que decidem sozinhas… A Terra é anarquia por natureza, rejeita escolhas que caem do céu… Ao ponto que até o Slow Food deve combater a tentação de querer fazer bem o bem aos outros… Mas essa multidão de ONGs em circulação não está certo, não está certo…
O risco é que já seja tarde. Muitos venenos.

Petrini - Nããão! O Tâmisa parecia morto, e olhe como está hoje… O Bormida [rio italiano] era um esgoto e está se recuperando. A terra é como o ânimo humano. Quando está destruído, do que ele precisa? Tempo, cuidado, manutenção… Exatamente o que o nosso mundo baniu.

Olmi - Não consigo me esquecer disto. Eu estava trabalhando com Renzo Piano na recuperação da Falk [indústria metalúrgica], em Sesto San Giovanni, e em um momento me dei conta que cresciam plantas na terra envenenada após um século de industrialização… Também ali, entende? A natureza tem uma capacidade monstruosa de se regenerar. Basta deixá-la em paz.

Vocês nunca se deram de cara contra o poder?

Olmi - Com os latifundiários de ontem, você até poderia se chocar. Com os de hoje, não. Não são pessoas, são fantasmas. Você não sabe quem está por trás. Bancos, crime, política, igrejas, lobby… Se você os ataca, eles não respondem. Vandana Shiva chama-os pelos seus nomes e pelos sobrenomes, os acusa de serem criminosos, e não acontece nada. Um muro de borracha.

Petrini - Os arrogantes da terra não precisam matar. Basta-lhes a imprensa para difundir apatia, descompromisso, a ideia de que toda resistência é leviana. O drama é que uma certa esquerda também pensa assim, e isso é horrível… Uma traição… Justamente eles, os meus companheiros de estrada…

Como representar a agricultura hoje?

Olmi - No filme “Terra Madre”, conta-se a história de Ernesto, um agricultor do Vêneto, que viveu em perfeita autarquia e absoluta solidão até a sua morte. Dieta bíblica sem carne, só produtos da sua terra. Certamente, não é um modelo a ser imitado. Mas a ser meditado, sim. Ele nos confiou um pedaço de terra bíblica no meio de indústrias e culturas intensivas. Mostrar a beleza desse lugar é impressionante. Faz entender como nós decaímos tão profundamente.

Petrini - Não acredito que Ernesto tenha pensado nos descendentes. O que conta é que ele nos confiou esse laboratório único… Você não tem ideia de como esse lugar é diferente do que o circunda. Outro cheiro, outra forma, outra geometria… Uma maravilha.

O que vocês dizem dos bancos de sementes nas ilhas Svalbard?

Olmi - Esse lugar não é uma conquista, é uma tragédia. Isso são as imagens que dizem, sem necessidade de comentários. Na inauguração, o comissário da União Européia, [Durão] Barroso falou de um “jardim do Éden congelado”. Mas você se dá conta? Aquele ali é o lugar onde os arrogantes da terra vão proteger a vida do colapso que eles mesmos produzem! Monsanto, Coca-Cola, Bill Gates…

Petrini - As Svalbard, um monumento à arrogância e à estupidez. Escolheram o lugar por causa do frio, não? Bem, o que fizeram? Uma caverna na rocha, quando até os burros sabem que debaixo da terra a temperatura sobe… Assim, tiveram que colocar refrigeradores… Pense que demência… Não se deve entubar as sementes, deve se fazer com que elas vivam na gratuidade e na troca…

Enquanto isso, eles se apropriam das sementes e da água.

Olmi - Você vai ver! No fim, trocaremos as sementes às escondidas, como os livros proibidos. Será o modo de despedaçar o poder deles. Não vejo outra revolta possível. Olhe esta arvorezinha que nasce. É uma macieira. Vem da semente de uma macieira que um menino de uma escola lombarda que cuidava da horta da turma me deu. Eu a plantei e agora está crescendo. Pode haver um sinal mais bonito?

(Envolverde/IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Governos, Agricultores e Sociedade Civil reunidos na Suíça MORATÓRIA AOS TRANSGÉNICOS PARA TODA A EUROPA

Plataforma Transgénicos Fora
http://www.stopogm.net/
2009/04/26 - Comunicado

Cerca de 300 representantes governamentais, cientistas, associações de agricultores e de consumidores, e numerosas organizações ambientalistas, de quatro continentes, denunciaram este fim de semana o escândalo da violação do direito à escolha na produção e consumo de alimentos. Portugal marcou presença através de elementos da Plataforma Transgénicos Fora, Quercus e Gaia.

Perante o aumento do número de regiões livres de transgénicos em toda a Europa (são já cerca de 190, incluindo duas em Portugal), e considerando que seis Estados Membros* já proibiram a nível nacional o único milho transgénico autorizado para cultivo na União Europeia (e mais dois têm moratórias de facto), os participantes reunidos em Lucerna, Suíça, na conferência Food and Democracy** exigiram a criação de uma moratória europeia ao cultivo e aprovação de novas variedades de transgénicos.

Nos trabalhos de sexta-feira, dia 24, a presidente do Conselho Nacional helvético anunciou a extensão da moratória de cinco anos - decidida neste país por referendo nacional - por mais três anos, até 2013, dados os benefícios que tem trazido à agricultura suíça. Também a ministra escocesa da agricultura lembrou nesta conferência que a visão do seu governo é apostar na diferenciação, na qualidade e nos nichos de mercado com valor acrescentado, ao mesmo tempo que bloqueiam a penetração de transgénicos: "Sabemos muito pouco acerca das consequências de longo prazo dos cultivos transgénicos. Arriscar com o nosso ambiente natural é irresponsável e indefensável. Ele traz anualmente 17 milhões de libras à nossa economia, e não nos podemos dar ao luxo de arriscar em tecnologias sem garantias de segurança."

De notar que a proibição mais recente, a do governo alemão, se baseia no elevado impacto ambiental destas culturas, considerado cientificamente demonstrado. Estas proibições de vários Estados Membros foram recentemente apoiadas por uma expressiva votação no Conselho Europeu de Ambiente, que Portugal também apoiou.

Apesar destes sinais positivos, ainda há seis países que cultivam transgénicos na União Europeia. Portugal é um deles, e o segundo mais importante em termos de percentagem da área total cultivada com milho. Na Espanha, o país que lidera o cultivo transgénico europeu, milhares de pessoas juntaram-se há uma semana em Saragoça para pedir o fim desse milho em todo o Estado espanhol.

A produção com transgénicos ocorre à revelia da opinião da maioria da população europeia que, tal como foi referido pela ex-ministra alemã da agricultura, Renata Künast, também presente, "tem cada vez menos direito à escolha." Esse direito de optar desapareceu devido ao controlo das sementes através de patentes, à ausência de rotulagem em produtos animais, à contaminação irreversível e generalizada da cadeia alimentar e à falta de aplicação do princípio da subsidiariedade no que toca à auto-declaração de mais de cinco mil autarquias como livres de transgénicos.

Em Portugal os cidadãos e agricultores continuam a não ter o direito, estabelecido por lei, reiterado pela Comissão de Acesso aos Dados Pessoais e reafirmado numa decisão do Tribunal Europeu, de conhecer as localizações dos terrenos onde se cultiva o milho transgénico MON 810. Pelo contrário, o governo português continua a fazer dos agricultores e consumidores portugueses meras cobaias indefesas. Está na altura de perguntar porquê.

O texto completo da Declaração de Lucerna está disponível na página da Plataforma Transgénicos Fora.**

________________________
* Há seis países com proibições através da cláusula de salvaguarda: Áustria, França, Alemanha, Luxemburgo, Hungria e Grécia. Há dois países com outros tipos de proibição: Itália e Polónia.
** Ver em www.stopogm.net/

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Camponeses solicitam a Obama renegociação de TLCAN

16.04.09 - MÉXICO
Adital

O presidente estadunidense Barack Obama iniciou hoje (16) sua primeira visita ao México desde sua posse em fevereiro passado. Obama vai reunir-se com o presidente mexicano, Felipe Calderón, para discutir temas de interesse bilateral, como a segurança fronteiriça, o combate ao narcotráfico e a venda ilegal de armas procedentes dos Estados Unidos.

Por ocasião da visita presidencial, a Campanha Nacional "Sem milho não há país" divulgou uma carta aberta ao presidente dos EUA solicitando uma renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, em busca de proteção ao milho mexicano e aos empregos de milhões de camponeses.

"A esperança do povo estadunidense na mudança e sua valente decisão para terminar com o regime de Bush e eleger o Senhor como presidente dos Estados Unidos representa também para o povo do México uma esperança em acabar com a era do neoliberalismo e da democracia simulada das corporações em nossos países e avançar em direção a um modelo de cooperação entre nossos povos tendo como propósito central o desenvolvimento humano sustentável e os direitos das pessoas", afirmam na carta.

A Campanha alerta ao presidente estadunidense que Calderón não representa legitimamente o povo mexicano e que não lhe falará a verdade acerca do TLCAN e seus dramáticos impactos negativos econômicos, sociais e ambientais no campo e na alimentação de toda a população. "O presidente Calderón, pelo contrário, representa os interesses das grandes corporações", apontam.

Como Obama não terá a oportunidade de reunir-se com a sociedade civil, a Campanha lista na carta os impactos negativos do TLCAN no campo mexicano. O primeiro é o aumento da emigração de mexicanos para os EUA durante os 15 anos de vigência do Tratado, quando emigraram seis milhões de mexicanos, o triplo da média anual antes do TLCAN, alcançando a cifra de 500 mil mexicanos por ano.

Denunciam ainda que no campo mexicano não há oportunidades de emprego para milhões de camponeses por causa das importações dumping dos EUA, do controle das grandes corporações e da ausência de uma política de produção agroalimentar e de desenvolvimento rural sustentável do governo mexicano: "Desde a entrada em vigor do TLCAN, o México perdeu sua autossuficiência alimentar. Atualmente nosso país importa 42% dos alimentos que consome, com um valor de 22,5 bilhões de dólares (2008): importa alimentos e exporta milhões de camponeses e moradores rurais".

Mencionam também os preços da cesta alimentar que se multiplicou por 109 nos 15 anos de TLCAN. Atualmente, cerca de 20 milhões de mexicanos sofrem de desnutrição e anemia, principalmente crianças menores de cinco anos e que vivem na zona rural e pertencem a comunidades indígenas.

Entre as propostas para impulsionar o desenvolvimento humano sustentável e a vigência plena dos direitos humanos, a Campanha aponta: renegociar o TLCAN para recuperar a soberania e segurança alimentar; estabelecer um acordo trinacional de cooperação; promover um processo trinacional de debate público; impulsionar uma reforma migratória nos Estados Unidos; declarar uma moratória ao ASPAN (Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte) e à Iniciativa Mérida (programa de cooperação contra o narcotráfico).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alemanha proíbe cultivo de transgênicos em todo o seu território

por Gualter Baptista
gaia.org.pt

A Ministra da Agricultura alemã Ilse Aigner (CDU, democratas-cristãos) proibiu hoje a plantação de milho geneticamente modificado MON810 em todo o território da República Federal, alegando que existem razões legítimas para considerar "um perigo para o ambiente". O MON810 é a única variedade geneticamente modificada cujo cultivo está autorizado no território da União Europeia. Contudo, o número de países a proibir o seu cultivo tem vindo a aumentar de ano para ano, somando 8 com a probição de hoje. Com a activação da cláusula de salvaguarda da Directiva 2001/18, a Alemanha junta-se à França, Áustria, Grécia, Luxemburgo e Hungria. A Itália e Polónia são outros países que mantêm moratórias sobre o cultivo de transgénicos.

Em Espanha e Portugal, os únicos países da Europa que ainda cultivam transgénicos em grande escala, a sociedade civil tem preparadas um conjunto de mobilizações ao longo da semana e em particular para dia 18 de Abril (dia internacional da luta camponesa), para exigir aos respectivos governos a proibição dos cultivos transgénicos.

Esta proibição constitui mais um êxito dos movimentos sociais que têm manifestado a sua oposição ao cultivo de transgénicos. Em Portugal, o GAIA e a Plataforma Transgénicos Fora têm trabalhado activamente neste tema, mas infelizmente os dirigentes políticos do nosso país parecem continuar a ignorar os apelos da sociedade civil, enquanto servem os interesses de multinacionais da biotecnologia. Enquanto Portugal não probir também o cultivo do milho transgénico MON810, a saúde dos consumidores, o direito à semente e a soberania alimentar continuarão a estar em risco.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Mundo segundo a Monsanto

sábado, 21 de março de 2009

O Consumo como “arma” para enfrentar o Capitalismo - Eixo: Hábitos de Consumo como fator de Soberania Alimentar


Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentável
SEMAPI

(...) O SEMAPI, em 2006, no Segundo Congresso, tirou como uma de suas resoluções a criação do Coletivo Desenvolvimento Sustentável, sendo este instituído pela gestão 2007-2010. Um dos eixos estruturantes do seu planejamento estratégico é o Consumo e Sustentabilidade, o qual organiza as ações relacionadas à re-significação do ato cotidiano de consumir. Esse eixo justifica-se pela nossa convicção de que o modelo de consumo da sociedade capitalista, um dos pilares da mesma, é um dos principais responsáveis pelos danos sociais, culturais e ambientais que o planeta terra hoje vivencia. Além disso, o consumo tem um caráter universal, está presente no cotidiano de todas as pessoas e pode cumprir um papel pedagógico para a compreensão da lógica capitalista e criar as condições objetivas para o seu enfrentamento pela base.

Na abordagem do eixo estruturante, Consumo e Sustentabilidade, temos privilegiado a reflexão sobre a relação entre Soberania Alimentar e Consumo, pois compreendemos que nela o caráter pedagógico e transformador potencializa-se. Primeiro, porque pode ser tratado a partir de várias dimensões, desde aquelas mais próximas e visíveis no cotidiano como saúde, paladar, cultura alimentar, relações sociais, familiares, até aquelas de caráter mais macro, como dominação econômica, dependência externa, soberania dos povos, dominação cultural, degradação ambiental, exclusão social; segundo, porque o tema perpassa, de forma distinta, os diferentes grupos sociais aos quais nos relacionamos enquanto sindicato. Diz respeito tanto ao corpo diretivo, quanto aos trabalhadores do Sindicato, quanto a base sindical e quanto aos movimentos sociais, sendo que cada um deles nos possibilita diferentes abordagens e repercussão distinta em diferentes realidades.

Por essas razões, dentre outras, entendemos que a incorporação do Consumo como bandeira de luta do movimento sindical e social é mais uma tática importante para o enfrentamento do capital e para disseminar o debate na sociedade de forma mais ampla e mais contundente. A partir desse diálogo social ampliado, abordando o significado do consumo, espera-se ampliar a demanda por alimentos produzidos localmente e de forma ecológica, o que equivale a dizer que o movimento sindical e social, via o combate ao consumo induzido pelo capital, é capaz de incidir na distribuição de renda e no fortalecimento de uma produção sustentável, levada a termo pela agricultura familiar de base ecológica e pela economia solidária. Se criado um grande e massivo movimento, acreditamos ser possível fragilizar economicamente, em cada localidade onde atuamos, empresas sustentadas pelo grande capital.

Trabalhar a Soberania Alimentar favorece a reflexão política a partir de situações locais e do cotidiano. O conceito de Soberania Alimentar incorpora a idéia de autonomia. Não apenas a autonomia individual, mas dos povos. Por isso é revolucionário. Um povo, uma nação, capaz de produzir o seu próprio alimento, de forma independente, com qualidade, quantidade e permanência, atendendo o conjunto de suas necessidades, está a um passo de ser Soberano. Essa concepção organiza uma pauta de lutas diferente daquela formulada a partir apenas da idéia de Segurança Alimentar, a qual focaliza o conceito no acesso aos alimentos, discutindo questões sociais, nutricionais e de saúde, sem ênfase na sua origem. Essas questões são, sem sombra de dúvidas, muito relevantes, porém, alargar o olhar, alarga o horizonte de luta(...)

Apresentamos abaixo a síntese das discussões dos grupos de trabalho da oficina Consumo como fator de Soberania Alimentar realizada em Santana do Livramento, parte das atividades do 8 de Março. De acordo com a lista de presenças, tivemos representações das seguintes organizações: SINDJUS, Assistência Social do Uruguai, CPERS, Marcha Mundial das Mulheres, CONSEA de Santana do Livramento, SEMAPI, PT/RS, PT Santana do Livramento, Via Campesina, Fepagro, AFUFE, CTA, Casa de Convivência Santa Clara, Federação dos Bancários/RS, Economia Solidária, SMATS e Sindicato dos Bancários.

A idéia de socializar pelo Blog é possibilitar que seus leitores tenham a oportunidade de fazer suas considerações sobre o tema, comentando os pontos levantados pelos participantes da Oficina. E também para que os próprios oficineiros avancem na reflexão e proposições.


PROVOCAÇÃO:
Quais proposições abaixo são comuns aos diferentes grupos e nos remetem a uma boa construção coletiva em um futuro próximo? Para iniciarmos uma grande mobilização pelo CONSUMO CONSCIENTE, começamos por onde?

Registre a sua opinião no espaço destinado a comentários e vamos nos organizar.



GRUPO 1

Destaca a necessidade de algumas medidas estruturais, tais como:
Ampliação da política de reforma Agrária, Estímulo à Agricultura familiar
Estímulo ao Cooperativismo, Ampliação do poder aquisitivo da população.

Em relação a ações mais locais, destaque para:
Grupos locais para debater e realizar ações de conscientização.
Feiras de produtos da Agricultura familiar/Produtos Agroecológicos.
Organização de Redes de Consumo Consciente.
Internet, rádios, jornais, Programa de Reeducação Alimentar nas escolas.
Aquisição de alimentos da Agricultura Familiar local pelo poder público.

GRUPO 2

Pontos destacados:
A necessidade de mudar o modelo de produção, colocando a lógica da vida acima do lucro. Uso da ciência para a humanidade.
A necessidade de substituir a ditadura da “razão” pela ideologia da vida, moldando as subjetividades coletivas.
A necessidade da adoção de novo modelo habitacional, com hortas, utilizando alternativas energéticas. Propriedades e moradias sustentáveis, ecológicas e em rede.
A necessidade de multiplicar atividades de divulgação do consumo consciente e do comércio justo.
Construir a mídia alternativa.
Não envenenar o habitat.
Usar a mídia//marketing a nosso favor para difundir nossas idéias.

GRUPO 3


Pontos destacados:
Mudar é possível.
A família urbana deve buscar a prática da Permacultura.
A mudança é silenciosa. O conhecimento é necessário.
Desligar a TV, desfrutar o comer juntos e com calma, sem interferências.
Envolver a criança no preparo do alimento.
Criar redes entre o campo e a cidade através de associações e cooperativas.
Fomentar localmente a criação de cooperativas de consumo consciente.
Difundir essas idéias aproveitando-se dos meios eletrônicos / mídia existente nas cidades. E, no campo, utilizar a mala direta.
Boicotar os alimentos industrializados não os adquirindo das redes que não estejam comprometidas com o meio-ambiente ecologicamente saudável.
Políticas públicas para a produção de alimentos agroecológicos.
Criar leis municipais para a inserção de alimentação saudável nas escolas.
Formar grupos de estudos que ensinem a alimentação saudável.

Boicote às multinacionais. Boicote à biopirataria. Boicote ao silêncio. Boicote ao veneno. Boicote ao transgênico. Boicote à mídia. Boicote à exploração.

GRUPO 4

Pontos destacados:
Na escola trabalhar o consumo consciente
Buscar junto aos governantes a criação de incentivos e fiscalização
Boicote aos alimentos industrializados
Fiscalização as propagandas, buscando embasamento na Lei. No caso de propagandas que alimentos/bebidas que fazem mal a saúde, como a coca-cola.
Conscientização promovida por associações de bairros, Sindicatos, escolas, igrejas.
Debate diário: Debater sempre com todos. Vizinhança, rodas de bate-papo no dia-a-dia, na escola.

GRUPO 5


Pontos destacados:
Falta de tempo
Porque nós mulheres temos jornada dupla e, ainda em maioria, quem faz o preparo do alimento na casa .
Cultura
Temos a cultura da rapidez
Comodismo
de só aquecer, só congelar. Somos muito cômodos.
Consumismo
Com o advento do consumismo, do fast food, o resultado é o aumento de pessoas com obesidade, diabetes, colesterol por causa dos efeitos das gorduras “trans” contida nesse tipo de alimento.
Mídia
A mídia é quem traz isso se utilizando de propaganda massiva e intensiva.

Alternativas:
Falta de tempo
Combater a preguiça; estabelecer jornada de trabalho consciente e priorizar a vida saudável.
Cultura
Ter o seu lazer, cultivar uma horta (e animais) nos pequenos espaços. Ainda que haja denúncias dos vizinhos por essa iniciativa, mas poder trabalhar junto da atual legislação abrindo direitos para isso.
Educação.
Educação que se inicia dentro da casa de cada um. Inserir bons hábitos alimentares e ecológicos.
Consumismo
Ampliação da oferta de alimentos saudáveis, horários alternativos das Feiras de Produtores. Dessa forma o trabalhador poderá ter opção de consumo consciente no horário que também lhe convir.
Mídia
Desobedecer à mídia, não comprando alimentos industrializados

terça-feira, 10 de março de 2009

8 de Março - Um Novo Mercosul é Possível




Dentro das atividades do Dia Internacional da Mulher – 8 de Março – realizadas em Santana do Livramento – Um Novo Mercosul é Possível – O SEMAPI Sindicato realizou um conjunto de ações. Dentre elas, a oficina Hábito de Consumo como fator de Soberania Alimentar, coordenada pelo Coletivo Desenvolvimento Sustentável, em uma ação articulada com a Marcha Mundial de Mulheres do RS.

Abriu a Oficina, Joana Stédile, representante da Marcha. Esta destacou a importância desse debate e lembrou o papel que as mulheres, em particular as mulheres do campo, têm cumprido para a biodiversidade, preservando sementes e praticando uma agricultura limpa. Referiu-se a falácia da revolução verde que veio para resolver o problema da fome e ainda hoje milhões de pessoas vivem em extrema pobreza, sem acesso a uma alimentação saudável. Destacou que a revolução verde fortaleceu a monocultura, a expulsão de homens e mulheres do campo e desenvolveu-se à custa da degradação ambiental pelo uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos. Falou também do status de mercadoria assumido pelos alimentos no modelo de desenvolvimento atual, quando, em verdade, deveriam ser tratados como um direito da população.

Na seqüência, a Oficina, a partir da explanação da coordenadora do Coletivo Desenvolvimento Sustentável do SEMAPI, Iara Aragonez, foi destinada à compreensão do conceito de Soberania Alimentar no contraponto com o conceito de Segurança Alimentar. Logo após, foram trazidos elementos que evidenciaram o quanto hábitos alimentares e práticas cotidianas de consumo podem influenciar para a soberania alimentar de um povo. A partir dessa abordagem foi destacado que há uma possibilidade enorme de ações que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa, as quais independem da macro-política e da macro-economia, pois são possíveis de serem implementadas a partir das relações estabelecidas diariamente para a reprodução da nossa existência. Ficou destacado que criar outro modelo de consumo é possível quando temos a consciência da perversidade do modelo hegemônico e nos mobilizamos coletivamente para essa transformação.

O segundo momento propiciou a contribuição direta dos participantes da Oficina, os quais, apoiados em textos de autores, como Frei Beto, Iara Aragonez, João Pedro Stédile e Leonardo Boff, posicionaram-se sobre o tema. Do conjunto das reflexões apresentadas na plenária que encerrou a Oficina destaca-se que foram apontadas ações e estratégias necessárias e possíveis de serem implementadas pela militância.

Capilarizar esse debate, envolvendo escolas, associações, sindicatos e outras instituições formadoras de opinião, criando grupos locais de discussão na perspectiva da ampliação de consciências sobre o significado do consumo e sobre hábitos alimentares e provocar a organização de redes de consumo consciente, foram algumas das ações consideradas importantes para aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e por uma nação livre e soberana.

Além disto, foi destacado como fundamental não perder de vista a luta pela ampliação da Política de Reforma Agrária, pelo fomento da Agricultura Familiar, do Cooperativismo/Economia Solidária e pela ampliação da renda da população.

O acordo final da Oficina foi de que a mesma deveria ser entendida como o início de um longo processo. A Marcha Mundial das Mulheres e o Sindicato SEMAPI, dando continuidade a parceria inaugurada no “Encontro Nacional Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética”, realizado em Belo Horizonte, em agosto de 2008, cumprirão o papel de acolher demandas e também de serem propositivos em relação a oficinas descentralizadas.

O propósito é continuar contribuindo na provocação do debate e mobilizando para ações transformadoras capazes de impulsionar o consumo consciente, contribuindo assim para o fortalecimento de uma produção sustentável, levada a termo pela agricultura familiar de base ecológica e pela economia solidária de nosso Estado.

A Oficina em Santana do Livramento contou com aproximadamente 60 pessoas e foi exitosa do ponto de vista dos objetivos a que se propôs. Assim que a sistematização dos trabalhos em grupo estiver concluída a estaremos publicando nesse blog, juntamente com as imagens produzidas durante as atividades.

...o conteúdo do conversar numa comunidade não é inócuo para essa comunidade, porque arrasta consigo seus afazeres... (Humberto Maturana)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

QUESTIONAMENTOS SOBRE PROJETO DE IRRIGAÇÃO DA COSTA DOCE.

Audiência Pública em Arambaré,18 de fevereiro de 2009.

Em acordo com a portaria n°078/2007 vimos por meio desse questionar a FEPAM, aspectos que julgamos fundamentais para a preservação do ambiente e que nos preocupam em relação ao projeto apresentado em audiência pública no dia 18 de fevereiro na cidade de Arambaré. Este projeto pretende ampliar a captação de água doce da Laguna dos Patos para irrigação de algumas propriedades rurais que desejam aumentar suas áreas de plantio de arroz irrigado, com fortes mudanças ambientais no sistema lagunar e sem as evidências que assegurem o desenvolvimento sustentável da comunidade.

Primeiro aspecto.

Estranhamos a ausência de publicidade ao projeto e a falta de interesse por parte do gestor municipal em promover o debate. Em nenhum momento foram realizadas reuniões sobre o objetivo do projeto, o que em se tratando de uma comunidade pequena é bastante razoável de ser viabilizado.

Também nos surpreendemos com a data escolhida para a realização da audiência pública, pois sendo às vésperas do feriado de carnaval, fez com que exatamente o prazo de sete dias para manifestação por escrito a respeito do projeto apresentado e detalhado em audiência pública compreendesse exatamente tal período de feriados, dificultando os questionamentos.

Sendo assim entendemos que pela importância do tema e a relevância de sua influência junto ao futuro da comunidade, deveriam os proponentes do projeto, estimular a discussão. Todas as ações anteriormente mencionadas demonstram um interesse urgente em aprovar o projeto a qualquer custo, sem permitir o envolvimento da sociedade.

Dessa forma estamos solicitando que a Fepam considere a influência prejudicial ao debate imposta pelos interessados do projeto permitindo que haja uma nova audiência pública para certificar-se da eficiência e eficácia do projeto a partir da ampliação do debate junto à comunidade.

Segundo aspecto.

Não ficou claro na apresentação do projeto qual a abrangência da análise do EIA/RIMA, pois no município de Arambaré existem atualmente três pontos de captação de água da Laguna localizados no distrito de Santa Rita, ao sul do centro do município: Canal do Jacaré, da Agropecuária Búfalo e da Agropecuária Santa Rita.

O projeto apresentado em audiência pública, resumiu-se em apenas analisar um novo ponto de capitação de água junto ao Arroio Velhaco. Foi desconsiderada na audiência a análise do impacto ambiental da drenagem dos outros pontos de capacitação que esta previsto no Estudo Básico de Concepção, Estudos de Viabilidades Técnica, Econômica e Ambiental do Projeto de Irrigação da Costa Doce nos municípios de Arambaré e Tapes - RS, que foi o projeto original adquirido pela Prefeitura de Arambaré junto ao consórcio ACL e Engeplus em 2006 e que originou o atual projeto em análise.

Assim, se no estudo for considerado apenas um ponto de capacitação de água (Arroio Velhaco) corremos um risco de erro na análise, pois o efeito da drenagem dos outros pontos de capacitação de água é fundamental para a compreensão do impacto ambiental na integralidade do projeto.

Último aspecto:

A realidade da salinização da Laguna dos Patos. Há evidências e os estudos demonstram que existe o aumento da salinização da Laguna. Em observações de agricultores já foi constatado que em determinadas regiões, a Laguna já vem recuando nos últimos 10 anos. Os estudos de cientistas mundiais indicam o aumento do nível do mar. O afundamento do canal portuário de Rio Grande indica a possibilidade do aumento de salinização da Laguna. Na região leste da Laguna a salinização é permanente.

A própria justificativa do Projeto de Irrigação da Costa Doce, que é o de solucionar o problema da estiagem e transferir o bombeamento do distrito de Santa Rita, mais ao sul, deslocando-o mais ao norte, junto ao Arroio Velhaco, pressupõem ali, naquele local, as melhores condições de capitação de água com menor risco de salinização já constatado nos canais existentes.

E exatamente estas premissas de possibilidades de soluções dos problemas de estiagem que apontam as ameaças reais de inviabilidade do projeto por conta exatamente dos riscos de salinização da Laguna. Ora pela estiagem, ora pelo aumento do nível do mar, ora pelo aumento do canal portuário, ora pelas constatações já evidenciadas em outros pontos de capitação ou ainda em obserções de agricultores, é uma questão de tempo, a salinização já é uma realidade. Assim corremos o risco de construirmos, com custos e impactos ambientais, um grande “cavalo de Tróia”.

Neste sentindo torna-se arriscável e desnecessário prosseguir em um projeto de alto custo que poderá induzir a um repaisagismo regional e posicionamento econômico de novos arrozeiros sem antes encontrar uma alternativa viável, se é que existe, para a possibilidade de salinização da Laguna.

Considerações finais:

Verificamos com indignação de que na cidade de Arambaré não existe saneamento básico.

O distrito de Santa Rita, a maior área de arroz do município, o esgoto é a céu aberto e o índice de pobreza é absoluto.

Na zona rural não há água potável e o lixo sequer é recolhido.

A Lagoa do Graxaim foi assoreada pelo barro, produto da má sistematização do solo da lavoura de arroz.

A barra da Laguna junto ao Arroio Velhaco, uma antiga briga entre os pescadores e a Fepam para que seja aberta no momento de estiagem a fim de permitir a saída dos barcos do Arroio Velhaco, com o bombeamento tende ficar sempre aberta.

A utilização de venenos agrícolas já são ameaças à fauna e à flora consequência da atual área plantada, aumentando a área plantada, aumentará o problema e com isso a possibilidade de terminar com o fluxo de turismo da região.

O estimulo à monocultura do arroz, indicado pelo projeto, é contraditório ao desenvolvimento sustentável.

Investir mais de 60 milhões e beneficiar menos de 50 produtores em detrimento a uma grande maioria miserável é contestável sobre o ponto de vista humanitário e ético.

Portanto, é fundamental que qualquer estudo de análise de impacto ambiental se faça por conta de aprofundar e identificar estas inúmeras variáveis que serão afetadas por conta do modelo de desenvolvimento que se pretende implantar.

Na certeza da responsabilidade ambiental, imparcialidade e alto nível técnico da FEPAM apresentamos nossas contribuições para reflexão, aprofundamento e investigação a fim de garantir para o presente e futuro a preservação da maior Laguna do Brasil, o maior patrimônio ambiental do Rio Grande do Sul.

Associação Ambientalista Biguá
Arambaré, 25 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

VAMOS SALVAR O PLANETA - tudo começa com sua ação

53 DICAS PRA VC ECONOMIZAR ENERGIA E SALVAR O PLANETA

1. Tampe suas panelas enquanto cozinha
Parece obvio, não é? E é mesmo! Ao tampar as panelas enquanto cozinha você aproveita o calor que simplesmente se perderia no ar.

2. Use uma garrafa térmica com água gelada
Compre daquelas garrafas térmicas de acampamento, de 2 ou 5 litros. Abasteça-a de água bem gelada com uma bandeja de cubos de gelo pela manhã. Você terá água gelada até a noite e evitará o abre-fecha da geladeira toda vez que alguém quiser beber um copo dágua

3. Aprenda a cozinhar em panela de pressão
Acredite... dá pra cozinhar tudo em panela de pressão: Feijão, arroz, macarrão, carne, peixe etc... Muito mais rápido e economizando 70% de gás.

4. Cozinhe com fogo mínimo
Se você não faltou às aulas de física no 2º grau você sabe: Não adianta, por mais que você aumente o fogo, sua comida não vai cozinhar mais depressa, pois a água não ultrapassa 100ºC em uma panela comum. Com o fogo alto, você vai é queimar sua comida.

5. Antes de cozinhar, retire da geladeira todos os ingredientes de uma só vez
Evite o o abre-fecha da geladeira toda vez que seu cozido precisar de uma cebola, uma cenoura, etc...

6. Coma menos carne vermelha
A criação de bovinos é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Não é piada. Você já sentiu aquele cheiro pavoroso quando você se aproximou de alguma fazenda/criação de gado? Pois é: É metano, um gás inflamável, poluente, e megafedorento. Além disso, a produção de carne vermelha demanda uma quantidade enorme de água. Para você ter uma idéia: Para produzir 1kg de carne vermelha é necessário 200 litros de água potável. O mesmo quilo de frango só consome 10 litros.

7. Não troque o seu celular
Já foi tempo que celular era sinal de status. Hoje em dia qualquer zé mané tem. Trocar por um mais moderno para tirar onda? Ninguém se importa. Fique com o antigo pelo menos enquanto estiver funcionando perfeitamente ou em bom estado. Se o problema é a bateria, considere o custo/benefício trocá-la e descartá-la adequadamente, encaminhando-a a postos de coleta. Celulares trouxeram muita comodidade à nossa vida, mas utilizam de derivados de petróleo em suas peças e metais pesados em suas baterias. Além disso, na maioria das vezes sua produção é feita utilizando mão de obra barata em países em desenvolvimento. Utilize seus gadgets até o final da vida útil deles, lembre-se de que eles certamente não foram nada baratos.

8. Compre um ventilador de teto
Nem sempre faz calor suficiente pra ser preciso ligar o ar condicionado. Na maioria das vezes um ventilador de teto é o ideal para refrescar o ambiente gastando 90% menos energia. Combinar o uso dos dois também é uma boa idéia. Regule seu ar condicionado para o mínimo e ligue o ventilador de teto.

9. Use somente pilhas e baterias recarregáveis
É certo que são caras, mas ao uso em médio e longo prazo elas se pagam com muito lucro. Duram anos e podem ser recarregadas em média 1000 vezes.
11. Troque suas lâmpadas incandescentes por fluorescentes

Lâmpadas fluorescentes gastam 60% menos energia que uma incandescente. Assim, você economizará 136 quilos de gás carbônico anualmente.

10. Limpe ou troque os filtros o seu ar condicionado
Um ar condicionado sujo representa 158 quilos de gás carbônico a mais na atmosfera por ano.

12. Escolha eletrodomésticos de baixo consumo energético
Procure por aparelhos com o selo do Procel (no caso de nacionais) ou Energy Star (no caso de importados).

13. Não deixe seus aparelhos em standby
Simplesmente desligue ou tire da tomada quando não estiver usando um eletrodoméstico. A função de standby de um aparelho usa cerca de 15% a 40% da energia consumida quando ele está em uso.

14. Mude sua geladeira ou freezer de lugar
Ao colocá-los próximos ao fogão, eles utilizam muito mais energia para compensar o ganho de temperatura. Mantenha-os afastados pelos menos 15cm das paredes para evitar o superaquecimento. Colocar roupas e tênis para secar atrás deles então, nem pensar!

15. Descongele geladeiras e freezers antigos a cada 15 ou 20 dias
O excesso de gelo reduz a circulação de ar frio no aparelho, fazendo que gaste mais energia para compensar. Se for o caso, considere trocar de aparelho. Os novos modelos consomem até metade da energia dos modelos mais antigos, o que subsidia o valor do eletrodoméstico a médio/longo prazo.

16. Use a máquina de lavar roupas/louça só quando estiverem cheias
Caso você realmente precise usá-las com metade da capacidade, selecione os modos de menor consumo de água. Se você usa lava-louças, não é necessário usar água quente para pratos e talheres pouco sujos. Só o detergente já resolve.

17. Retire imediatamente as roupas da máquina de lavar quando estiverem limpas
As roupas esquecidas na máquina de lavar ficam muito amassadas, exigindo muito mais trabalho e tempo para passar e consumindo assim muito mais energia elétrica.

18. Tome banho de chuveiro
E de preferência, rápido. Um banho de banheira consome até quatro vezes mais energia e água que um chuveiro.

19. Use menos água quente
Aquecer água consome muita energia. Para lavar a louça ou as roupas, prefira usar água morna ou fria.

20. Pendure ao invés de usar a secadora
Você pode economizar mais de 317 quilos de gás carbônico se pendurar as roupas durante metade do ano ao invés de usar a secadora.

21. Nunca é demais lembrar: recicle
Recicle no trabalho e em casa. Se a sua cidade ou bairro não tem coleta seletiva, leve o lixo até um posto de coleta. Existem vários na rede Pão de Açúcar. Lembre-se de que o material reciclável deve ser lavado (no caso de plásticos, vidros e metais) e dobrado (papel).

22. Faça compostagem
Cerca de 3% do metano que ajuda a causar o efeito estufa é gerado pelo lixo orgânico doméstico. Aprenda a fazer compostagem: além de reduzir o problema, você terá um jardim saudável e bonito.

23. Reduza o uso de embalagens
Embalagem menor é sinônimo de desperdício de água, combustível e recursos naturais. Prefira embalagens maiores, de preferência com refil. Evite ao máximo comprar água em garrafinhas, leve sempre com você a sua própria.

24. Compre papel reciclado
Produzir papel reciclado consome de 70 a 90% menos energia do que o papel comum, e poupa nossas florestas.

25. Utilize uma sacola para as compras
Sacolinhas plásticas descartáveis são um dos grandes inimigos do meio-ambiente. Elas não apenas liberam gás carbônico e metano na atmosfera, como também poluem o solo e o mar. Quando for ao supermercado, leve uma sacola de feira ou suas próprias sacolinhas plásticas.

26. Plante uma árvore
Uma árvore absorve uma tonelada de gás carbônico durante sua vida. Plante árvores no seu jardim ou inscreva-se em programas como o SOS Mata Atlântica ou Iniciativa Verde.

27. Compre alimentos produzidos na sua região
Fazendo isso, além de economizar combustível, você incentiva o crescimento da sua comunidade, bairro ou cidade.

28. Compre alimentos frescos ao invés de congelados
Comida congelada além de mais cara, consome até 10 vezes mais energia para ser produzida. É uma praticidade que nem sempre vale a pena.

29. Compre orgânicos
Por enquanto, alimentos orgânicos são um pouco mais caros pois a demanda ainda é pequena no Brasil. Mas você sabia que, além de não usar agrotóxicos, os orgânicos respeitam os ciclos de vida de animais, insetos e ainda por cima absorvem mais gás carbônico da atmosfera que a agricultura "tradicional"? Se toda a produção de soja e milho dos EUA fosse orgânica, cerca de 240 bilhões de quilos de gás carbônico seriam removidos da atmosfera. Portanto, incentive o comércio de orgânicos para que os preços possam cair com o tempo.

30. Ande menos de carro
Use menos o carro e mais o transporte coletivo (ônibus, metrô) ou o limpo (bicicleta ou a pé). Se você deixar o carro em casa 2 vezes por semana, deixará de emitir 700 quilos de poluentes por ano.

31. Não deixe o bagageiro vazio em cima do carro
Qualquer peso extra no carro causa aumento no consumo de combustível. Um bagageiro vazio gasta 10% a mais de combustível, devido ao seu peso e aumento da resistência do ar.

32.Mantenha seu carro regulado
Calibre os pneus a cada 15 dias e faça uma revisão completa a cada seis meses, ou de acordo com a recomendação do fabricante. Carros regulados poluem menos. A manutenção correta de apenas 1% da frota de veículos mundial representa meia tonelada de gás carbônico a menos na atmosfera.

33. Lave o carro a seco
Existem diversas opções de lavagem sem água, algumas até mais baratas do que a lavagem tradicional, que desperdiça centenas de litros a cada lavagem. Procure no seu posto de gasolina ou no estacionamento do shopping.

34. Quando for trocar de carro, escolha um modelo menos poluente
Apesar da dúvida sobre o álcool ser menos poluente que a gasolina ou não, existem indícios de que parte do gás carbônico emitido pela sua queima é reabsorvida pela própria cana de açúcar plantada. Carros menores e de motor 1.0 poluem menos. Em cidades como São Paulo, onde no horário de pico anda-se a 10km/h, não faz muito sentido ter carros grandes e potentes para ficar parados nos congestionamentos.

35. Use o telefone ou a Internet
A quantas reuniões de 15 minutos você já compareceu esse ano, para as quais teve que dirigir por quase uma hora para ir e outra para voltar? Usar o telefone ou skype pode poupar você de stress, além de economizar um bom dinheiro e poupar a atmosfera.

36. Voe menos, reúna-se por videoconferência
Reuniões por videoconferência são tão efetivas quanto as presenciais. E deixar de pegar um avião faz uma diferença significativa para a atmosfera.

37. Economize CDs e DVDs
CDs e DVDs sem dúvida são mídias eficientes e baratas, mas você sabia que um CD leva cerca de 450 anos para se decompor e que, ao ser incinerado, ele volta como chuva ácida (como a maioria dos plásticos)? Utilize mídias regraváveis, como CD-RWs, drives USB ou mesmo e-mail ou FTP para carregar ou partilhar seus arquivos. Hoje em dia, são poucos arquivos que não podem ser disponibilizados virtualmente ao invés de em mídias físicas.

38. Proteja as florestas
Por anos os ambientalistas foram vistos como "eco-chatos". Mas em tempos de aquecimento global, as árvores precisam de mais defensores do que nunca. O papel delas no aquecimento global é crítico, pois mantém a quantidade de gás carbônico controlada na atmosfera.

39. Considere o impacto de seus investimentos
O dinheiro que você investe não rende juros sozinho. Isso só acontece quando ele é investido em empresas ou países que dão lucro. Na onda da sustentabilidade, vários bancos estão considerando o impacto ambiental das empresas em que investem o dinheiro dos seus clientes. Informe-se com o seu gerente antes de escolher o melhor investimento para você e o meio ambiente..

40. Informe-se sobre a política ambiental das empresas que você contrata
Seja o banco onde você investe ou o fabricante do shampoo que utiliza, todas as empresas deveriam ter políticas ambientais claras para seus consumidores. Ainda que a prática esteja se popularizando, muitas empresas ainda pensam mais nos lucros e na imagem institucional do que em ações concretas. Por isso, não olhe apenas para as ações que a empresa promove, mas também a sua margem de lucro alardeada todos os anos. Será mesmo que eles estão colaborando tanto assim?

41. Desligue o computador
Muita gente tem o péssimo hábito de deixar o computador de casa ou da empresa ligado ininterruptamente, às vezes fazendo downloads, às vezes simplesmente por comodidade. Desligue o computador sempre que for ficar mais de 2 horas sem utilizá-lo e o monitor por até quinze minutos.

42. Considere trocar seu monitor
O maior responsável pelo consumo de energia de um computador é o monitor. Monitores de LCD são mais econômicos, ocupam menos espaço na mesa e estão ficando cada vez mais baratos. O que fazer com o antigo? Doe a instituições como o Comitê para a Democratização da Informática.

43. No escritório, desligue o ar condicionado uma hora antes do final do expediente
Num período de 8 horas, isso equivale a 12,5% de economia diária, o que equivale a quase um mês de economia no final do ano. Além disso, no final do expediente a temperatura começa a ser mais amena.

44. Não permita que as crianças brinquem com água
Banho de mangueira, guerrinha de balões de água e toda sorte de brincadeiras com água são sem dúvida divertidas, mas passam a equivocada idéia de que a água é um recurso infinito, justamente para aqueles que mais precisam de orientação, as crianças. Não deixe que seus filhos brinquem com água, ensine a eles o valor desse bem tão precioso.

45. No hotel, economize toalhas e lençois
Use o bom senso... Você realmente precisa de uma toalha nova todo dia? Você é tão imundo assim? Em hotéis, o hóspede tem a opção de não ter as toalhas trocadas diariamente, para economizar água e energia. Trocar uma vez a cada 3 dias já está de bom tamanho. O mesmo vale para os lençois, a não ser que você mije na cama...

46. Participe de ações virtuais
A Internet é uma arma poderosa na conscientização e mobilização das pessoas. Um exemplo é o site ClickÁrvore, que planta árvores com a ajuda dos internautas. Informe-se e aja!

47. Instale uma válvula na sua descarga
Instale uma válvula para regular a quantidade de água liberada no seu vaso sanitário: mais quantidade para o número 2, menos para o número 1!

48. Não peça comida para viagem
Se você já foi até o restaurante ou à lanchonete, que tal sentar um pouco e curtir sua comida ao invés de pedir para viagem? Assim você economiza as embalagens de plástico e isopor utilizadas.

49. Regue as plantas à noite
Ao regar as plantas à noite ou de manhãzinha, você impede que a água se perca na evaporação, e também evita choques térmicos que podem agredir suas plantas.

50. Frequente restaurantes naturais/orgânicos
Com o aumento da consciência para a preservação ambiental, uma gama enorme de restaurantes naturais, orgânicos e vegetarianos está se espalhando pelas cidades. Ainda que você não seja vegetariano, experimente os novos sabores que essa onda verde está trazendo e assim estará incentivando o mercado de produtos orgânicos, livres de agrotóxicos e menos agressivos ao meio-ambiente.

51. Vá de escada
Para subir até dois andares ou descer três, que tal ir de escada? Além de fazer exercício, você economiza energia elétrica dos elevadores.

52. Faça sua voz ser ouvida pelos seus representantes
Use a Internet, cartas ou telefone para falar com os seus representantes em sua cidade, estado e país. Mobilize-se e certifique-se de que os seus interesses - e de todo o planeta - sejam atendidos.

53. Divulgue essa lista!
Envie essa lista por e-mail para seus amigos, divulgue o link do post no seu blog ou orkut, reproduza-a livremente, e, quando possível, cite a fonte. O Mude o Mundo agradece, e o planeta também!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

É urgente rever os fundamentos

Por Leonardo Boff [Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009]

A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma intrasistêmica buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos e trabalhar sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nivel, a continuidade do projeto planetário humano.

Cada época histórica precisa de um mito que congregue pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador de método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.

Eis que, depois de mais de trezentos anos de exaltação da razão, assistimos a loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 paises mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global que trará desiquilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.

A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris) e de criticar seu estreitamento na capacidade de comprender.

O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M.Maffesoli), pela inteligência emocional (D.Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J.F.Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R.Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.

É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor canino de milhões de famélicos. Não é a razão fria mas a razão sensível que move as pessoas para tira-las da cruz e faze-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida, desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.

A sensibilidade, a cordialidade, o cuidado levados a todo os níveis, para com a natureza, nas relações sociais e na vida cotidiana, podem fundar, junto com a razão, uma utopia que podemos tocar com as mãos porque imediatamente praticável. Estes são os fundamentos do nascente paradigma civilizatório que nos dá vida e esperança.

http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=6373
Leonardo Boff

Natura é acusada de Biopirataria

Enviado em Notícias, Tradição Virtual, Biopirataria de Anderson Porto | 18 de Fevereiro de 2009 @ 11:00

Acusada de cometer biopirataria ao usar o ativo de murmuru (Astrocaryum ulei Burret), a indústria de cosméticos Natura enfrenta hoje uma audiência de conciliação na Justiça Federal, em Rio Branco (AC), decorrente de ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) em defesa dos índios ashaninka da aldeia Apiwtxa do Rio Amônea, na fronteira Brasil-Peru.

A ação do MPF, contra a exploração indevida de conhecimento tradicional ashaninka, começou em agosto de 2007. Ela também envolve o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), a Chemyunion Química LTDA, e o empresário Fábio Dias Fernandes, proprietário da empresa Tawaya, de Cruzeiro do Sul (AC), fabricante de sabonete de murmuru.

O MPF no Acre chegou a recomendar ao Inpi a suspensão do pedido de patente relativo à formulação do sabonete de murmuru, obtido a partir do conhecimento tradicional dos ashaninka. A patente de nº PI0301420-7 foi homologada pelo proprietário da empresa Tawaya.

De acordo com o MPF, a elaboração da manteiga de murmuru se deu mediante o acesso a conhecimentos tradicionais da comunidade, quando o empresário realizava projeto de pesquisa e levantamento de produtos florestais em parceria com a organização não-governamental Núcleo Cultura Indígena, sediada em São Paulo.

Ao final da pesquisa, Dias decidiu implantar a empresa de beneficiamento para produzir a manteiga de murmuru em escala industrial. Os índios forneceriam as sementes e teriam direito a 25% dos rendimentos obtidos pela empresa. Com isso, os ashaninka preocuparam-se em formar e capacitar a comunidade para exploração da semente de murmuru de forma sustentável, sem que o conhecimento da fabricação do produto fosse externalizado.


Murmuru: antepassado transformado em árvore

Inicialmente, a empresa Tawaya funcionava no Vale do Juruá, mas logo foi transferida para Cruzeiro do Sul, distante da área indígena, impedindo a comunidade de participar da fabricação. Tawaya é o nome que os ashaninka atribuem para o Rio Amôena, que foi percorrido durante as pesquisas feitas por Fábio Dias.

Uma vez iniciados os preparativos para a produção, o empresário passou a tratar os ashaninka como meros fornecedores de matéria-prima, deixando de cumprir com tudo que prometera durante os anos de convívio e de utilização do conhecimento tradicional da comunidade indígena.

O MPF sustenta que o empresário não tinha a necessária autorização para patentear o produto. A Medida Provisória nº 2.186/2001, que diz respeito à proteção ao conhecimento tradicional das comunidades indígenas e locais, associado ao patrimônio genético, anota o reconhecimento pelo estado do direito dessas comunidades para decidir sobre o uso de seus conhecimentos tradicionais, reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro.

Na ação civil pública, o procurador da República Lucas Perroni Kalil assinala que o conhecimento tradicional refere-se a todo conhecimento, inovações e prática das comunidades indígenas e locais, concebidas a partir da experiência empírica adquirida através dos séculos, e adaptado à cultura e aos entornos locais.

- O conhecimento tradicional se transmite por via oral, de geração em geração e tende a ser de propriedade coletiva. Adquire a forma de histórias, canções, folclore, refrões, valores culturais, rituais, leis comunitárias, idioma local e práticas agrícolas, inclusive de espécies vegetais e raças animais. O murmuru tem origem lendária para os ashaninka. Não se trata de uma simples árvore, mas sim de um antepassado que foi transformado em árvore - acrescenta Kalil.

Cacho de murmuru (Astrocaryum ulei Burret) separado entre frutos e raque (A); semente ou “caroço”(B); endosperma inteiro (C); endodosperma cortado, mostrando a parte interna (D) e endocarpo quebrado para se retirar o endosperma (E) - imagem cedida pelo botânico Evandro Ferreira, especialista em palmeiras, do blog Ambiente Acreano
Ligações perigosas

Os ashaninka fazem diversos usos da palmeira de murmuru. O caule da palmeira serve para a construção de casas. A árvore produz palmito usado como alimento. Dos lugares em que são extraídos os palmitos, surge uma seiva, que é usada como alimento e também, misturada com urucum, como pintura facial. As folhas e as cascas da palmeira são utilizadas no artesanato. O óleo da castanha, extraído por meio do uso de um pilão, misturado com água, serve de medicamento para feridas e coceiras.

O empresário é acusado de ter realizado bioprospecção utilizando o conhecimento tradicional como guia, valendo-se de séculos de experiências com o murmuru para obter um produto com finalidade comercial. De 120 componentes à base de plantas usados na produção farmacêutica mundial, 75%, em média, têm o seu derivado ou associado a plantas medicinais que sempre foram utilizadas por comunidades.

- Na pior das hipóteses, ainda que se admita, a título de argumentação, que os ashaninka nada sabiam sobre o uso emoliente do murmuru, ainda assim foi usado conhecimento tradicional sobre o manejo sustentável do murmuru, fato que Fábio Dias tanto se gaba na publicidade de seu sabonete - argumentar o procurador da República.

Embora negue, o MPF sustenta que a empresa Chemyunion passou também a explorar produtos fabricados a partir do murmuru, após tomar conhecimento das atividades de Fábio Dias, que confirmou em laboratório as características emolientes do murmuru em meados de 1996.

- Como empresas voltadas a esse ramo específico de atuação, sempre atentas a “novidades” deste naipe, as demais demandadas privadas (Chemyunion e Natura) certamente passaram a estudar o uso de murmuru em seus produtos após a confirmação do demandado Fábio - afirma Kalil.


Reparação equânime de benefícios e de dano moral coletiv
o
Segundo o MPF, embora negue, a Natura Cosméticos S.A. acessou conhecimento tradicional sobre o murmuru. Em correspondência à Procuradoria da República, a empresa disse que utilizou “como fonte de informação de aplicação do ativo murmuru” obra de Barrera-Arellano. Segundo a Natura, ele seria o químico “inventor” da utilização de óleo e gordura de murmuru em pedido de patente formulado pela Chemyunion Química.

- Ademais, não é digno de crença que, como gigante do ramo, a Natura não tivesse obtido dados a partir dos resultados das pesquisas junto aos ashaninka - afirma o procurador da República.

O MPF pleiteia a reparação equânime dos benefícios e reparação de dano moral coletivo, sendo que o valor de indenização que venha a ser definido pela Justiça Federal seja destinado metade ao Fundo Federal de Direitos Difusos e metade à Apiwtxa, associação que representa o povo ashaninka do Rio Amônea.

O Inpi foi envolvido pelo MPF na ação civil pública porque não acatou recomendação para suspender o pedido de patente relativo a formulação do sabonete de murmuru. O MPF tenta convencer o Inpi a conferir patente ou registro aos seus pleiteantes daquilo que tiver sido originado a partir de acesso ao conhecimento tradicional somente após informada a origem do conhecimento tradicional e realizada a repartição equânime dos benefícios.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Romaria da Terra relembra desastre ambiental no Rio do Sinos

Chasque Agência de Notícias
Reportagem: Raquel Casiraghi

Com o tema "Água, Sangue da Terra", a 32ª Romaria da Terra relembra a impunidade que marcou as investigações sobre a poluição do rio do Sinos. Mais de 100 toneladas de peixe foram encontrados mortos há dois anos atrás. Expectativa é de que 20 mil romeiros e romeiras participem da atividade no próximo dia 24, em Sapucaia do Sul (RS)

Porto Alegre (RS) - A impunidade que marcou o desastre ambiental cometido no Rio do Sinos motivou a 32ª Romaria da Terra. Com o tema "Água, Sangue da Terra", neste ano a romaria acontece na cidade de Sapucaia do Sul (RS), na região metropolitana. A expectativa é de participem 20 mil romeiros e romeiras de todo o Rio Grande do Sul.

A coordenadora estadual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Terezinha Sallet Ruzzarin, reclama que depois de dois anos do desastre, ninguém foi responsabilizado. No final de 2006, 102 toneladas de peixes foram encontrados mortos no rio, caracterizando o maior crime ambiental nas últimas décadas na região.

"Faz dois anos daquele crime ambiental cometido do Rio do Sinos. Foram identificadas três grandes poluidoras, mas nenhuma delas foi punida. Ficou o dito pelo não-dito, mas os malefícios continuam aí, continuam presentes. E a nossa expectativa não é das melhores, porque o descaso é total. Não há cobrança disso aí e no Cristão permanece essa angústia", argumenta.

Para chamar a atenção para a importância de preservar nossas fontes de água, como rios e lagos, cada romeiro levará uma garrafa de água limpa, que será derramada no rio do Sinos no final da caminhada. No entanto, Terezinha alerta que não é só a poluição que degrada a água. Ela aponta também atividades econômicas, como a monocultura de eucalipto, e a falta de posturas mais enérgicas dos governos.

“O zoneamento ambiental, que não foi feito na questão dos eucaliptos, agora está invadindo a retirada de areia dos nossos rios”, diz.

A Romaria inicia às 08:30h da próxima terça-feira (24) em frente à Igreja Sagrada Família, no bairro Colonial, em Sapucaia do Sul. Os romeiros irão caminhar em torno de 2 km até o Pesqueiro, onde ocorre uma celebração ecumênica e a partilha dos alimentos. A 32ª Romaria da Terra é organizada pela CPT, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Dioceses gaúchas.

No ano passado, a Romaria ocorreu na cidade de Três Passos, na região Celeiro, e teve como tema a Juventude.

Por que Yeda acabou com a Escola Itinerante?

http://www.capuchinhosrs.org.br/artigos.php
Yeda proibiu a educação nos acampamentos do MST porque a "missão" do seu governo é enfraquecer a organização do povo, criminalizar as instituições que garantem a vigência da Democracia em nosso Estado.

Se me perguntarem quantos prêmios a governadora do Estado recebeu pelo seu trabalho em favor da Educação, sinceramente, não saberia responder. Parece-me que ela, a Yeda Crusios, nunca fez nada de bom para a Educação ao ponto de ser premiada. Mas, quanto ao MST, a resposta é diferente. O Movimento dos Sem Terra, o MST, já recebeu vários prêmios por seu bom trabalho realizado na área de Educação. Vamos lembrar de, pelo menos, dois. Em novembro de 1999 o MST recebeu o Prêmio Itaú-Unicef "Por uma Educação Básica no Campo" e em 1995 recebeu o prêmio "Por uma Escola de Qualidade no Campo". O MST, um movimento social que muito fez pela educação, acabou entrando em disputa pela questão da educação com uma governadora que nada de bom realizou nesta área. E, com o apoio de uma parcela do Ministério Público, a governadora Yeda venceu a batalha. E os perdedores, nesta batalha, são crianças, cujos pais não tiveram acesso a terra. E agora o poder público nega para seus filhos o direito à educação.

Em se tratando de educação, é inacreditável que uma governadora como esta tenha vencido o MST. Não podemos comparar a importância do MST para a educação com a tranqueira que esta governadora representou para a educação no Rio Grande do Sul. Se andássemos pelos assentamentos perguntando quem aprendeu a ler e a escrever na Escola Itinerante do MST, com certeza encontraríamos milhares de jovens e adultos confirmando com orgulho que foram alfabetizadas numa escola coberta de lona.

A governadora e o Ministério Público deveriam agradecer ao Movimento Sem Terra por tantos milhares de pessoas alfabetizadas na Escola Itinerante. Pessoas que não apenas aprenderam a ler e a escrever, mas descobriram que poderiam reescrever suas histórias e redesenhar a sociedade. São pessoas que aprenderam a ler muito mais que o alfabeto, e sabem compreender a realidade e o que dela deve ser transformado. Os estudantes da Escola Itinerante tiveram aulas de cidadania e não receberam apenas um certificado escolar, mas reconquistaram o título de cidadão consciente, livre e transformador.

É lamentável que o poder público, por pura truculência e perseguição ideológica, tenha acabado com a Escola Itinerante. E o que é pior, isto aconteceu como parte das ações da melancólica ideia de banir o Movimento dos Sem Terra, defendida por um grupo radicalmente ideológico de promotores e procuradores de Justiça do Estado e o governo da Yeda Crusius do PSDB. Impressionante como que um governo tão manchado pela falta de ética e moralmente destruído, se atreve a tomar uma atitude profundamente impopular como esta de acabar com a Escola Itinerante. Então, fica o questionamento.

Por que um governo que não se aguenta a si próprio no lamaçal da corrupção, ainda segue com ações antidemocráticas e com um caráter declaradamente ideológico? Entendemos que este governo não veio para edificar, mas para destruir o que já foi feito como conquista popular.

Ao acabar com a Escola Itinerante, Yeda mostra para que veio. Ela proibiu a educação nos acampamentos do MST porque a "missão" do seu governo é ser uma tranqueira para os movimentos sociais e populares e para o progresso humano e social. Querem enfraquecer a organização do povo, criminalizar as instituições que garantem a vigência da Democracia em nosso Estado. Fechar a Escola Itinerante, vergonhosamente, faz parte da estratégia antidemocrática de criminalizar e até banir o MST no Rio Grande do Sul.

Uma atitude dessas, após mais de duas décadas do fim da ditadura militar, nos indica que o governo Yeda e esta parcela do Ministério Público que está com ela, ainda estão com a cabeça, a alma e o coração empedrados com as ideologias da tirania militar que governou o Brasil a partir de 1964 até a poucos anos.

Frei Pilato Pereira

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O adeus ao Adão

Abaixo um vídeo gravado em 2007, em Curitiba, em uma reunião que ocorreu na ONG Terra de Direitos. A gravação nos mostra um pouco da ação e do pensamento do Deputado Adão Pretto, além da sua simpatia. E, a seguir, um depoimento pessoal, emocionado, do nosso companheiro Gervásio Paulus, sobre a morte e a vida de Adão Pretto.



Gervásio Paulus
Extensionista rural e Presidente da
ASAE - Associação dos Servidores da Ascar/Emater


Tive oportunidade de acompanhar, assim como vários companheiros nossos, algumas das manifestações feitas ontem e hoje nas homenagens ao Adão Pretto, que passou para outra dimensão da existência no dia de ontem, como todos por certo sabem. No velório estavam muitas lideranças e militantes dos movimentos sociais, particularmente do MST e da Via Campesina, além de políticos e religiosos, como Dom Tomás Balduino, Suplicy, Rosseto, Olívio, Lula e vários ministros.

Em sua fala, o Darci Maschio, por exemplo, liderança nacional do mst, assentado da Fazenda Annoni, lembrou os primeiros tempos de organização do movimento, quando iam a pé pelas comunidades, e a insistência do Adão em fazer sempre uma reunião depois de cada reunião no interior, para ver se o povo havia compreendido a mensagem, se teve chance de participar, se a reunião ajudou a aumentar o grau de consciência e de organização de quem participou. Antônio Marangon disse que Adão Pretto não defendia a Reforma Agrária e os movimentos sociais, mas ele era isso, encarnava isso em sua vida. Outros militantes se sucederam lembrando passagens da trajetória do Adão. Dom Balduíno destacou que Adão foi um camponês que se tornou deputado por várias legislaturas, mas que não ficou rico com isso, diferentemente de outros políticos. E pediu que a governadora Yeda fizesse uma homenagem a Adão, em vez de decretar luto oficial, parasse com a repressão aos movimentos sociais, no que foi longamente aplaudido. O Olívio lembrou, emocionado, que quando conheceu o Adão, ainda não existia MST, nem PT, nem CUT, mas que a semente estava sendo preparada para germinar e que o companheiro Adão sempre foi um semeador. E o Lula disse que foi um exemplo raro que conseguiu provar que é possível um agricultor simples, camponês, ser um guerreiro, tornar-se um parlamentar, e manter a mesma postura e coerência, e destacou o jeito de fazer política com paixão, com alegria, que o Adão fazia. Dos dos 9 filhos e esposa do Adão, o Edegar falou em nome da família e disse que o pai era do mesmo jeito que o político, espontâneo e alegre sempre. Leiam também o depoimento do Elvino, que foi divulgado nesta rede.

Na saída, encontrei-me com o Nilton, que além de lembrar alguns dos tantos projetos que o Adão viabilizou através de seu mandato dedicado integralmente a serviço dos movimentos sociais, disse algo que me fez refletir. Tudo o que aqui foi dito a respeito do Adão é a mais pura verdade, nada foi dito por hipocrisia, lembrou muito bem o Nilton. Isso me fez lembrar daquele dito de que existem homens que tem grandes idéias, e existem alguns que são tão grandes quanto o são suas idéias.

Conheci o Adão Pretto quando fazia Agronomia na UFSM e, junto com um pequeno grupo de estudantes, militamos no GAMST e começamos a fazer estágios em assentamentos de Reforma Agrária (Tupã e, no meu caso, Erval Seco). Lembro o entusiasmo do Mauro, um dos primeiros técnicos a trabalhar em assentamentos no estado e talvez no Brasil. Em 1986 saíamos, o João Erculano, o Lauro, a Suzana, e outros "pombalinos", de casa em casa pelas vilas de SMaria, fazer campanha pro Adão, Marangon e Olívio. Percebo agora que havia em nós naquela época um tanto de espontaneísmo e até de ingenuidade, mas seguramente compensado por um idealismo e um desprendimento próprios dos estudantes.

Depois de formados vários de nós trabalhamos com assentamentos de Reforma Agrária e vivenciamos uma realidade da qual a academia estava muito distante. No meu caso, jamais irei negar que aprendi muito com as famílias acampadas e assentadas na Fazenda Anoni.

Desculpem este já longo relato em tom pessoal e de desabafo, eu apenas queria repartir com vocês esse sentimento, ao mesmo tempo de uma certa tristeza mas também de profunda gratidão pela oportunidade de viver esse tempo, e também partilhar um sentimento de esperança e de ânimo, porque pessoas como o Adão nos deixam com sua trajetória de vida, enfrentando tudo que enfrentaram, com determinação e coragem, uma clara mensagem de que vale a pena lutar por nossos ideais, acreditar sempre em nossos sonhos e participar da construção coletiva de um novo mundo possível.

Há braços solidários,
Gervásio.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Companheiro Adão Pretto

Esse poema foi dito por João Pedro Stedile, integrante da coordenação nacional do MST, hoje, no Parque Jardim da Paz. A leitura foi durante o sepultamento do Deputado Adão Pretto, um dos fundadores do MST e valoroso lutador em defesa das causas do povo gaúcho e brasileiro.

Como soldados em terras perseguidas, trilhamos as mesmas serras e campos. Sem estradas.
Você foi na frente abrindo as picadas e nos alertando dos cuidados.
Crescemos, com o espírito, revoltado, buscando com as massas as soluções.
Vencemos, tempestades, e frustrações, sem nunca perder de vista a utopia pendurada no horizonte.
Bebemos, a água límpida das fontes, de nossos formadores que plantaram nas montanhas, o otimismo.
Defendemos com eles o socialismo. E todas as conquistas verdadeiramente humanitárias.
Cerzimos as costuras da reforma agrária, em todos os recantos das belas terras brasileiras.
Plantamos esperanças em todas as trincheiras, sem nunca rejeitar nenhuma missão.
Cantamos a revolução, em versos, trovas e poesias. Sem nunca tropeçar na métrica das rimas.
Cultivamos os valores e os ideais, procurando por em ordem o comportamento e a coerência.
E, juramos com a força da consciência, de jamais se render, vender ou se deixar cooptar.
Agora, nesta hora, no momento de partida, não queremos que seja uma despedida, mas um compromisso de continuidade.
Continuarás presente em todos os momentos, principalmente em nossas lutas e movimentos, que se orgulham de tê-lo gerado, como um dos filhos mais queridos do povo brasileiro.

Um abraço de cada militante e de todos nós!

Parque Jardim da Paz, 06 de fevereiro de 2009.
Poema de Ademar Bogo

MST está de luto

Nota de Solidariedade e Pesar

Por Michelle Amaral da Silva
Brasil de Fato

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) manifesta publicamente seu pesar pelo falecimento do companheiro deputado federal Adão Pretto, soma-se e se solidariza com a família neste momento de perda para a sociedade brasileira.

Desde o início de sua militância social nas Comunidades Eclesiais de Base e no Sindicalismo Rural, Adão Pretto caracterizou-se pela defesa intransigente da reforma agrária, tendo papel destacado na articulação das famílias de trabalhadores sem terras e de apoiadores desde as primeiras ocupações de terra no Rio Grande do Sul, ainda durante o Regime Militar. Esteve presente na organização e fundação do MST, do Partido dos Trabalhadores e do Departamento Rural da Central Única dos Trabalhadores.

No Congresso Nacional, denunciou e combateu as ações da bancada ruralista, e tornou-se um dos pilares do Núcleo Agrário do Partidos dos Trabalhadores. Apresentou Projetos de Lei que buscavam acelerar o processo de reforma agrária, permitir o acesso à educação para os camponeses e melhorar a qualidade de vida no campo. No último ano, esteve empenhado em denunciar a alteração da faixa de fronteira para beneficiar a instalação de empresas transnacionais da celulose no Rio Grande do Sul.

Mais que um parlamentar, Adão sempre foi um camponês, com seu jeito simples, honesto e contundente, mas acima de tudo um lutador. Sempre presente nas lutas dos movimentos sociais, sempre levando as reivindicações e bandeiras populares para o parlamento, denunciando a criminalização e a repressão da luta do povo.

No ano em que completamos 25 anos, perdemos um de nossos fundadores e um de nossos mais valorosos companheiros. Em sua homenagem, seguiremos fazendo aquilo que Adão Pretto sempre fez em vida: lutar sempre.


Coordenação Nacional do MST

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A utopia do desenvolvimento sustentável e suas implicações no imaginário coletivo

Por Ilese Schmidt
Integrante do Coletivo Desenvolvimento Sustentável do
Semapi Sindicato

"A evolução social depende fortemente do modelo civilizatório que a sociedade adota (embora não conscientemente) em determinados momentos cruciais de sua história. Por isso, para compreender o presente é necessário abrir uma ampla perspectiva de análise que possa contextualizá-lo adequadamente”. (Leis, Héctor)


Introdução

A Revolução Industrial e seu Impacto na Natureza – um pouco de história

A Revolução Industrial designa um processo de profundas transformações econômico-sociais que se iniciou, principalmente, na Inglaterra, em meados do século XVIII. Caracteriza-se pela passagem da manufatura à indústria mecânica com a introdução de máquinas fabris multiplicando o rendimento do trabalho e o aumento da produção global.

A Inglaterra adianta sua industrialização em 50 anos em relação ao continente europeu e sai na frente na expansão colonial. Nasce a sociedade industrial. Entre as principais características da sociedade industrial, podemos citar: a organização das mais diversas atividades humanas pelo capital; a predominância da indústria na atividade econômica e o crescimento da urbanização. Vários historiadores têm dividido o processo de criação das sociedades industriais em duas fases, a primeira com duração de 1760 a 1860 e a segunda iniciada por volta de 1860. A velha Europa agrária foi se tornando uma região com cidades populosas e industrializadas. O processo de industrialização entrou num ritmo acelerado, envolvendo os mais diversos setores da economia (na segunda fase da Revolução), com a difusão do uso do aço, a descoberta de novas fontes energéticas, como a eletricidade e o petróleo, e a modernização do sistema de comunicações. Assim a expansão industrial logo ativaria a disputa por novos mercados fornecedores de matérias-primas e consumidores de gêneros industrializados resultando no que se denominou neo-colonialismo.

A necessidade de ampliar os limites de suas relações comerciais e desenvolver mercados em outros continentes os países envolvidos nesse processo, como por exemplo: a Inglaterra, a França, Estados Unidos, a Alemanha, Japão e outros, aumentavam com rapidez a exploração de seus recursos minerais e fontes de energia, aumentando dessa forma a produção.

A crescente urbanização, o aumento progressivo da produção, a exploração dos recursos naturais sem critérios e a necessidade de consumo dos bens produzidos são algumas das conseqüências desse processo iniciado no século XVIII.

Um ideal filosófico – a modernidade

A Revolução Industrial veio consolidar o ideário da Modernidade e o sistema de organização social conhecido como Capitalismo.

A Modernidade refere-se a um “estilo, costume ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII, e que ulteriormente se tornou mundialmente influente”. As idéias principais associadas a esse novo estilo de vida são:

1.a idéia de progresso, considerando o novo melhor ou mais avançado que o antigo;
2.a valorização do indivíduo, ou da subjetividade, como lugar da certeza e da verdade, e origem dos valores;
3.a capacidade de estabelecermos verdade absolutas e inquestionáveis;
4.a objetividade;
5.e, no nosso caso, a principal característica a ser considerada: a razão.


A Razão

Muitos autores, entre eles: Max Weber, Max Horkheimer e Jüergen Habermas preocuparam-se em desvendar as novas bases da sociedade moderna, distinguindo uma nova forma de razão:

A Razão instrumental

A razão instrumental é aquela em que a ação racional mantém relação com os fins. O indivíduo passa a orientar sua ação pelos fins, sendo que os meios e as conseqüências ficam na forma secundária.

A razão instrumental nasce na crença de que exista um sujeito do conhecimento e quando este sujeito toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a NATUREZA e os SERES HUMANOS. Passando a ser um instrumento de dominação, poder e exploração.

Concluindo, a Revolução Industrial com bases filosóficas na Modernidade, trouxe um modelo sócio-econômico de exploração permanente e indiscriminada do ambiente e da natureza. A relação do homem passou a ser predatória e intencional, justificada pela necessidade de progresso e avanço social e econômico. Em outras palavras o homem atribuiu ao desenvolvimento, com base em uma ética do individualismo e do crescimento econômico, a solução de todos os problemas da vida social e do próprio homem e o seu destino natural.

Da sociedade de produção para a sociedade de consumo

A partir da Revolução industrial que propunha uma sociedade mais justa, com maior produtividade e benefícios para todos, o século XX avançou alterando uma sociedade dita de produção para uma considerada de consumo. Afinal os bens produzidos em larga escala, agora, precisavam ser consumidos. A produção exacerbada e sem limites dimensionados, pela crescente e indiscriminada industrialização, mercantilismo e liberdade capitalista só gera o consumo predatório e desenfreado que constatamos. É uma relação diretamente proporcional. E insistirmos na idéia de consumo é, em outras palavras, insistirmos na destruição do planeta e da vida. Esta análise é crucial quando queremos identificar as relações imbricadas nesta rede que, naturalmente visualizamos: desenvolvimento-produção-consumo. Há uma relação direta e as mudanças que precisamos orienatr são de ordem sócio-econômicas e políticas associadas a mudanças comportamentais e ético-valorativas. Anular uma destas proposições seria insistir no modelo dos chamados “ecocapitalistas”, aqueles defensores da sustentabilidade orientada pelos próprios agentes de mercado. A compilação abaixo avalia o processo histórico iniciado após o marco da modernidade e sua utilização pelo modelo capitalista orientado para a produção e o consumo:
“Um tempo marcado por paradoxos onde convivem situações contrastantes de riqueza, fome e exclusão; de alta tecnologia e ameaças e riscos tecnológicos; de avanço científico, grandes incertezas e degradação ambiental; de alta longevidade e descarte dos idosos; de profusão de equipamentos comunicacionais e empobrecimento do diálogo e da comunicação real; de globalização e maior interdependência material e econômica associadas ao crescimento do individualismo e da solidão; de expansão da esfera pública e perda de credibilidade na política; de secularização crescente da vida social e multiplicação de novas espiritualidades; de complexificação dos problemas e reducionismos na compreensão; de muita atenção sobre os meios técnicos para satisfazer os objetivos de conquista de riqueza, do poder e do sucesso e escassa discussão sobre seus significados para os indivíduos e coletividades e sobre as alternativas possíveis de projetos civilizatórios e sociais.” (Leonardo Boff, Anthony Giddens, Ulrich Beck)

Representações, crenças e imaginário social

Nietzsche, segundo Viviane Mosé, nos traz o questionamento do que sejam os valores. Melhor, ele pergunta da existência mesma dos valores o que implica em suspeitar do valor dos valores. Quando afirma que a verdade é um valor ele nos revela que a verdade é uma idéia, uma construção do pensamento, ela tem história. Em Genealogia da Moral, ele afirma que “precisamos conhecer as circunstâncias em que os valores nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram”. Os valores são circunstanciais, não há uma verdade originária. Pelo contrário, os valores, e desta forma a verdade, são criações humanas e respondem ao jogo de forças temporal da história.

A linguagem, considerada como uma ferramenta para comunicar idéias, está constituída dentro deste arcabouço de construção que veio a efetivar comportamentos preponderantes e formas de poder. Na medida em que ela, a linguagem, naturaliza relações de dominação uma vez que o entendimento dos significados e sentidos decorrem de intervenções humanas, de intenções de construção de valores, de sentido e de representações das experiências adquiridas no agir social(Hall apud Santana, 2000).

Para Fiorin, a partir do nível fenomênico da realidade, constroem-se as idéias dominantes numa dada formação social. Essas idéias são racionalizações que explicam e justificam a realidade. Na sociedade capitalista, a partir do nível aparente, constroem-se os conceitos de individualidade, de liberdade como algo indivi¬dual etc.

Aparecem as idéias da desigualdade natural dos ho¬mens, uma vez que uns são mais inteligentes ou mais espertos que os outros. Daí se deduz que as desigualdades sociais são na¬turais. Outras idéias pias, presas às formas fenomênicas da rea¬lidade, vão construindo-se: a riqueza é fruto do trabalho (só se omite que é fruto do trabalho dos outros); pobres e ricos vão sempre existir; a pobreza é uma bênção, pois a riqueza só traz preocupações.

Assim perseverar na utilização de expressões como “consumo consciente” ou “desenvolvimento sustentável” como possibilidade de intervir na forma danosa que se configurou a ação do homem junto à natureza parece-me uma abreviatura deste mal necessário que se constituiu a produção, o desenvolvimento, o consumo e a desordem da vida neste planeta. Como provável sugestão insinuo que devemos, como tantos autores já o fizeram, inverter a lógica estabelecida e traçarmos novos capítulos da história pautados numa “ética da vida”. Estabelecermos a VIDA como ponto de partida e chegada. Ancorarmos nossos preceitos na sustentação do que é imprescindível a todos que compõe o tecido social e a tudo aquilo que existe antes mesmo da sua concepção: o ambiente – este planeta. E como já vimos, para utilizarmos da linguagem para perpetuarmos novas crenças, deixo a provocação de utilizarmos a expressão “ação pela vida”, ao invés de consumo consciente e/ou desenvolvimento sustentável.

REFERÊNCIAS

1.Fiorin, José Luís Linguagem e Ideologia.
2.Giddens, Anthony. As Conseqüências da Modernidade.
3.Leis, Héctor. A Modernidade Insustentável.
4.Marcondes, Danilo. Iniciação à História da Filosofia.
5.Mosé, Viviane.Nietzsche e a grande política da Linguagem.
6.Santana, Leila Navarro. Identidade do corpo: uma questão de interpretação.
7.Silva, Sérgio Luís. Razão Instrumental e Razão Comunicativa

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2009 - Seminário internacional discute economia solidária no século 21.

“Cobertura FSM2009″ Seminário internacional da ABESOL discute economia solidária e o socialismo do século 21 (Economia Solidária RS/Post 190)

A construção de uma globalização solidária, que respeite os direitos humanos universais, com livre circulação dos povos e dos saberes, é o grande desafio a ser encarado por todos aqueles que vêm contribuindo para a consolidação do Fórum Social Mundial (FSM) como espaço de antagonismo, mas também de proposições. Quando o FSM nasceu, em 2001, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, o neoliberalismo ainda era cantado em prosa e verso e o pensamento único vicejava nos quatro cantos do mundo. Oito anos depois, a doutrina do livre mercado não só perdeu força como está em descrédito com a ruína do sistema financeiro internacional.

É nesse contexto que será realizado o “Seminário Internacional Economia Solidária e a Revolução Social Socialista no Século 21”, como parte da programação do FSM 2009. O seminário marca os 10 anos da publicação de Uma utopia militante - Repensando o socialismo, do professor Paul Singer, atual secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (Senaes/MTE). A conferência será realizada a partir da exposição, pelo professor Singer, da tese que compõe a sua obra Uma Utopia Militante. Participam do evento, como debatedores, Thomas Coutrot (França) e Rosa Guillén, da Red Latinoamericana Mujeres Transformando a Economía (REMTE) do Peru. O Seminário será realizado dia 30, das 15h30min às 18h30min, na sala 001 do Prédio Central (bloco C), na Universidade Federal Rural do Pará (UFRPA).

A reflexão de Singer sobre a Economia Solidária, na atualidade, está inserida em sua tese sobre a Revolução Social Socialista. A partir de sua caracterização como prática que surge dos(as) próprios(as) trabalhadores(as) no contexto do capitalismo contemporâneo, essa “outra economia” possibilita o surgimento de novos paradigmas e estratégias para construção do socialismo ao resgatar temáticas que foram suprimidas do pensamento socialista mais ortodoxo, como a economia dos livres produtores associados.

O “Seminário Internacional Economia Solidária e Revolução Social Socialista no Século 21” é promovido pela Associação Brasileira de Entidades de Apoio e Fomento à Economia Solidária (Abesol), instituição criada em 2007 e que congrega 17 entidades em nove estados brasileiros.

Seminário Internacional
A Economia solidária e a Revolução Social Socialista do século XXI
Painel de abertura: Prof. Paul Singer
Exposição da tese que compõe sua obra: Uma utopia militante - Repensando o socialismo, e debate com teóricos(as) sobre o papel da Economia Solidária na construção de uma sociedade socialista.

Debatedores: Thomas Coutrot- Economista - Attac/França
Rosa Guillén- Red Latinoamericana Mujeres Transformando la Economía-REMTE/ Peru
Data: 30/01/2009- sexta-feira- 15h30min às 18h30min
Local: UFRA - Prédio Central - Bloco C , Sala 001

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

FSM: O Ano do Futuro

DEBATE ABERTO

Os acontecimentos que marcam o início de 2009 são de tal modo importantes que se o mundo não puder conhecer a posição do Fórum Social Mundial sobre eles é possível prever que o FSM corre o risco de se tornar irrelevante.

Boaventura de Sousa Santos

A grande mídia divulgou à saciedade o diagnóstico da situação mundial feita pelo Forum Econômico Mundial (FEM) na sua reunião deste ano. É um diagnóstico sombrio que coincide em muitos pontos com os diagnósticos feitos pelo Fórum Social Mundial (FSM) em suas sucessivas edições desde 2001. Não interessa saber se o FSM teve razão antes do tempo ou se o FEM tem razão tarde de mais. Interessa, sim, refletir sobre o fato de o FSM não ter tido a influência ou exercido a pressão que se desejaria sobre os decisores políticos. Em parte, isso deve-se a uma opção do FSM: ser um espaço aberto a todos os movimentos e organizações que lutam de forma pacífica por um outro mundo possível, sem deixar que tal abertura seja comprometida por decisões políticas, nunca possíveis de obter por consenso.

Sempre defendi que esta opção, sendo acertada, não devia ser assumida de forma dogmática. Deveria ser possível identificar, em cada momento histórico, um pequeno conjunto de temas sobre os quais fosse possível identificar ou gerar um grande consenso. Sobre eles, o FSM, enquanto tal, deveria tomar uma posição que seria assumida por todos os movimentos e organizações que participam no FSM, dando assim origem a agendas parciais mas consistentes de políticas nacionais- globais. Os acontecimentos que marcam o início de 2009 parecem dar razão a esta posição. Eles são de tal modo importantes que se o mundo não puder conhecer a posição do FSM sobre eles é de prever que o FSM corra o risco de se tornar irrelevante. Passo a mencionar alguns desses acontecimentos.

A tragédia de Gaza. Está demonstrado que foram cometidos crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante a mais recente invasão israelita da faixa de Gaza. Que consequências retira o FSM deste fato? Que medidas propõe para que estes crimes não fiquem impunes?

China ou Suma Kawsay? É verdade que o neoliberalismo não foi morto pelo ativismo do FSM. Cometeu suicídio. Isso está patente nas pseudo-soluções que se apontam para o desastre. Uma coisa é certa: os cidadãos do mundo sabem como os Estados protegem os bancos; só não sabem como protegem as pessoas. Sobre as muitas dimensões da crise o FSM tem uma reflexão consistente. Qual a posição do FSM? De um lado, as economias centrais imploram à China que “forcem” os seus cidadãos a consumir, mesmo sabendo que se os níveis de consumo atingissem os da Europa e da América do Norte seriam precisos três planetas para garantir a sustentabilidade do único planeta que temos.

Do outro lado, e bem nos antípodas desta proposta, o notável protagonismo dos povos indígenas do continente americano tornou possível que as suas concepções de desenvolvimento em harmonia com a natureza fossem consagradas nas Constituições da Bolívia e do Equador. Trata-se do princípio de “viver bem”, o Suma Kawsay dos Quechuas ou o Suma Qamana dos Aymaras. De que lado está o FSM?

Cuba: cinquenta anos de futuro? A Revolução Cubana celebra este ano o seu cinquentenário. A Europa e a América do Norte podiam ser o que são hoje sem a revolução cubana, mas o mesmo não se pode dizer da América Latina, África e Ásia, ou seja, das regiões onde vive 85% da população mundial. Cuba deseja a solidariedade crítica do mundo progressista para superar uma situação que, a não mudar, é inviável enquanto solução socialista. Onde está a solidariedade do FSM? Onde está a crítica?

O Comando Africano (AFRICOM). Começou a ser visível a interferência do Comando Africano, recentemente criado pelo Departamento de Defesa dos EUA, na política de vários países africanos. É de prever e temer a crescente tensão militar no continente. Será este um tema em que o FSM pode ter razão a tempo e dar a conhecer ao mundo a sua posição?

O fim do 11 de Setembro. Que há de comum entre a decisão do Presidente Obama de encerrar a prisão de Guantánamo e suspender os julgamentos e a decisão do Ministro Tarso Genro de conceder asilo ao ex-militante esquerdista Cesare Battisti? São duas decisões corajosas dos governos de dois países importantes (o primeiro em declínio, o segundo em ascensão), assinalando ao mundo que a vertigem securitária que assolou o mundo depois do 11 de Setembro chegou ao fim. A melhor segurança cidadã é a que decorre do primado do direito e do aprofundamento da democracia. A justiça de exceção está para a justiça como a música militar (sem ofensa) está para a música clássica. O mundo tem direito a saber que medidas vai tomar o FSM para apoiar estas decisões, que, como é de esperar, terão os seus detractores.

NOTA DA REDAÇÃO: O livro mais recente de Boaventura de Sousa Santos se intitula Vozes do Mundo, publicado pela Civilização Brasileira.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)

Matéria retirada da Agência Carta Maior

Com derrocada do neoliberalismo, FSM deve apresentar perfil anticapitalista



por Michelle Amaral da Silva última modificação 27/01/2009 12:07
Para membros da organização, principal desafio é relacionar crise financeira com danos ao meio-ambiente

Renato Godoy de Toledo
da Redação

Entre 27 de janeiro e 1º de fevereiro, mais de 4 mil entidades de cerca de 150 países devem promover discussões com intuito de formular alternativas ao livre comércio, às formas de produção poluentes e, por fim, fomentar a idéia de uma nova sociedade.

Esse último objetivo, aliás, tornou-se ainda mais premente com a exposição dos limites do capitalismo com a decorrência da crise financeira mundial, que teve seu estopim em 2008 e ainda não dá sinais de quando deve terminar.

O principal desafio da 9ª edição do Fórum Social Mundial, que será realizado pela primeira vez em Belém (PA), é relacionar os debates acerca dos modelos de produção com impactos ambientais e climáticos reduzidos com a necessidade de transformação radical do sistema econômico e social.

Para isso, a capital paraense, porta de entrada da Amazônia, apresenta um cenário que contribui para tais reflexões, já que nessa região os limites do sistema estão expostos, com a devastação ambiental promovida pela busca do lucro – grosso modo, o objetivo máximo do capitalismo.

Também se torna simbólico o fato de 27% da região ser composta por territórios indígenas, com 522 povos de diferentes etnias. De acordo com a organização, a participação indígena nessa edição deve ser a maior da história do FSM, com cerca de 3 mil representantes. (Leia matéria abaixo)

Fim do neoliberalismo

Entre duas ativistas da organização do FSM, atuantes desde a primeira edição, há uma opinião de que a edição pan-amazônica pode representar um salto qualitativo em termos políticos. “Desde a primeira edição [em 2001], conseguimos que o Fórum tivesse um perfil anti-Davos [sede do Fórum Econômico Mundial]. Conseguimos mostrar ao mundo que havia uma voz que discordava do pensamento único. O Fórum teve uma primeira edição forte, acompanhando o ascenso do movimento global, que teve seu ápice em Seattle [em 1999, em atos contra a OMC]. No entanto, o 11 de setembro em 2001 foi uma rasteira muito grande nesse movimento, que apresentou um refluxo. Mas o Fórum mostrou muito dinamismo e deu a volta por cima”, avalia Fátima Melo, diretora da Fase, entidade que integra o Fórum Social Mundial.

Na análise de Melo, os esforços dos movimentos sociais aglutinados no Fórum obtiveram resultados importantes, como a eleição de governos progressistas na América Latina. “O Evo Morales é claramente um resultado político do Fórum. Agora, há um grande desafio colocado para essa edição: passar de um perfil antineoliberal para anticapitalista. É muito positivo que estejamos na Amazônia, pois lá torna-se mais evidente os limites do sistema”, pontua Melo, baseando-se nos impactos da crise financeira mundial que levaram governos dos países centrais a adotar medidas antineoliberais.

Moema Valarelli, do Ibase, revela que desde a primeira edição havia quem defendesse que o Fórum assumisse uma posição mais estritamente anticapitalista. Apesar de se colocar nesse bloco, ela ressalta a importância da composição ampla do FSM. “Eu, particularmente, achava que devíamos assumir uma postura anticapitalista desde a primeira edição. A avaliação era de que o neoliberalismo representava aquele momento do capitalismo, os males como a competição, a desigualdade e o individualismo não têm cura, pois são sistêmicos, tal como a ganância e a concentração de renda. Mas foi muito positivo manter o Fórum com aquela amplitude, agregando outros grupos que tinham uma crítica contundente ao neoliberalismo, mas não ao capitalismo”, afirma.

Crise e meio ambiente

Outra importante tarefa que se espera do FSM 2009 é a vinculação dos problemas climáticos e ambientais à crise financeira internacional. Para Valarelli, não se pode dizer que a turbulência econômica mundial “pegou de surpresa” os movimentos sociais.

"Desde 2001, o Fórum já apontava que o modelo econômico era insustentável, pois fortalece e aprofunda as desigualdades e destrói o meio-ambiente. Portanto, o FSM já fazia uma crítica sistêmica”, relembra.

A instabilidade do sistema financeiro mundial tornou o evento ainda mais importante e o fato de o FSM se dar em pleno decorrer da crise deve enriquecer as discussões, de acordo com Fátima Melo. “Quando estourou a crise financeira, enxergamos o acontecimento como uma grande oportunidade para discutir essa questão na Amazônia, que não está alheia ao que acontece no mundo. A crise está associada à questão climática e ambiental. Temos uma grande oportunidade de expor as várias dimensões da crise do modelo e do capitalismo. Esperamos que as discussões se articulem com a questão global mais geral”, diz.

Matéria retirada da Agência Brasil de Fato.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Marie-Monique Robin - "A Monsanto não é confiável"


Eu já sabia! 
Uma boa leitura, esta entrevista é da revista época - da globo, veja BEM! 

Marie-Monique Robin - "A Monsanto não é
confiável"
 
Documentarista diz que maior empresa de sementes vende produtos tóxicos e ameaça cientistas
 
Juliana Arini
 
A documentarista francesa Marie-Monique Robin, autora de O Mundo Segundo a Monsanto, dedicou três anos de sua vida para desvendar como uma indústria de químicos virou a maior companhia mundial de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) e uma das empresas mais influentes do planeta, segundo a revista Business Week. Marie trabalha há 25 anos com matérias investigativas e recebeu prêmios como o Albert Londres, em 1995, concedido a um documentário sobre o tráfico internacional de órgãos. Em 2004, ela foi aclamada na Europa ao produzir o também premiado Esquadrões da Mortea escola francesa, sobre a relação do governo francês com ditaduras da Amérioca Latina, nos anos 70. Para escrever a história da Monsanto, Marie analisou 500 mil páginas de documentos e viajou à Grã-Bretanha, Estados Unidos, Índia, México, Brasil, Vietnã e Noruega. A escritora fala a ÉPOCA sobre o seu último livro. Procurada pela reportagem, a Monsanto afirma que "agricultores enxergam um benefício no cultivo de seus produtos". (clique aqui para ler a resposta completa da empresa). 
 ENTREVISTA - MARIE-MONIQUE ROBIN 

 ReproduçãoQUEM É 
Documentarista e jornalista francesa. Seu documentário que denuncia táticas do serviço secreto francês e conexões com a repressão na América do Sul foi premiado pelo Senado da França.

O QUE FEZ
Já publicou livros denunciando uma rede internacional de tráfico de órgãos e a prática da tortura na Guerra da Argélia. O Mundo Segundo a Monsantovirou um documentário feito pela agência de cinema do Canadá. Para investigar a história, passou cinco anos levantando 500 mil páginas de documentos e viajando para Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Brasil, Vietnã, Noruega e Itália

ÉPOCA - Existem outras companhias que também desenvolvem a biotecnologia e possuem patentes sobre sementes. Por que fazer um livro exclusivamente sobre a Monsanto?
Marie-Monique Robin -
 Há cinco anos, quando trabalhava em três documentários sobre biodiversidade e os organismos geneticamente modificados - e ainda acreditava que eles não teriam problemas - eu acabei viajando muito. Fui para Canadá, México, Argentina, Brasil e Índia, e em todas essas regiões eu sempre encontrava denúncias contra a Monsanto. Foi quando eu decidi buscar quem é essa companhia que agora é a maior produtora de biotecnologia e de alimentos geneticamente modificados do planeta.

ÉPOCA - E como seria esse mundo segundo a Monsanto que você descobriu? 
Marie -
 Cheio de pesticidas. Cerca de 70% dos alimentos geneticamente modificados são feitos para serem plantados com uso do agrotóxico Roundup. Ao comer uma transgênico, a pessoa está praticamente ingerindo Roundup. E, ao contrário do que propagou a Monsanto, esse pesticida não é bom ao meio ambiente e muito menos biodigradável. Ele é muito tóxico. Tenho certeza de que nos próximos cinco anos ele vai ser proibido no mundo, tal como aconteceu com outro produto da companhia, o DDT. O mundo segundo a Monsanto também é dominado por monoculturas. O que é um problema para a segurança alimentar, pois concentra a produção de alimentos na mão de poucos. Também considero arriscado deixar a alimentação mundial na mão de companhias que no passado produziam venenos e armas químicas como o agente laranja, despejado por tropas americanas no Vietnã.

"A Monsanto foi condenada a pagar US$ 700 milhões de 
dólares pela contaminação em Annistion, nos EUA"


ÉPOCA - Os transgênicos são festejados por reduzirem o uso de pesticidas. Eles não teriam ao menos esse lado bom?
Marie - Não, isso é mentira. Os transgênicos não reduzem o uso de agrotóxicos. Pelo contrário, eles geram ervas daninhas cada vez mais resistentes aos agrotóxicos. Os transgênicos são apenas uma forma da Monsanto controlar a produção de alimentos no mundo.
EPOCA - Como uma empresa pode ter todo esse poder? Isso não é teoria da conspiração? 
Marie - Não, de forma alguma. Tenho todas as denúncias que faço baseada em documentos e estudos científicos. Esse monopólio sobre a comida é um processo que acontece há um tempo. Ele começou com a permissão das patentes das sementes, na década de 80. Isso deu às empresas exclusividade sobre as sementes que selecionam. Depois, vieram as chamadas plantas híbridas, que são estéreis e não produzem outras sementes. E por último, houve os royalities sobre os transgênicos. Agoras as multinacionais podem cobrar para si, uma parte do lucro da colheita dos fazendeiros. Os transgênicos também são produzidos para reagirem com produtos específicos. No caso da Monsanto, 70% tem que ser plantado com o Roundup. O que obrigados o produtor a comprar sementes e agrotóxicos da mesma empresa.
ÉPOCA - Outras multinacionais produzem nesse mesmo padrão. O que comprova que a Monsanto quer controlar a comida do mundo? 
Marie -
 Após a liberação da venda dos transgênicos, a Monsanto começou a comprar todas as produtoras de sementes do mundo. Hoje, ela é a maior produtora de sementes do planeta. O resultado é que se um fazendeiro quiser mudar sua produção de transgênicos, e voltar ao tradicional, daqui a alguns anos, provavelmente ele não vai conseguir mais, pois só vão existir sementes transgênicas, e da Monsanto. Essa já é uma realidade com a soja dos Estados, e o trigo, na Índia. Nos EUA existem processos contra a Monsanto por monopólio, algo similar ao que aconteceu com a empresa de tecnologia Microsoft.
ÉPOCA - E qual seria interesse da empresa em controlar a produção de alimentos? 
Marie - 
Ele querem manter o agrotóxico Roundup no mercado, o produto que responde por 45% do lucro da companhia. Acho que se o Roundup for banido, como acredito que possa acontecer daqui a alguns anos, os transgênicos vão desaparecer. Sem o Roundup, não é interessante ter transgênico. 

ÉPOCA - Por que culpar exclusivamente a Monsanto pelas armas químicas do Vietnã? A opção por usar armas químicas foi do governo americano, e não das companhias. E outras empresas também venderam químicos ao governo dos EUA. 
Marie - 
A venda de agente laranja para o governo americano foi um dos negócios mais lucrativos da Monsanto. Mas hoje, nenhuma das empresas que lucraram com esse processo quer se responsabilizar. No Vietnã, eu vi hospitais repletos de crianças deformadas, que nascem assim até hoje, porque o ambiente continua contaminado. Além do agente laranja, também usaram bifenil policlorado (um produto banido no mundo) nas misturas jogadas no país, e que a própria Monsanto sabia serem tóxicas desde 1937. Nem os soldados americanos foram alertados para os riscos. Como confiar que uma companhia com essa história domine a produção de alimentos? 
ÉPOCA - Qual é a prova que a Monsanto sabia que estava vendendo algo tóxico? 
Marie -
 Em 2002, os moradores de Annistion, no EUA, ganharam o direito de uma indenização de US$ 700 milhões de dólares da Monsanto. A empresa foi condenada por contaminar o meio ambiente e as pessoas da cidade com a sua fábrica química. Documentos mostram que desde 1937 a Monsanto sabiam dos riscos da toxidade dos PCBs. 

ÉPOCA - Os produtos da Monsanto são aprovados por agências como a FDA, que regula alimentos e medicamentos nos EUA. Como dizer que a FDA e outras agências internacionais estão sendo enganadas? 
Marie - 
A Monsanto usa seu poder econômico para pressionar governos e também infiltra seus ex-funcionários em cargos políticos. Esse processo é conhecido como portas giratórias. Tem casos célebres como a de Linda Fisher, que era funcionária da Agência Americana de Proteção Ambiental, e depois foi trabalhar na Monsanto, em 1995, e acabou retornando para EPA, em 2001. 

ÉPOCA - Se a empresa possui toda essa blindagem, então não há solução? 
Marie - 
Acho que só os consumidores podem evitar um problema maior. Na Europa isso já começou. Ninguém quer consumir transgênicos que não foram testados. Estão todos assustados com a atual epidemia de câncer. 

ÉPOCA - Mas qual a ligação do câncer com os transgênicos?
Marie - 
Ainda estou pesquisando o assunto. O meu próximo livro vai ser exatamente sobre isso, a relação entre a comida que consumimos depois da Revolução Verde e o aumento de doenças como o câncer e o Parkison. O mais interessante, um processo que começou justamente entre os próprios agricultores, o mais expostos aos agrotóxicos.

Tudo que se parece ser,  acaba, as vezes, de fato sendo! 
Nós já sabíamos! 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

"Seja Bem-vindo"




Iara Borges Aragonez
Coletivo Desenvolvimento Sustentavel
Ainda da Nova Zelandia


A resenha abaixo chega a mim como uma provocacao que me impulsiona imediatamente a compartilhar algumas constatacoes feitas no cotidiano, aqui na Nova Zelandia, relacionadas a alimentacao. Apenas, vou me referir as opcoes encontradas em restaurantes, na condicao de "turista" e de quem muito conviveu com residentes, deixando para outra oportunidade as prateleiras dos super-mercados, os quais tambem muito frequentei.

Estou IMPRESSIONADA com o habito alimentar imposto pela presenca assintosa do fast food. Estou falando do Mc Donalds, do Burger King, do KFC e do Subway. Esses "restaurantes" sao o equivalente ao nosso "SEJA BEM-VINDO", pois, juntamente com a Coca-cola, recebem, nas mais minusculas cidades, invariavel e ostensivamente, os passantes. Estes, por um valor medio de NZ$ 8,00, podem fazer a sua refeicao. O problema e que fica praticamente excluida qualquer outra possibilidade de alimentacao. Uma opcao por um restaurante que ofereca uma comida na qual seja possivel reconhecer que e "comida de verdade", pode custar de NZ$ 30,00 a NZ$ 40,00. E um assalto e impraticavel.

Caso voce queira comer em um lugar cuja aparencia nao lembre um Mc Donalds e escolhe um pequeno e simples estabelecimento, depara-se com o "plagio" ou, entao com uma criacao mais original, penso, chamada FISH & CHIPS. Esse prato e espantosamente consumido. E um peixe, literalmente embebido na gordura, com batata tao embebida, quanto. Depois de enfrentar uma fila saem todos felizes, com seu alimento envolto em jornais para manter a temperatura(fotos acima).Ha tambem muita pizza, em especial a Pizza Hutt.

Cadeia de valores oculta nos produtos consumidos? explorou trabalho? degradou o meio-ambiente? vai lesar a saude? nao importa. E mecanico o ato do consumo. Adultos, jovens, criancas, todos consomem sem refletir sobre as consequencias de suas escolhas. O fast food, a uniformizacao da comida e da paisagem(urbana/gastronomica) e uma triste realidade por esses pagos aqui. E, absolutamente consolidada, alias, quase o seu berco.

Sera que ainda temos tempo de construir outros caminhos, resistindo a invasao do fast food, resgatando, afirmando e reafirmando em nosso pais e nosso estado(RS), praticas alimentares com valor cultural, com a nossa identidade, saudaveis e capazes de fortalecer a agricultura familiar, local, ecologica, biodiversa? Ha momentos em que me sinto absolutamente vencida.

E esse e um deles.

Abaixo a resenha.

O DILEMA DO ONIVORO: O que devemos comer no almoço?

Resenha por Luciel Henrique de Oliveira
Engenheiro Agrônomo (UFLA, 1987), Mestre em Administração (UFLA, 1992), e Doutor em Administração de Empresas (EAESP/FGV,1998). Pós-Doutor em Administração, na área de Gestão Estratégica da Inovação Tecnológica e Operacional, (CenPRA - Ministério da Ciência e Tecnologia, 2007). Professor do UNIFAE e da EAESP-FGV. e-mail – luciel@uol.com.br

luciel@uol.com

O DILEMA DO ONIVORO:
UMA HISTORIA NATURAL DE QUATRO REFEIÇOES

Michael Pollan. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2007

O que devemos comer no almoço? Este livro é uma resposta longa e complexa para esta pergunta aparentemente simples. Ao longo do caminho o autor explica as implicações desta questão, e discute como uma questão tão simples pôde tornar-se tão complicada. As prateleiras de um supermercado, estágio final da cadeia alimentar contemporânea, são o ponto de partida escolhido pelo autor para começar a responder esta questão. O leitor é convidado a seguir o caminho inverso, reconstituindo o trajeto dos alimentos, desde o prato à nossa mesa até a origem de tudo: o solo. Quanto mais longo e intrincado é o percurso que liga as duas pontas dessa cadeia altamente industrializada, mais ignorantes nós nos tornamos a respeito do que estamos comendo.

Por que é cada vez mais complicado decidir o que almoçar? Os alimentos atualmente são vendidos apenas com base em seus benefícios para a saúde: um é capaz de reduzir seu colesterol, outro tem muitas fibras. Os nutrientes tornaram-se mais importantes que a comida em si, e o alimento tornou-se apenas um intermediário na entrega destas substâncias. Assim, escolher o que comer tornou-se uma decisão para profissionais, e não para amadores. Tem-se a impressão de que é necessário ter um diploma de nutrição ou bioquímica para tal escolha!

Afinal, que mistérios estão por trás de uma bolacha industrializada, de um hambúrguer, ou de um simples item de um cardápio de fast-food, como, por exemplo, um McNugget? Para responder a essa e outras perguntas, o autor leva o leitor a explorar, não apenas intelectualmente, mas sensorialmente, todas as implicações - éticas e ecológicas, econômicas e políticas - relacionadas ao ato de se produzir e consumir um alimento. O resultado da investigação é um misto de reportagem, ensaio e depoimento pessoal, numa obra que surpreende ao revelar que a aparente variedade dos modernos supermercados esconde uma alarmante uniformidade imposta pela superprodução industrial. Para chegar a um diagnóstico sobre o que considera a atual desordem alimentar, Michael Pollan investiga três mundos diferentes: o do cultivo e produção de alimentos em escala industrial, o do florescente negócio da agricultura orgânica (analisando o que tem de promissor e de enganoso), e o mundo ligado à caça e ao extrativismo. Neste último, ensaia uma volta à atividade primeira do Homo sapiens, o onívoro por natureza que todos nós somos.

Observamos que há cada vez mais produtos disponíveis nas prateleiras dos supermercados, criando a impressão de que temos mais tipos de comida disponíveis. Pollan explica que é fato que atualmente podemos encontrar diferentes frutas e vegetais do mundo todo num bom supermercado, muito mais do que encontraríamos cinqüenta anos atrás. Mas, ao analisar as fontes de calorias, nota-se que a nossa dieta está menos diversificada. Mais de dois terços das calorias consumidas diariamente vêm de apenas quatro vegetais cultivados em escala mundial e com grandes interesses econômicos: milho, soja, trigo e arroz. Há um século atrás, havia maior diversidade. Esta aparente diversidade no supermercado obscurece a realidade de que a diversidade de nossa dieta vem encolhendo.

Alimentos altamente industrializados são hoje a base da "dieta ocidental", que domina os Estados Unidos da América e se espalha pelo mundo. Nos últimos anos, a indústria vem lançando alimentos que supostamente seriam menos nocivos. Pollan denuncia essa manobra de marketing, que explora o medo dos consumidores para vender produtos de valor duvidoso. E lança um manifesto que propõe a volta à alimentação tradicional, orgânica e saudável dos nossos avós. Ele dá dicas de como qualquer um pode se alimentar com “comida de verdade”, em vez dos produtos artificiais da indústria alimentícia.

Pela primeira vez na história da humanidade, há mais pessoas obesas do que famintas no mundo. Os acima do peso respondem hoje por 1 bilhão da população mundial, diante de 800 milhões que passam alguma forma de privação na alimentação. As causas principais são más dietas e sedentarismo. Não ficamos fora desta estatística. O Brasil nunca foi tão gordo. Os brasileiros com massa corpórea superior à considerada normal já somam 43 milhões – o equivalente a 43% da população adulta, quase três vezes mais do em meados da década de 1990. Por conseqüência, a quantidade de pessoas em dieta para emagrecer também é enorme: 25% dos homens e 50% das mulheres. É um público propenso a acreditar em regimes que se vendem como capazes de operar metamorfoses na silhueta do dia para a noite, sem prejudicar a saúde.

Verifica-se atualmente uma obsessão em obter os nutrientes corretos, em alimentar-se de maneira saudável, e uma percepção errônea de que basta comer a comida correta que tudo estará bem com você e o mundo todo. Precisamos voltar a nos preocupar em conhecer toda a cadeia produtiva dos alimentos e não ficarmos obcecados com alguns nutrientes. A manutenção da saúde deve ser apenas uma conseqüência, e não o objetivo de comer bem. De forma geral devem ser aplicados cinco princípios éticos para uma escolha consciente na hora das refeições: transparência, equilíbrio, humanidade, responsabilidade social e necessidade.

Há ainda as implicações econômicas e políticas. Este livro é um importante alerta para um Brasil que se pretende transformar numa Arábia Saudita dos biocombustíveis. A afirmação de que não haverá necessidade de desmatamento para a produção e a exportação de grandes quantidades de biodiesel se baseia na avaliação de que grandes áreas de pastagens podem ser convertidas para monoculturas de oleaginosas com um pouco de modernização de nossa agricultura. Nos EUA, são necessárias duas calorias de fertilizantes sintetizados a partir do petróleo para produzir uma caloria de milho. E como o gado bovino é alimentado com milho, quase um barril de petróleo é consumido para cada animal abatido. Os excedentes da produção de milho estão na origem tanto da abundância quanto da obesidade. Os subsídios governamentais são enormes, o alimento industrializado tem preços baixos, mas dão origem aos altos índices de obesidade que custam algo em torno de 90 bilhões de dólares por ano em despesas médicas. Ou esses excedentes atravessam a fronteira do México, onde acabam com os pequenos produtores, aumentando a oferta e reduzido os preços.

Toda uma complexa cadeia de interesses gira em torno da produção de milho, impedindo que cessem os subsídios. A insensatez do agronegócio é objeto de uma análise que revela a importância de saber como se estrutura a indústria dos alimentos que chegam diariamente às nossas mesas. Há ainda a história dos outros três vegetais cultivados em escala mundial.

A industrialização dos alimentos mudou nossa relação com a comida. Como consumidores estamos desorientados, e não sabemos mais de onde vem nossa comida. A cadeia é tão grande que muita criança pensa que a comida vem do supermercado, que o leite vem da caixinha Tetra Pack. Muitas crianças hoje não entendem que a cenoura ou a batata são raízes. A indústria alimentar nos desconectou do fato de que para sobreviver dependemos de outras espécies, com as quais compartilhamos o planeta. Assim, nós entregamos a preparação dos alimentos para empresas de grande escala. Isto pode ser conveniente, porque nos faz ganhar tempo, mas estas empresas não cozinham bem: usam muito sal, gordura e açúcar, e logo a comida se torna altamente calórica e não tão nutritiva.

Em conseqüência nos tornamos mais vulneráveis. Somos vítimas mais fáceis das manipulações dos alimentos fast-food e das propagandas de dietas milagrosas. É uma das razões pela qual temos tantos problemas de saúde relacionados à alimentação. Não confiamos mais em nossas tradições, não sabemos mais como cozinhar. Precisamos tomar de volta a decisão sobre nossas escolhas alimentares e sobre a preparação das refeições. O livro segue por caminhos fascinantes e sua leitura nos faz perguntar se é isso mesmo que queremos para nossa vida.


Credenciais do autor

Escritor e jornalista estadunidense Michael Pollan é colaborador do New York Times Magazine. É professor de jornalismo na University of California, Berkeley, onde dirige o Programa de Jornalismo Científico e Ambiental. É autor de artigos polêmicos sobre a indústria alimentar. Recentemente lançou seu novo livro, In Defense of Food (Em Defesa da Comida), ainda sem tradução no Brasil.

Referências

POLLAN, Michael. O Dilema do Onívoro: Uma história natural de quatro refeições. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2007
POLLAN, Michael. The Botany of Desire: A Plant's-Eye View of the World. New York: Random House. 2001.
POLLAN, Michael. The Omnivore's Dilemma: A Natural History of Four Meals. New York: Penguin Press. 2006.
POLLAN, Michael In Defense of Food: An Eater's Manifesto. New York: Penguin Press. 2008
NOTA: Este último livro já está disponível em tradução ao português: Em defesa da Comida.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

ÁGUA PARA ACORDAR O MUNDO!


Que coisa bonita a menssagem da nossa amiga Iara lá da Nova Zelandia.  Estamos com saudades!

Bom, aviso que o blog, por conta do fuso horário Nova Zelandia - Brasil,  estava dormindo, mas agora acordou, sem pressa! 

Por sugestão do nosso amigo Pacheco e Rafael, estamos acordando o  blog  com um artigo sobre a água. Este bem natural tão ameaçado pela violência do capitalismo mundial. Esta violência que incentiva cada vez mais o consumo de coisas e mais coisas, sendo que, quase sempre estas coisas são totalmente desnecessárias para a nossa vida. 
E neste caminho de destruição,  sobra para a natureza. 

Que espécie esta,  criada e mutilada,  de uma raça humana. 


Da Carta CAPITAL para o BLOG do COLETIVO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.

A água (que ninguém vê) na guerra

Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural.

"Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, 'há uma realidade histórica de guerras pela água' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias"Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002] *

A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem. 

Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo. 

E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário "Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra" (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que "a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo". Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina.  Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o "dono" das:  - águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão; - águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza. 

Tais águas são 'transfronteiriças', recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.  

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.  Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais. 

A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que "é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade"(1). Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território. O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.  Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um 'direito adquirido sobre a água'. 

Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu: "Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza"

E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d'água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das casas), confiscam as bombas d'água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d'água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil).

Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.  Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.  A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.  Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita?  Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.  

Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:  - a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);  - em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d'água; - em 2002, a construção o 'muro de segurança' viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, "o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem...(2). Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, agora falta água para beber à população palestina do entorno do muro; - antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.

Quantos falam a respeito disso?  Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados que objetivavam apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel. Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água - palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia. Na prática, é utopia.  O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)?  Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?

 * Ver http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/ 2002/11/23/jorint20021123004.html (1) Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996.  (2) Ver http://www.galizacig.com/actualidade/200403/ portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm (*) Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail:ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br


A foto é do Paulo Mendes, pescaria.