quinta-feira, 26 de junho de 2008

SOJA, EUCALIPTO E MINHA FANTASIA FRUSTRADA DE VIDA NO CAMPO.

Verônica Loss*

Sou um bicho de cidade, nasci e me criei em Porto Alegre, com muito gosto e carinho por essa cidade. Mas, como a maioria dos seres humanos, sempre insatisfeitos com o que têm e com vontade de conhecer coisas novas, desde criança fantasiava viver no campo. As histórias de Monteiro Lobato com o Sítio do Pica Pau Amarelo, Érico Veríssimo e até chapeuzinho vermelho com sua vovó e lobo mau alimentavam minha fantasia. E minha mãe gostava de me levar em passeios pela periferia de Porto Alegre, Belém Velho e Lami, lugares que em naquela época eram compostos de pequenas propriedades rurais. Passávamos de carro (aquela velha Brasília amarela muito bem desfrutada pela família em passeios de fim de semana) por uma estradinha que começava no final do bairro Glória. Até hoje não sei o nome daquela rua, pra mim vai ser sempre “A Estradinha”, que subia o morro, tão linda, e eu imaginava que aquilo era a serra. Lá cruzávamos por porteiras de sítios, e se víamos da entrada que tinha árvores frutíferas, horta ou galinhas batíamos palmas para ver se os donos queriam vender sua produção. Naquela época muitos daqueles lugares não tinham luz elétrica ou telefone, ônibus de vez em quando, celular e internet nem em sonho! Creio que por isso nos recebiam com tanta alegria. Gente diferente, notícias da cidade... mandavam entrar, mostravam a plantação, a criação. Voltávamos com o porta-malas da Brasília lotado de verdura, fruta, ovos, ervas. E minha fantasia de viver no campo crescia depois de cada passeio desses.
Os caminhos da vida e a vontade de estar mais perto da natureza me levaram pra Florianópolis em 1994, e apesar de ser um lugar mais preservado que Porto Alegre, com sítios e agricultura orgânica, minha vida continuava urbana. Fortaleci meus vínculos com a alimentação saudável, a ecologia e fiz disso trabalho e meta de vida, mas seguia na cidade, pegando ônibus, dirigindo carro, respirando fumaça.
Chegou o dia que a “roda da fortuna”, ou “destino”, chamou a Hugo, meu companheiro, de volta à sua terra natal, Young. Que é Young??? Uma cidadezinha tão pequeninha que quase ninguém ouviu falar, no interior do interior do Uruguai, no sul do sul da América do Sul. Que tem lá? Campo... campo! Uruguai, lá vou eu! Toda a cidade tem a população do Campeche, bairro que morávamos em Floripa. Ar puro, gente pura, vaquinhas, ovelhinhas, leite e ovos frescos, fruta colhida do pé, horta! Vendi minhas tralhas, carreguei o que sobrou e me fui com tudo pra lá, feliz e cheia de expectativa.
Antes de chegar a Young, da janela do ônibus, já percebi algo raro. Muito eucalipto no caminho. Sempre escutei que Uruguai era um país ganadeiro, mas o que aparecia na estrada era muita árvore e poucas vacas. Quando viajávamos com minha mãe e sua Brasília amarela era comum ver no Rio Grande do Sul muito pasto e algum bosquezinho de eucalipto pra aparar o vento e fazer sombra para as vacas. Dizem que no Uruguai era igual, mas o que eu estava vendo era muito bosque de eucalipto e um pastinho e outro com algumas vaquinhas lutando por espaço. Passou batido, minha fantasia era maior do que a realidade que gritava na minha frente. Onde não se via eucalipto aparecia muita soja, sorgo e girassol.
Cheguei em Young. Hugo levou-me ao mercado e aos lugares que vendiam frutas e verduras. Foi o começo da frustração... pouca variedade, verde só alface e acelga. Aos poucos fui descobrindo que a maioria das frutas são produzidas em Salto, passam por aqui, vão todas pra Montevidéu e de lá são redistribuídas, gerando um desgaste desnecessário de tempo, combustível, embalagem, impostos e principalmente da vitalidade do alimento que passa dias viajando até chegar na nossa mesa, sem falar no incremento do preço que essa viagem toda gera. Young abriga uma indústria que produz e embala cítricos, que vão pra Montevidéu e de lá são redistribuídas pro interior... inclusive pra Young. E as verduras, a horta, o leite fresco? Não tem mais sítios, nem mesmo as grandes fazendas têm alguns poucos hectares de horta e cereais como antigamente, pro consumo da casa e dos empregados. Os fazendeiros compram tudo no mercado, os campos estão arrendados para empresas que cultivam eucalipto, soja, sorgo e girassol – transgênicos. Com muito glifosato.
O Uruguai não é mais um país ganadeiro, é um país forrageiro, e principalmente pasteiro, com seus campos sendo substituídos pelo famigerado eucalipto que vai virar pasta de celulose, e enquanto cresce suga toda água do solo, alcaliniza a terra tão linda e fértil desse paysito. E a água vai ficando envenenada, os peixes vão morrendo e vemos o aviãozinho sobrevoando os campos e jogando uma substância líquida que o comum das pessoas não tem a menor idéia das conseqüências disso pra elas e a gerações futuras. Enquanto isso aprendem a usar o glifosato no jardim da casa, na calçada, nas praças onde as crianças brincam, afinal é um “mata-pasto” tão bom que poupa o trabalho de capinar. Essas mesmas famílias que há 20 anos tinham sua vida e seu sustento assegurados com o trabalho no campo, mesmo que fosse de empregados em alguma fazenda, hoje inflam a área urbana de Young e sustentam suas famílias com empregos temporários e sub contratos para as empresas florestais. Plantando eucalipto, podando, preparando e aspergindo veneno sem proteção adequada, adoecendo e morrendo sem a devida assistência para eles e suas famílias. E é essa a nossa chamada “política de estado”, com a conivência de políticos eleitos pela população para defender seus interesses, e que vem há muitos anos proporcionando todo esse processo de invasão do monocultivo, com isenções fiscais de todo tipo, colocando o país em uma situação que, como já disse Galeano, “é a calamidade de ter que escolher entre morrer de fome ou morrer envenenado”.
E a saudável vida no campo dos meus sonhos de infância? Não sei se esse campo ainda existe, pelo menos nesses frios pagos latinoamericanos...

Porto Alegrense que vive
no Uruguai, na cidade de Young

2 comentários:

Paulo Mendes disse...

Um depoimento muito forte e verdadeiro que se passa no Uruguai, mas com certeza, poderia ser em qualquer cidade do Rio Grande do Sul onde a realidade é a mesma. Sem dúvida que sendo no Uruguai, que fora chamado de Uruguai NATURAL, faz disso uma dor maior. É o nosso pampa,que se não fosse a fronteira política, seríamos todos uma mesma nação.
Peleando se muda esta realidade.. o caminho se faz caminhando...
Paulinho Mendes

Anônimo disse...

Lembrando Martin Fierro, de José Artigas, "las fronteras, solo las hay por arte de los gobiernos". E assim, também por arte dos governos, para satisfazer apetites de lucro de grandes empresas, se tenta destruir este bioma pampa, com sua biodiversidade, sua paisagem, sua cultura, sua gente. Mas por certo ainda há muita coisa para defender e para (re)construir, de um jeito diferente. Assim como a vida do pampa, que teima em brotar e crescer e florescer, mesmo sob as mais duras condições, precisamos da das consciências que tem coragem e força para lutar!
Gervásio